Debate sobre Lula rachou entre torcida por prisão ou Presidência

Publicado em 11/02/2018 por Folha de S. Paulo Online

casal em frente a boneco de lula
Casal tira selfie em frente ao Pixuleco, boneco que mostra Lula vestido de presidiário - Nelson Almeida/AFP

Uma boa maneira de produzir mitos políticos é pelo martírio. Funciona assassinato (Martin Luther King), execução (Tiradentes), prisão (Gandhi e Mandela) e similares. A eficácia cresce quando a biografia do candidato a mártir é exemplar de injustiça que assola grandes estratos sociais: por sua cor da pele, nacionalidade, sexualidade, religião, origem social etc.

Lula preenche os quesitos. Cresceu comendo calango, foi preso político na ditadura e sofre ameaça de encarceramento. Somando políticas sociais de seus governos e reputação no exterior, tem inegável cacife político. Mas o desfecho da trajetória de herói está em suspenso. E o debate público se clivou entre torcedores de dois finais igualmente emocionantes: prisão ou Presidência.

Um time delata a traição de Lula aos princípios que encarnava, manchando sua biografia com a nódoa da corrupção. Pede punição exemplar. Enjaular quem foi duas vezes presidente, elegeu sucessora, tem notoriedade e popularidade, seria a prova dos nove da democracia brasileira: a de que a lei, como no filme, é para todos. Por seu simbolismo, a prisão de Lula seria o ápice da depuração moral do país. Virou obsessão.

O outro lado, igualmente apaixonado, denuncia a mesma operação como injustiça. Moro teria aberto temporada de caça, que foi da condução coercitiva em São Paulo à coincidência de dosimetria em Porto Alegre. Rigor, ritmo e procedimento processuais atípicos provariam que Lula é vítima de perseguição judiciária.

E o tribunal do Facebook adenda: por que pau que bate em pedalinho de Lula poupa aeroporto de Aécio? A injustiça só se remediaria com o retorno à Presidência.

Não é de hoje que o país rachou em dois campos. A cisão está aí desde que Lula chegou ao Palácio do Planalto. Ganhou momentum no impeachment de Dilma e agora voltou à toda.

A turma que almeja punir Lula herdou os slogans anticorrupção de 2013. A antipolítica se consolidou em antipetismo e tem ancoradouro social certo: quem mais rejeita Lula (63%), segundo o último Datafolha, tem renda de dez salários mínimos ou mais. Esses abastados, sequiosos por "nova" política, organizaram Partido Novo, Renova Brasil e congêneres para lançar líderes capazes e independentes.

A ideia ressoa a reforma política do Partido Liberal em 1881. Para garantir a "verdadeira" representação dos brasileiros, reduziram o eleitorado aos "homens de bem", dotados de certa renda e, por isso, independentes para formar opinião e escapar do clientelismo. E deixaram de fora os "dependentes": analfabetos, mulheres, jovens, pobres e escravos.

Agora também se propõem candidaturas de bem-sucedidos, cujos patrimônios os protegeriam de sereias corruptoras, e se apela ao "eleitor consciente", que votaria motivado, não obrigado.

Como no século 19, o ponto de fuga da proposta do 21 é a elitização de candidaturas e a restrição do eleitorado. Nos Estados Unidos, a cantilena de candidato com independência financeira e eleitores com voto facultativo deu em Donald Trump.

Já a turma que torce por Lula carrega o outro lado de 2013, prolongado na campanha "Não Vai Ter Golpe": a defesa de políticas sociais. Não é acaso que Lula tenha maior vantagem entre eleitores de 35 a 44 anos, os que abraçaram a pauta da igualdade durante a redemocratização. O foco de Lula está nos pobres, como alvo de políticas e como eleitorado preferencial. Essa é sua base social firme.

Ao contrário de muitos ascendentes, o ex-presidente não apaga, mas repisa sua origem, e assim se identifica com os de baixo. Segundo o Datafolha, mesmo após a sentença dos três do TRF-4, boa parte do país (37%) ainda elegeria Lula, mas seus fidelíssimos são o último degrau da escadaria social: metade dos menos escolarizados e dos que ganham até dois salários mínimos, faixa que cresce em cidade pequena e bate em 58% no Nordeste.

Para esses eleitores, Lula é o herói, pobre que venceu na vida, ajudou outros pobres e, por isso, foi punido pelos ricos. Vive um calvário, mas aguarda a redenção. Nenhuma punição quebrará a identificação dessa parte dos brasileiros com o ex-presidente.

A questão é se a trajetória de triunfo suplantará o tranco do martírio. Ao receber a pena, Lula se comparou a Mandela. O sul-africano amargou 27 anos na escuridão do cárcere, mas seus seguidores mantiveram a acesa a chama que o levou da prisão à Presidência. A resiliência de Lula é certa. Incerto é como seu séquito reagirá se lançarem o líder às trevas.