Dívida da Venezuela entra em default seletivo

Publicado em 14/11/2017 por Diário Catarinense

Abalada por uma severa crise econômica, a Venezuela entrou em default seletivo depois que não conseguiu pagar 200 milhões de dólares em bônus globais, declarou a agência classificação financeira Standard & Poors, o que ameaça desencadear o não cumprimento de sua dívida externa gigantesca.

A S&P, a primeira a anunciar o default parcial da Venezuela, explicou que tomou a decisão após os 30 dias concedidos para a realização dos pagamentos dos títulos 2019 e 2024.

"Rebaixamos duas notas para D (default) e reduzimos a classificação da dívida soberana em moeda estrangeira a longo prazo a SD (default parcial)", indicou a S&P.

A agência fez o anúncio poucas horas depois de uma reunião em Caracas entre o governo de Nicolás Maduro e credores internacionais, aos quais não foi apresentado um plano concreto para a renegociação de sua dívida externa, de quase 150 bilhões de dólares.

A reunião durou apenas 25 minutos, mas foi considerada um sucesso pelo governo de Nicolás Maduro. Os credores, no entanto, saíram decepcionados.

O vice-presidente Tareck El Aissami leu um texto no qual prometeu novos encontros para "avaliar propostas", sem estabelecer datas, afirmaram à AFP algumas fontes.

El Aissami declarou ao canal estatal de TV que a Venezuela está "blindada", mas acusou o governo de Donald Trump de "fechar vias" ao país com as sanções financeiras.

Maduro anunciou em 2 de novembro que o país buscaria "refinanciar e reestruturar" a dívida, em consequência de uma "perseguição financeira" comandada pelos Estados Unidos.

"O default nunca chegará", afirmou o presidente no domingo.

O governo afirmou que muitos investidores compareceram ao encontro, mas outras fontes afirmaram à AFP que os estrangeiros não estavam na reunião porque o governo dos Estados Unidos incluiu El Aissami na lista de sanções, proibindo seus cidadãos de negociar com ele.

"As sanções dos Estados Unidos sobre a Venezuela e funcionários do governo provavelmente resultarão em uma longa e difícil negociação com proprietários de títulos", opinou a S&P.

- Default esperado -

O não cumprimento dos pagamentos pode ser declarado pelo governo, os grandes credores ou pelas agências classificação. A S&P é a primeira.

Em Nova York, a Associação Internacional de Swaps e Derivativos (ISDA), que reúne proprietários de títulos da dívida, disse que nesta segunda-feira verificou informações "sobre se ocorreu uma interrupção de pagamento" de um bônus da PDVSA de 1,161 bilhão de dólares.

O governo garante que já transferiu os recursos, mas os credores não haviam recebido até sexta-feira. A avaliação vai continuar nesta terça-feira e, em caso negativo, resultaria no pagamento dos seguros CDS (Credit Default Swaps).

Caracas afirma que pagou a cota vencida na sexta-feira, de 81 milhões de juros de um título da PDVSA, assim como os 200 milhões de dívida soberana que deveriam ser cancelados na segunda-feira.

Com reservas internacionais de apenas 9,7 bilhões de dólares, a Venezuela deve quitar até o fim do ano pelo menos 1,47 bilhão de dólares. E para 2018 tem obrigações de mais de US$ 8 bilhões.

Analistas previam que a Venezuela terminaria em default, mas divergiam sobre a data.

- Aposta em China e Rússia -

Maduro anunciou avanços nas negociações com seus aliados: China - uma dívida de 28 bilhões de dólares - e Rússia, que esta semana assinará um acordo de reestruturação de três bilhões dos oito bilhões devidos pela Venezuela.

A assinatura está prevista para quarta-feira, indicou à AFP uma fonte próxima ao governo russo. O ministério das Finanças do país não confirmou a informação e nenhum evento público está programado, enquanto a embaixada da Venezuela em Moscou anunciou uma entrevista coletiva para a data.

O porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores, Geng Shuang, disse que "a cooperação sino-venezuelana em termos de financiamento acontece normalmente".

"Pensamos que o governo e o povo venezuelano têm a capacidade de resolver o problema da dívida de seu país", disse.

China e Rússia boicotaram, ao lado de Bolívia e Egito, uma reunião informal no Conselho de Segurança da ONU sobre a Venezuela, durante a qual a representante dos Estados Unidos chamou o país sul-americano de "ameaça".

Maduro enfrenta forte pressão internacional. Somando-se a EUA e Canadá, os chanceleres da União Europeia (UE) adotaram na segunda-feira uma série de medidas. Entre elas, um embargo de armas e um marco jurídico sobre futuras sanções contra "responsáveis por graves violações dos direitos humanos", com o objetivo de "favorecer" o diálogo na Venezuela.

Caracas chamou as medidas de "hostis" e pediu uma reunião com a diplomacia europeia.

Com a queda dos preços do petróleo, fonte de 96% das divisas do país, o governo cortou drasticamente as importações para pagar a dívida, o que provocou uma severa escassez de alimentos e medicamentos.

De acordo com o Eurasia Group, Maduro busca "liberar recursos" para importações antes das eleições presidenciais de 2018. A médio prazo, no entanto, a crise deve piorar e a Venezuela enfrentaria litígios e possíveis embargos de ativos da PDVSA.

* AFP