EUA: Pragmatismo republicano salva governo e ameaça economia

Publicado em 10/02/2018 por O Globo

Grades no entorno do Congresso americano durante a paralisação de fundos federais - LEAH MILLIS / REUTERS

WASHINGTON - A segunda fase da paralisação do governo americano neste ano por falta de acordo orçamentário durou apenas poucas horas, mas foi o suficiente para criar embaraços ao Partido Republicano. A legenda do presidente Donald Trump aceitou uma ampliação de US$ 300 bilhões nos gastos públicos em dois anos, evitando o chamado shutdown, mas afastando o partido da imagem de fiscalmente responsável que tentava construir quando estava na oposição. A medida, junto com a redução de impostos aprovada em dezembro, pode gerar benefícios de curto prazo e impactar as eleições legislativas de novembro.

Coube ao senador dissidente Rand Paul escancarar a contradição de seu partido com um discurso longo na noite de quinta-feira. A legenda, desde o governo de Bill Clinton (1993-2001), defende a tese de que o Estado não pode ser grande - apesar do aumento de gastos na gestão de George W. Bush, que ele creditou a despesas militares por causa de sua guerra ao terror. O risco de déficits sempre foi um dos motivos que colocaram o partido contra o Obamacare, a reforma que o então presidente Barack Obama fez no sistema de saúde. Assim, o senador atrasou a votação do acordo orçamentário no Senado, o que fez com que Washington acordasse em shutdown - o que já havia ocorrido entre os dias 20 e 23 de janeiro.

- Eu quero que as pessoas se sintam desconfortáveis. Quero que elas respondam aos que lhes perguntam: "Como é que vocês eram contra os déficits do presidente Obama e agora apoiam déficits republicanos?" - discursou Paul, lembrando que o partido, com o discurso da austeridade, chegou a paralisar o governo democrata.

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O que acontece se o governo dos EUA entrar em paralisação?

Mas ainda na madrugada de ontem, a ampliação orçamentária foi aprovada por senadores e deputados e sancionada por Trump logo de manhã. O acordo de dois anos já está em vigor, embora ainda tenha que passar por uma segunda votação até 23 de março. Ele garante recursos a longo prazo às Forças Armadas e à segurança interna e ainda financia, por dez anos, um programa de saúde infantil. Como contrapartida democrata, foram incluídos no Orçamento US$ 90 bilhões em ajuda a estados e territórios afetados por desastres naturais recentes.

Trump comemorou o acordo, embora tenha reclamado das concessões aos democratas.

"Acabei de assinar a lei. Nossos militares agora estarão mais fortes do que nunca", escreveu o presidente no Twitter.

RISCO PARA O FUTURO

Assim, especialistas acreditam que em pouco tempo o déficit americano pode ultrapassar US$ 1 trilhão por ano, o que seria um novo recorde e colocaria em xeque a economia: com mais gastos e menos receita por causa da reforma tributária, o FED (banco central) pode ser obrigado a acelerar a alta de juros para conter uma eventual elevação da inflação causada pelo desequilíbrio fiscal, anulando o ganho esperado no crescimento econômico com o corte de impostos.

- Os republicanos mostraram que, quando há um outro republicano na Casa Branca, não se importam com o déficit - afirmou Juan Carlos Hidalgo, analista de políticas públicas do Cato Institute. - Esse acordo resolve o problema de curto prazo e permitirá uma sensação de crescimento até as eleições, mas anula qualquer ganho da reforma tributária e joga uma bomba para as gerações futuras.