Febre amarela não chegou aos centros urbanos, diz especialista

Publicado em 12/01/2018 por Carta Capital

O combate à proliferação da febre amarela ganhou novas estratégias recentemente. Por recomendação e autorização da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Ministério da Saúde adotou uma medida preventiva de realizar a campanha de vacinação com doses fracionadas. A ação será realizada de fevereiro a março em 75 municípios de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

A estratégia foi adotada para assegurar imunização a cerca de 20 milhões de pessoas das localidades que são contíguas a regiões onde o vírus circula. O Estado de São Paulo tem registro de 21 mortes, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde. O Rio de Janeiro também contabiliza a primeira morte decorrente da doença na zona rural de Teresópolis.

"Os casos, no entanto, não querem dizer que a doença voltou para os centros urbanos", afirma o diretor do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), Mauricio Zuma. A unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)  é responsável pelo desenvolvimento tecnológico e pela produção de vacinas, reativos e biofármacos voltados para atender prioritariamente às demandas da saúde pública nacional.

Na entrevista a seguir, Zuma analisa a atual fase da doença, a necessidade da imunização e o estoque de vacinas no País.

Carta Capital: A febre amarela retornou aos centros urbanos?
Mauricio Zuma:
Não. Não estamos no ciclo urbano da doença, que é quando ela é transmitida pela picada de mosquitos Aedes aegypti. Essa fase está erradicada desde 1942. Todos os casos registrados desde o ano passado são de origem silvestre, ou seja, ocasionados por pessoas que estiveram em áreas endêmicas e foram picadas por mosquitos contaminados, principalmente dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que também contaminam os macacos.

CC: Então por que a necessidade de vacinar a população em caráter emergencial?
MZ: Embora não haja casos urbanos, a doença vem se aproximando perigosamente de áreas densamente povoadas por serem contíguas às regiões onde o vírus circula.

CC: O que são as doses fracionadas? O que muda em relação às doses padrão?
MZ: A dose fracionada difere da padrão apenas no quesito volume e tempo de proteção. A dose padrão é de 0,5 Ml, enquanto a dose fracionada é de 0,1 Ml e protege por oito anos, segundo os últimos estudos realizados pelo Biomanguinhos/Fiocruz.

CC: Do ponto de vista da segurança imunológica, a eficiência é a mesma?
MZ: Nossos estudos indicam que a resposta imunológica das pessoas vacinadas com a dose fracionada é equivalente a das pessoas que tomam a dose plena. Como nossos estudos para a dose fracionada foram feito por oito anos, temos segurança para afirmar a imunização nesse período. Já na dose padrão, há uma recomendação da Organização Mundial da Saúde, seguida pelo Ministério da Saúde, de que uma dose é válida para a vida inteira.

CC: A dose fracionada será direcionada para toda a população?
MZ: Não. Ao todo, 15 milhões receberão a dose fracionada da vacina e as outras 4,7 milhões, a dose padrão.

CC: A dose fracionada também não dá direito ao certificado internacional de vacinação, certo? Qual a orientação para pessoas que vão para esses países?
MZ: A Anvisa não admite a emissão do certificado com a dose fracionada, devido a uma convenção estipulada. Nesses casos, a recomendação é que essas pessoas apresentem os comprovantes da viagem e tenham assegurado o direito à dose padrão. As crianças também não tomarão a dose fracionada.

CC: Em julho do ano passado, um estudo da FioCruz em parceria com o Instituto Pasteur, da França, alertava para o risco de reurbanização da febre amarela no Brasil. Por que o alerta?
MZ: A febre amarela é uma doença sazonal que se intensifica nos períodos de calor e chuva, condições favoráveis para o crescimento da população de mosquitos transmissores. O alerta foi nesse sentido, pois havia uma sensação de que estava tudo controlado. Orientamos sobre a importância da continuidade da vacinação e do controle do Aedes aegypti na cidade, para evitar sua face urbana.

CC: O que é necessário para o controle efetivo do Aedes nas cidades?
MZ:  As medidas sanitárias locais são muito importantes. Os municípios precisam garantir, por exemplo, as questões de saneamento, como limpeza de córregos e recolhimento de lixo. A população também precisa estar atenta aos possíveis criadouros domésticos.

CC: A recomendação é para que toda a sociedade se vacine?
MZ: Sobretudo a população que está nas regiões categorizadas como de risco pelo governo federal e Ministério da Saúde. Alguns grupos requerem orientação médica, caso de gestantes, mulheres que estão amamentando, idosos, pessoas com HIV, que terminaram o tratamento de quimioterapia e radioterapia ou com doenças do sangue, como anemia falciforme.

CC: Qual o estoque de vacina do País?
MZ: Não fazemos estoque, isso fica por conta do Programa Nacional de Imunização, do Ministério da Saúde. Em 2017, já aumentamos em quatro vezes a produção e entrega de vacinas ao programa. Foram 64 milhões de doses, ante 16 milhões em 2016. Cabe ao programa gerenciar essa distribuição e possível estoque, de acordo com o contexto atual.

CC: O País corre o risco de ficar sem vacinas?
MZ: Não. Este ano vamos entregar ao Ministério da Saúde mais 48,3 milhões de doses, conforme acordo estabelecido. Também estamos trabalhando em longo prazo para aumentar a nossa capacidade de produção. Uma das estratégias nesse sentido é construir um novo centro de produção em Santa Cruz, no Rio de Janeiro, que vai nos trazer uma grande capacidade de resposta em curtos períodos de tempo.