Militares americanos faziam vista grossa a pedófilos afegãos

Publicado em 11/02/2018 por Gazeta do Povo

Em 5.753 ocasiões, entre 2010 e 2016, militares dos Estados Unidos pediram para rever unidades militares afegãs para verificar se houve qualquer ocorrência de "violações graves dos direitos humanos". Em caso afirmativo, a lei americana determina que a ajuda militar seja interrompida nessas unidades.  

Isso nunca aconteceu. 

Essa foi uma das conclusões da investigação sobre o abuso sexual infantil por forças de segurança afegãs e a suposta indiferença do exército dos EUA ao problema, de acordo com um relatório divulgado pelo Inspetor Geral Especial para a Reconstrução Afegã, conhecido pela sigla SIGAR.  

O estudo, encomendado pela administração Obama, foi considerado tão explosivo que a princípio foi definido como "Secreto/Interno", com a recomendação de permanecer em sigilo até 9 de junho de 2042. Foi concluído em junho de 2017, mas parece ter incluído dados até 2016, antes do início da administração Trump.  

O relatório foi amplamente editado e, pelo menos nas partes que foram divulgadas, não deu grandes esclarecimentos sobre a prevalência do abuso sexual na polícia e nas forças armadas afegãs, nem com que frequência os militares americanos faziam vista grossa à prática generalizada do bacha bazi, ou "brincadeiras de meninos", na quais alguns comandantes afegãos mantinham garotos menores de idade como escravos sexuais.  

"O Departamento de Defesa e o de Estado adotaram medidas para identificar e investigar incidentes de abuso sexual infantil, mas sua extensão pode nunca ser conhecida", disse o relatório.  

O SIGAR relata que uma investigação sobre o bacha bazi foi aberta a pedido do Congresso e em resposta a um artigo do New York Times de 2015, que descreveu a prática como "generalizada". E disse que soldados dos EUA que deram queixa tiveram suas carreiras arruinadas por seus superiores, que os haviam encorajado a ignorar esses episódios.  

"Os Departamentos de Estado e de Defesa só começaram a abordar o problema depois que ele foi divulgado pelo New York Times. E mesmo após essa matéria, as políticas adotadas e os recursos empregados parecem questionáveis. Quando o Congresso aprovou a Lei Leahy, a prioridade era a questão da grave violação dos direitos humanos. Como nosso relatório claramente mostra, as duas agências não conseguiram cumprir essa tarefa", disse John F. Sopko, o inspetor geral especial.  

O ex-oficial das forças especiais, Capitão Dan Quinn, que bateu em um comandante afegão que mantinha um menino acorrentado à sua cama como escravo sexual, disse na época que, como resultado, foi demovido de seu comando.

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Perder o cargo foi o resultado para Dan Quinn após denunciar um comandante que escravizava sexualmente um garoto afegão KIRSTEN LUCE/NYT

"Estávamos pondo no poder pessoas que faziam coisas piores que os talibãs", disse Quinn, que deixou as forças armadas.  

O sargento Charles Martland, altamente condecorado, foi forçado a sair do Exército depois de bater um comandante da polícia afegã que estuprava crianças em Kunduz. Martland se revoltou depois que o comandante afegão sequestrou um menino, estuprou-o, e depois bateu na mãe do garoto quando ela tentou resgatá-lo.

Os inquéritos do Congresso aparentemente levaram à reintegração de Martland.  

O artigo do Times também citou a morte suspeita do soldado Gregory Buckley Jr., fuzileiro americano que foi morto no posto para o qual havia sido destacado, com um comandante famoso por manter um séquito de meninos bacha bazi. Buckley havia se queixado desse comandante e foi morto, juntamente com dois outros fuzileiros, por um dos garotos do comandante.  

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O pai de Gregory Buckley Jr., soldado que teve coragem de denunciar a prática bacha bazi KIRSTEN LUCE/NYT

O relatório do SIGAR não fez nenhuma menção aos casos de Buckley, Quinn e Martland, e parece ter entrevistado apenas três soldados americanos que não deram seus nomes e que afirmaram estar cientes da prática, que muitos soldados e oficiais afegãos disseram aos jornalistas ser generalizada.

Ajuda militar  

Começando em 12 de agosto de 2016, o Departamento de Defesa investigou 75 casos de violação dos direitos humanos, sete envolvendo o abuso sexual de crianças, mas até mesmo as autoridades do departamento reconheceram que isso era uma pequena fração do total, disse o relatório SIGAR.  

Sob a Lei Leahy, os fundos da ajuda militar americana devem ser cortados de qualquer unidade militar estrangeira em que haja violação dos direitos humanos, o que inclui a prática de bacha bazi, com a escravidão e o estupro de meninos, mas outra disposição da lei americana, a chamada "cláusula não obstante", diz que a ajuda aos militares afegãos deve estar disponível "não obstante qualquer outra disposição de lei".  

O relatório do SIGAR disse que a tal cláusula havia sido repetidamente usada para evitar o corte da ajuda militar às unidades afegãs.  

"A continuada assistência do Departamento de Defesa às unidades sobre as quais possui informação de grave violação dos direitos humanos prejudica o trabalho de autoridades do governo dos Estados Unidos de convencer o governo afegão da importância do respeito aos direitos humanos e ao Estado de direito", disse o relatório. 

Mas também afirma que não foram encontradas evidências de que soldados americanos foram obrigados a fazer vista grossa, ou de que seus comandantes toleravam a prática bacha bazi.  

Comandantes militares americanos no Afeganistão negaram várias vezes a existência de alguma política para tolerar o abuso sexual.  

O relatório do SIGAR recomenda restringir o uso da "cláusula não obstante" para escapar das disposições da Lei Leahy, e a lei orçamentária militar apoia essa recomendação.  

A prática é tão generalizada que pelo menos um dos candidatos à presidência em 2014 era um senhor da guerra apoiado pela CIA, Gul Agha Shirzai, notoriamente acusado de pedofilia e de manter meninos bacha bazi.  

O presidente Ashraf Ghani jurou acabar com a prática em um discurso de 2015, mas há poucas acusações, ou nenhuma, contra autoridades afegãs pela tal prática. Shirzai agora é ministro de Fronteira e Assuntos Tribais do governo de Ghani.  

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