Posse incerta no MTE torna mais confusa bancada dos "filhos" no Rio

Publicado em 13/01/2018 por Bem Paraná

Quem viu a emblemática capa da revista britânica The Economist, de 2009, em que uma ilustração mostra o Cristo Redentor decolando como um foguete com a manchete "Brazil takes off (O Brasil decola)" não podia imaginar que, menos de 10 anos depois, a situação seria totalmente avessa, especialmente, no Rio de Janeiro. Cinco dos últimos sete governadores vivos, eleitos no Rio de Janeiro, desde 1982, estão sendo investigados, presos ou respondendo a processos em liberdade. Lojas fecham as portas, pessoas perdem empregos, servidores não recebem salários e a saúde, a educação e a segurança pública beiram níveis insuportáveis à população. E a corrupção é uma das principais responsáveis pela calamidade no estado que sediou as Olimpíadas de 2016. As informações são de Natália Lambert, no Correio Braziliense.

Apesar de trabalhar a mais de mil quilômetros de distância da capital fluminense, a bancada de deputados federais eleita em 2014 também sente os reflexos da crise no estado. E, agora, a confusa e incerta posse da deputada Cristiane Brasil (PTB) no Ministério do Trabalho mancha ainda mais a imagem dos parlamentares do Rio, que corre o risco de ter uma taxa de renovação acima dos demais estados. Desde que a filha do delator do mensalão, Roberto Jefferson (PTB), foi escolhida pelo presidente Michel Temer, em 3 de janeiro, não param de surgir polêmicas a respeito do passado dela, principalmente, em relação ao desrespeito à legislação trabalhista com os próprios funcionários.

Cristiane faz parte de uma lista de "filhos" na bancada do Rio de Janeiro. Segunda mais votada no estado, Clarissa Garotinho assumiu, logo em 2015, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Emprego e Inovação e não circulou muito na Câmara nesta legislatura. Mas, se tiver planos de reeleição, pode se complicar por causa das denúncias que envolvem o pai e a mãe, Anthony e Rosinha, que chegaram a ser presos no fim do ano passado. A situação também se aplica ao ministro do Esporte, Leonardo Picciani, e ao deputado federal Marco Antônio Cabral, filhos do presidente licenciado da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani, e do ex-governador Sérgio Cabral, respectivamente - ambos presos. 

"Os filhos acabam, de certa forma, herdando o eleitorado desses políticos e, consequentemente, também herdam o ônus. Mesmo com as denúncias, essas lideranças ainda têm certa influência no estado e nas estruturas partidárias e, por isso, pode ser até que sejam reeleitas, mas não podem se arriscar a dar voos mais altos, como cargos majoritários. Precisam, pelo menos, esperar o turbilhão passar", comenta o professor de ciência política da PUC-RJ Ricardo Esmael.

Além dos filhos, a bancada do Rio está manchada por diversos escândalos e por nomes como o do ex-presidente da Câmara e deputado cassado Eduardo Cunha. Preso em Curitiba e condenado a 15 anos de prisão, Cunha, indiretamente, acabou cedendo a vaga na Câmara ao folclórico deputado presidiário Celso Jacob, punido por entrar com queijo na cueca na cadeia. Na opinião do deputado federal Chico Alencar (PSol-RJ), grande parte da bancada teve participação ou foi omissa em relação aos desmandos no estado. "Muitos estavam lá, aliados ao Cabral, celebrando juntos os tempos das vacas gordas. Evidentemente, sabiam que havia algo de podre no reino da Guanabara", comenta. Por isso, o deputado aposta em um índice de renovação da bancada entre 60% e 70% neste ano. Taxa que o cientista político e diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Eurico Figueiredo, não acredita "infelizmente". "Essas lideranças criaram raízes políticas muito fortes no estado e algumas delas têm chance de sobreviver ao tsunami que estão enfrentando. A população precisa entender a importância do voto ao Congresso, que é onde está a verdadeira soberania nacional."

Jucá tem queixa-crime rejeitada

O juiz Marcus Vinícius Reis Bastos, da 12ª Vara de Justiça do Distrito Federal, rejeitou a denúncia feita pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR) contra Rúbia Graziele de Souza Vegas, que o filmou em um voo em 29 de novembro de 2017. Ela o acusou de acobertar irregularidades cometidas por políticos e pelo governo. Segundo a sentença, o juiz responsável disse que Rúbia, como qualquer cidadão, tem o direito de questionar políticos, mesmo que em tom de cobrança, a respeito de qualquer fato público, sobretudo em relação a temas tão desabonadores que têm sido amplamente divulgados pela mídia.

Uma bancada de turbulências

Nas eleições de 2014, 46 deputados foram eleitos no Rio de Janeiro. Desses, somente 20 permanecem no cargo e no mesmo partido. Confira os casos mais emblemáticos:

Jair Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República. Filiou-se ao PSC e, recentemente, assumiu compromisso com o PSL em busca de espaço para a disputa eleitoral.

Clarissa Garotinho, filha do casal Anthony e Rosinha, assumiu a secretaria municipal de Desenvolvimento, Emprego e Inovação e abriu vaga para Dejorge Patrício (PRB). Em novembro, teve que visitar os pais na cadeia. Hoje, os dois estão soltos.

Eduardo Cunha, cassado e preso em Curitiba. Abriu vaga para o atual prefeito de Cabo Frio (RJ), Marquinhos Mendes (PMDB), que responde por compra de votos em 2008. O caso dele é usado pelo Supremo Tribunal Federal para restringir o foro privilegiado a parlamentares. Ao assumir a prefeitura, abriu vaga para o deputado Celso Jacob (PMDB), condenado a sete anos e dois meses de prisão em regime semiaberto. Até novembro, o parlamentar trabalhava na Câmara de dia e dormia no presídio - perdeu o benefício ao ser flagrado com biscoitos e queijos na cueca ao voltar à prisão.

Leonardo Picciani assumiu o Ministério do Esporte abrindo vaga a Zé Augusto Nalin (PMDB). Filho de Jorge Picciani, presidente licenciado da Assembleia Legislativa e, atualmente, preso.

Pedro Paulo, em 2015, assumiu a secretaria de Coordenação de Governo, concorreu à prefeitura em 2016, mas uma acusação de violência doméstica contra a ex-mulher diminuiu as chances de vitória. O processo foi arquivado pelo STF. É citado na delação premiada do marqueteiro Renato Pereira por receber propinas.

Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, preso e condenado a cerca de 72 anos de cadeia. Em 2015, o deputado assumiu a Secretaria Estadual de Esporte, Lazer e Juventude e só retornou à Casa em 2017.

Cristiane Brasil, filha do delator do mensalão e deputado cassado Roberto Jefferson, a deputada se licenciou, neste ano, para assumir o Ministério do Trabalho, mas teve a posse suspensa pela Justiça por causa de "moralidade administrativa". Ela foi condenada pela Justiça do Trabalho por não assinar a carteira de um motorista. Cristiane aguarda recurso à Justiça para assumir a pasta. Caso isso aconteça, o suplente é Nelson Nahim (PSD), irmão de Anthony Garotinho e condenado, em 2016, a 12 anos de cadeia por estupro e exploração sexual de menores. Ele nega as acusações.

Sergio Zveiter, em 2015, filiou-se ao PMDB, assumiu a Secretaria de Trabalho e Renda, depois a de Habitação e retornou à Câmara em 2016. No ano passado, ofereceu parecer favorável à denúncia contra o presidente Michel Temer, o que lhe rendeu punição no partido. Filiou-se ao Podemos.

Rodrigo Maia, diante da queda do ex-deputado Eduardo Cunha, cresceu politicamente e assumiu a presidência da Câmara dos Deputados. Investigado na Operação Lava-Jato, é suspeito de ter recebido propina da Odebrecht. É a principal aposta do partido para ser candidato à Presidência da República.

Cabo Daciolo, em 2015, foi expulso do PSol por ter apresentado uma emenda constitucional que alterava o atual texto "todo o poder emana do povo" para "todo o poder emana de Deus". Além disso, defendeu em plenário os policiais militares envolvidos no desaparecimento e morte do pedreiro Amarildo, em 2013, na Rocinha.