A resistência do carnaval observada pela História

Publicado em 10/02/2018 por O Globo

A resistência do carnaval observada pela História

Festa popular dividiu sociedade, enfrentou censura do governo e transformou a cultura carioca

Desfile da sociedade carnavalesca dos 'Cariocas' em fevereiro de 1953: carros alegóricos, que já foram puxados a cavalo, satirizavam temas do cotidiano da cidade e enfureciam o governo e religiosos - Arquivo/José Santos

RIO - Muito antes das escolas de samba e dos blocos de rua, o carnaval carioca era o momento em que jovens brancos e escravos iam às ruas jogar água e bolas de cera nos pedestres, uma brincadeira conhecida como entrudo. Intelectuais dos primeiros anos da República organizavam bailes de máscaras satirizando a elite política da época. No início do século passado, negros improvisavam rodas de capoeira. Todas essas manifestações eram reprimidas pela polícia. A festa de Momo já foi cancelada, adiada e diversas vezes censurada. Ainda assim, sobreviveu. Essa resistência tem sido acompanhada de perto, e de diversas formas por historiadores, sociólogos e antropólogos, que consideram a folia o reflexo de uma sociedade dividida, tanto na distribuição de renda quanto na ocupação da cidade.

O olhar sobre o carnaval mudou de acordo com as lentes de governantes e intelectuais. Os líderes do país elegeram os negros como um perigo para a sociedade no fim do século XIX e no início do XX. Suas manifestações culturais já haviam sido consideradas uma ameaça aos homens livres do Império, e depois eram tidas como um obstáculo à construção dos valores patrióticos da República.

Segundo o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti, uma epidemia de febre amarela fez o governo federal transferir o carnaval carioca de fevereiro para junho em 1892. Foi um fracasso e, com a pressão da imprensa, a festa voltou à data original no ano seguinte. Em 1894, conflitos políticos riscaram a folia de Momo do calendário. No mesmo período, as autoridades tentaram banir as máscaras nos bailes, temendo que monarquistas se aproveitassem do anonimato para praticar atentados contra figurões republicanos.

Além do debate histórico e étnico, o reinado de Momo seduz acadêmicos interessados em estudar as manifestações políticas. Os sambas das agremiações eram lidos minuciosamente por Getúlio Vargas e pelos presidentes do regime militar, preocupados que os carros alegóricos levassem contestações políticas Rio afora. As agremiações a presentaram ao público figuras que eram até então pouco conhecidas, como Zumbi dos Palmares, tema do enredo do Salgueiro em 1960.

Os desfiles transformaram conceitos culturais e de sexualidade. Chocaram moralistas levando o topless ao centro das atenções, e deram espaço para movimentos de vanguarda, como o tropicalismo. Entre confetes e serpentinas, o carnaval abraça polêmicas, samba entre governos conservadores, mas se mantém central na cultura do Rio e do Brasil. Veja abaixo quatro visões de pesquisadores sobre a festa.