Riscos vêm do Brasil e do exterior, apontam gestores

Publicado em 07/12/2017 por Valor Online

Jakurski, da JGP: euforia do mercado com ativos deveria ser sinal de alerta O próximo ano deve marcar uma espécie de embate entre o otimismo com o crescimento global, que vai levar junto os países emergentes, e os riscos eleitorais locais e de ajustes na política monetária de bancos centrais. A análise faz parte das reflexões apresentadas por dois dos gestores de recursos mais respeitados do Brasil sobre as perspectivas para os ativos em 2018. Luis Stuhlberger, fundador e executivo-chefe da Verde Asset Management, e André Jakurski, sócio-fundador da gestora JGP , foram dois dos nomes que se apresentaram na conferência da Fundação Sohn, ontem, em São Paulo. Executivos de grandes casas de investimento lotaram a plateia no auditório do escritório Pinheiro Neto para ouvi-los, num ciclo de palestras que contou com personalidades da gestão internacional, como o megainvestidor ativista William Ackman, da Pershing Square Capital, e Hernan Kazah, co-fundador da Kaszek Ventures. LEIA MAIS BCs precisam agir com cautela, diz Rajan Embora tenha um viés positivo em relação aos ativos domésticos, o momento não é de estar totalmente alocado em Brasil, disse Stuhlberger. Os pontos de incertezas são o calendário eleitoral e uma situação fiscal ainda frágil, que vai exigir do próximo presidente da República dar sequência à agenda de reformas do governo Temer. "Quem quer que seja eleito terá de lidar com restrições fiscais", disse. "A hora da verdade chegou e qualquer governo que assumir em 2019 terá de fazer reforma da Previdência." De acordo com o executivo, o que está incorporado às cotações, hoje, é a aprovação da reforma da Previdência só para 2019 e um embate eleitoral no ano que vem com uma probabilidade de 70% a 80% de o ex-presidente Lula não participar. "Se concorrer, o preço é outro", comentou. "Tem muito prêmio no mercado de juros e também no mercado acionário." No segmento de juros, citou, nota-se claramente o que é o risco eleitoral. Ontem, enquanto a Selic caminhava para a mínima histórica, a 7% ao ano, as taxas futuras projetavam 11,5%, mesmo nível do fim de 2016, quando o juro básico estava em 13%. "Há espaço para convergir, mas reformas precisam acontecer", comentou. Um eventual avanço da candidatura Lula que reconduzisse o ex-presidente ao Planalto poderia levar o Ibovespa para a casa dos 50 mil pontos, como prevê um dos exercícios do mercado, e para Stuhlberger esse cenário seria uma oportunidade de compra. "Até dá para comprar bolsa hoje, mas tem que guardar dinheiro para a volatilidade eleitoral, se houver." O gestor não espera, contudo, que um terceiro mandato de Lula seja equivalente aos dois anteriores. Se Lula não for impedido de concorrer pela Justiça, Stuhlberger espera uma campanha raivosa, com um discurso contra a reforma da Previdência, o que, no limite, poderia levar a uma nova recessão. "Mas se ele entrar dizendo que não vai fazer reforma, o país tem PIB negativo, o país quebra, tem manifestação e o impeachment ocorre rapidamente. E essa é a última coisa que ele quer, porque precisa de tempo para cuidar da vida pessoal dele." Do ponto de vista macroeconômico há uma situação aparentemente mais arrumada, disse Stuhlberger, com inflação sob controle e a economia rodando a juros mais baixos. Mesmo que o país volte a crescer, ele não vislumbra pressões inflacionárias, a exemplo do que se viu no pós-Plano Real. O setor externo também vem dando contribuição positiva, com déficit em conta corrente perto de zero graças à safra agrícola, e elevação dos preços de minério de ferro e do petróleo. Do lado das contas públicas, porém, ainda há um quadro de fragilidade. "É quase impossível no médio prazo manter o teto [de gastos]", disse. Para o gestor, o problema fiscal tem se mostrado pior do que se previa, pois não há mais espaço para cortar gastos discricionários ou investimentos. Além disso, nos próximos dez anos o país não vai mais poder contar com o bônus demográfico, com mais gente ingressando no sistema de pensões do que novos contribuintes. Para o país crescer 2,5% ao ano seria preciso elevar a taxa de investimento para 22% a 23% do PIB, segundo Stuhlberger, da média mais recente que se situa na casa dos 15%. Para o gestor, a reforma trabalhista e a terceirização podem até contribuir para a melhora da produtividade, mas ainda é precoce dimensionar isso. Mas se o cenário doméstico, de certa forma, inspira um certo otimismo, há indícios de que no exterior o momento mais promissor talvez já tenha passado. Os sinais de euforia emitidos pelos mercados globais deveriam, na verdade, ser lidos como um alerta, afirmou Jakurski, da JGP. O otimismo exibido em meio aos indicadores de crescimento disseminados pelo mundo dissimulam fatos como a expansão econômica nos Estados Unidos já estar em uma fase madura e que os altos preços dos ativos são provocados pelas ações das maiores autoridades monetárias do planeta. "Os bancos centrais estão criando distorções dramáticas", disse o gestor. Segundo ele, as taxas dos títulos soberanos da Europa e dos EUA representam um exemplo dessas anomalias. "O 'high yield' [ títulos de rating de crédito mais baixo] de bonds na Europa tem sido negociado com mesmo yield em média do título de dez anos dos EUA", apontou. As baixas taxas pagas pelos papéis europeus estão diretamente ligadas ao programa de compras de ativos do Banco Central Europeu (BCE). De acordo com o gestor da JGP, em 15 anos o total de ativos nos portfólios das autoridades globais saltou dez vezes de tamanho para quase US$ 20 trilhões. O Banco do Japão (BoJ), citou Jakurski, já detém quase metade da dívida soberana japonesa, enquanto o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) acumula 30% dos Treasuries e o BCE está perto de ter em carteira mais de 20% dos títulos emitidos pelos governos da zona do euro. "E isso é uma coisa que não vai mais se repetir." Para Jakurski, o pico da liquidez injetada pelas instituições já passou e o movimento de desaceleração dos impulsos dos BCs, como a redução do balanço pelo Fed e a diminuição do volume de compras de ativos pelo BCE, vai cobrar um preço. "Eu diria que, se eles ajudaram os mercados a subir, então no momento que essa desaceleração ocorre, se não cair, ao menos, vai parar de subir", pondera. O fundador da JGP criticou ainda a complacência de investidores em um momento no qual os preços dos ativos negociam nas máximas. "A alocação em ativos financeiros é uma das mais altas da história", afirmou. Conforme Jakurski, o otimismo generalizado tem mantido as condições financeiras extremamente frouxas. "Apesar de o Fed ter aumentado a taxa várias vezes e sinalizar que vai subir na semana que vem, cada vez que o BC americano eleva os juros, os [preços dos] ativos continuam subindo, os juros continuam fechando e você tem condições financeiras mais frouxas do que tinha antes do aumento", considerou. "Estresse no mercado financeiro? Está baixíssimo. Não tem estresse. Nós temos tido em 2017, nas bolsas de Nova York, a menor volatilidade em 50 anos e tivemos a menor volatilidade da renda fixa em 30 anos." A euforia dos analistas e investidores tem sido alimentada, na maior parte, pelos sinais de crescimento econômico em escala global. "Pela primeira vez em mais de dez anos, todas as economias do mundo ou estão em expansão ou em recuperação, então todo mundo, quando faz projeções para o ano que vem, é otimista. O ciclo de expansão nos EUA, que tem sustentado o longo período de alta das ações americanas, porém, já mostra evidências de que pode se exaurir. "Se o crescimento dos EUA continuar até agosto do ano que vem - e eu acredito que vai - será o mais longo ciclo de expansão dos últimos 150 anos", afirmou. "Mas isso significa que não estamos no início e sim numa parte mais madura do ciclo." Um indício que deveria levar os investidores a acender a luz amarela está no nível dos "yields" dos Treasuries americanos. "Os juros dos títulos do Tesouro dos EUA estão em nível historicamente baixo, mesmo depois de dez anos de expansão e com a economia no pleno emprego. Isso não é um bom sinal", disse. O achatamento recente da curva de juros dos EUA, quando os yields dos papéis de dois anos se aproximam das taxas de dez anos, mostra um flerte com uma reversão de tendência na economia. Segundo Jakurski, com a continuidade da euforia atual, existe até a possibilidade de a curva se inverter, ou seja, o yield curto ficar mais alto do que o longo. O "spread", ou seja, a diferença entre os yields de dois anos e de dez anos está no menor nível desde 2008. "Toda vez que essa curva tende à inversão é um indício de que pode haver uma recessão", afirmou. O evento da fundação Sohn reúne em diversos países gestores de recursos que apresentam suas teses de investimentos com o objetivo de arrecadar recursos para a pesquisa e tratamento de crianças com câncer. O dinheiro levantado com as apresentações de ontem será destinado ao Tucca.