Suspensão da autonomia fortaleceria separatismo catalão, diz cientista político

Publicado em 12/10/2017 por O Globo

Apoiadores da independência da Catalunha ouvem ao discurso do presidente catalão, Carles Puigdemont, transmitido em um telão no Arco do Triunfo em Barcelona - JORGE GUERRERO / AFP

BARCELONA - O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, deu prazo até a próxima segunda-feira para que o presidente catalão, Carles Puigdemont, esclareça formalmente se declarou a independência e, se o fez, até 19 de outubro para ratificá-la, informou o Congresso espanhol na quarta-feira. Caso o líder da Catalunha decida pela secessão, a Espanha pode ativar o artigo 155, que permite que a autonomia da região seja suspensa. O cientista político espanhol Oriol Bartomeus, professor de ciência política na Universidade Autônoma de Barcelona, acredita que uma suspensão da autonomia da Catalunha por parte de Madri pode provocar um fortalecimento do grupo separatista e do desejo de independência.

O que fizeram exatamente o presidente regional Carles Puigdemont e seus aliados separatistas na terça-feira no Parlamento catalão?

Não se sabe muito bem. Eles fizeram uma declaração unilateral de independência, mas ao mesmo tempo a congelaram, e na realidade não o fizeram porque o Parlamento não votou. Na verdade, o presidente e o governo catalães tentaram satisfazer as diferentes facções do bloco que defende a independência, que não querem a mesma coisa: uma parte defende uma declaração unilateral de independência (DUI) a qualquer preço e outra parte, que teme as consequências inevitáveis, prefere esperar.

Eles enviaram uma mensagem dupla: no bloco de independência, para aqueles que temiam muito o DUI, disseram muito bem, não assumimos e para a comunidade internacional e a União Europeia eles disseram que o governo catalão está pronto para negociar.

Qual foi a resposta do chefe do governo espanhol, Mariano Rajoy?

Puigdemont lançou a bola para o campo do governo de Rajoy e o governo espanhol enviou-a de volta. Rajoy foi ponderado nesta quarta-feira da mesma forma que Puigdemont o foi na terça-feira. O tempo morto pedido pelos separatistas, Rajoy de alguma forma assumiu. Porém, força Puigdemont a especificar o que fez e o coloca em uma situação difícil: satisfazer um dos dois grupos que compõem o bloco de independência e não o outro. Rajoy ganha tempo e volta a colocar Puigdemont contra a parede.

Qual seria o efeito na Catalunha de uma suspensão de sua autonomia?

O governo poderia assumir as competências da região autônoma, incluindo o controle da polícia autônoma e até mesmo dissolver o Parlamento regional e organizar novas eleições. Porém, a suspensão da autonomia provocaria uma reação bastante forte da população catalã em defesa de suas instituições. Isso poderia levar a um fortalecimento do grupo separatista, do sentimento de independência, e os independentistas sabem muito bem disso.

Se o governo decidir suspender a autonomia da região e prender o presidente catalão, isso pode até levar a choques violentos, com cidadãos contra as forças de ordem. Há também a hipótese de que uma parte ou a totalidade da polícia autônoma catalã se coloque ao lado do governo catalão e das instituições catalãs. Isso poderia levar a um choque entre as forças policiais, que responderiam cada uma a um governo diferente: entraríamos em um cenário absolutamente indescritível, do qual não sei onde isso nos levaria.