Trump trouxe à tona racismo dos EUA, diz jornalista venezuelana

Publicado em 12/10/2017 por O Globo

Manifestantes defendem imigrantes em San Francisco - Jeff Chiu / AP

RIO - No Brasil para o Festival Piauí GloboNews de Jornalismo, jornalista venezuelana que vive nos EUA fala sobre dificuldades de trabalhar em um veículo voltado para imigrantes.

Como o discurso de Donald Trump foi sentido pelo público da Univisión, voltada à comunidade hispano-americana dos EUA?

Trump começou a dizer na campanha que os mexicanos eram estupradores, ladrões e traficantes, e a Univisión rescindiu o contrato para transmitir o Miss Universo (concurso que pertence à empresa do presidente). Foi o primeiro sinal da difícil relação que teríamos. Durante a campanha, seu discurso era de que iria deportar 11 milhões de pessoas, triplicar a segurança na fronteira e construir o muro.

Há dificuldades em seu trabalho por causa da Presidência de Trump?

Sim. Nossa audiência é formada pelos 60 milhões de hispânicos nos EUA, a maior minoria no país. O espanhol é o segundo idioma. Por isso o tema migratório é muito importante. O discurso agressivo contra imigrantes causou medo, desinformação e raiva. Tivemos que nos informar mais, contratar advogados para nos assessorar, já que a lei migratória é muito complexa. Pusemos mais repórteres para cobrir o tema, trabalhamos muito com serviços, explicando o que significa cada nova lei.

Que tipo de medo os imigrantes sentem?

Por exemplo, nos EUA, se um imigrante ilegal comente uma infração, pode ser deportado. E quando Trump diz que um criminoso pode ser deportado, não está falando só de um assassino, mas até de quem comete infração de trânsito. Parte deste discurso trouxe à tona o racismo e o ódio que existem nos EUA e agora são legitimados por um presidente que insulta os estrangeiros. Em dois meses, Trump xingou os latinos 44 vezes, tanto no Twitter quanto em discursos públicos. O tema do muro é muito simbólico, e por isso vai demorar um pouco mais para sair do papel. Mas, em paralelo, Trump está mirando nos Dreamers, algo muito mais concreto. Há coisas menos vistosas, que estão gerando um medo enorme.

Como combater isso?

Em janeiro, fizemos uma parceria com a Propublica, uma agência de jornalismo independente americana, e criamos um projeto que se chama "Documentação de ódio". É um mapa onde vamos reportando relatos de ódio que chegam pelas redes sociais. Já temos mais de 250 casos contra hispânicos desde que Trump foi eleito.

Mudando um pouco o foco, como é ser jornalista hoje na Venezuela?

Por muito tempo trabalhei no "Último Noticias", um veículo equilibrado, com editores e jornalistas chavistas e da oposição. Essa convivência trouxe resultados muito bons, com importantes trabalhos de investigação. (Hugo) Chávez tinha uma relação de amor e ódio com a imprensa. Mas as pressões aumentaram após sua doença e morte. Desde então, 25 jornais trocaram de donos, muitos deles comprados por empresários chavistas, e começaram a publicar apenas boas notícias sobre o governo. O resultado: 32 rádios fecharam, 22 jornais também, por falta de papel, mais de 20 jornalistas e donos de veículos estão proibidos de deixar o país. Há muita censura, de várias formas: cortam concessões, ameaçam jornalistas em cadeia nacional, o que leva ao medo, que por sua vez leva à autocensura. Depois que o "Últimas Noticias" foi comprado, houve todo tipo de pressão e manipulação que se possa imaginar. Eu resisti por dez meses. Hoje há apenas dois veículos independentes, além de vários menores na internet, de pessoas que deixaram os grandes veículos. É o que chamamos de "Aliança Rebelde".

Alguma semelhança com a forma com que Trump trata os jornalistas?

Não há censura direta, a proteção à liberdade de expressão nos EUA, que está na Primeira Emenda, é muito forte. Mas realmente o acesso ao governo atual é muito difícil, a Casa Branca está muito atenta ao que publicamos. Somos 75 jornalistas, que viemos de muitos países da América Latina, muitos de nós estamos acostumados a trabalhar com políticos como Trump. Gostamos de dizer que viemos do futuro. Os americanos não sabem lidar com ele, mas nós sim.