Grupos afro-brasileiros temem aumento da intolerância na sala de aula

Publicado em 06/10/2017 por O Globo

Stela é autora do livro Educação nos terreiros que denunciou ataques aos cultos afros nas escolas - Reprodução: Educação nos Terreiros e Como a Escola Se Relaciona com Crianças de Candomblé / Stela Guedes / Stela Guedes

RIO - A professora e pesquisadora da Uerj, Stela Guedes, considera que a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou constitucional o ensino público religioso confessional, abrirá espaço para o aumento dos casos de intolerância nas escolas públicas. Em audiência pública, nesta quinta-feira na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Stela afirmou que o próprio crescimento de ataques a terreiros já é resultado do ensino religioso.

- O ódio contra os terreiros também se aprende nas escolas - disse Stela, integrante do Grupo Kékeré, que há 20 anos pesquisa discriminação a crianças do candomblé.

A pesquisadora explica que desde os primeiros levantamentos se identificou que a intolerância religiosa é maior na sala de aula.

-Todas as crianças de terreiro são unânimes em dizer: a Tauana dos Santos, que foi a primeira geração a participar da pesquisa, dizia que todo lugar discrimina, mas nenhum lugar é tão cruel como a escola. A Raíssa Teixeira, uma menina da nova geração da nossa pesquisa, diz a mesma coisa - conta Stela.

Stela teme as consequências da liberação do ensino confessional. A Procuradoria Geral da República defendia que as aulas abrangessem aspectos históricos e sociais das religiões.

- O que o STF aprovou é que o ensino pode ser confessional. Ou seja, o professor católico, por exemplo, vai poder catequisar os seus alunos. Os concursos são feitos dessa forma. Um percentual para católicos, um percentual para evangélicos. Então, eles vão poder evangelizar, falar da Bíblia na escola, passar uma pauta conservadora. Isto é ser confessional. Quando você confessa a sua fé.

Crianças revelaram preconceito na sala de aula. Algumas dizem na escola, segundo Stela, que estão com piolos para explicar o cabelo raspado nos rituais - Stela Guedes / divulgação / Stela Guedes / divulgação

A pesquisadora alega que não há espaço para os que seguem os cultos afro-brasileiros.

No Rio de Janeiro, são quase 70% católicos e quase 30% evangélicos. O restante são de outras religiões. Os poucos professores de ensino afro, em geral, estão dando aula de apoio, de educação física. Não formam turma - pondera.

Stela lamenta o ensino de religiões nas salas de aula. Ela observa que, de acordo com dados que o Kékeré obteve na Secretaria Estadual de Educação, o custo do ensino religioso foi de quase R$ 16 milhões.

-Nós do Kékeré somos totalmente contra qualquer modalidade do ensino religioso. Os conservadores usam todo tipo de desculpa para legitimar o ensino. Dizem que é para passar valores, direitos humanos. Ora isso é uma tarefa de todas as disciplinas. Lugar de religião é na casa, na sinagoga, na igreja católica, na Igreja Universal. Esses são os espaços de fé.