Investidor segue cauteloso com política e Ibovespa cai 0,5%

Publicado em 10/08/2018 por Valor Online

Investidor segue cauteloso com política e Ibovespa cai 0,5%

Os mercados locais repetiram ontem a dose de cautela com o cenário político, que levou o dólar a negociar no maior nível em três semanas e o Ibovespa a completar quatro pregões seguidos de baixa. Os investidores devem digerir hoje o primeiro debate entre 8 dos 13 candidatos à Presidência, programado para ocorrer na noite de ontem na TV Bandeirantes, e as especulações políticas devem continuar pressionando os ativos locais.

Na renda variável, o Ibovespa caminha para concluir a semana em baixa, interrompendo um ciclo de seis semanas seguidas de valorização. Ontem, o índice caiu 0,48%, aos 78.767 pontos, e, na semana, a queda acumulada chega a 3,27%. O Ibovespa conseguiu, no fechamento, se afastar da mínima do dia, em 78.156 pontos, mas, mesmo assim, não teve força para se recuperar.

O mercado de câmbio também não conseguiu escapar da rodada de desvalorização das divisas emergentes. O dólar terminou a sessão de ontem em alta de 0,97%, a R$ 3,8023, depois de tocar a máxima em R$ 3,8197. É o maior valor de fechamento desde 19 de julho, quando ficou em R$ 3,8453. No acumulado da semana, a valorização da divisa americana já chega a 2,57%, pavimentando o caminho para a primeira elevação depois de cinco semanas de baixa.

As vendas atingiram diversos setores, entre eles o bancário e o varejista, e o desempenho da bolsa só não foi pior porque, depois de um pregão mais negativo, a ação ordinária da Petrobras fechou em alta de 0,09%, enquanto a preferencial subiu 0,99%.

A instabilidade pode ser comprovada por índices de mercado. O indicador que mede a volatilidade implícita do maior fundo de ações brasileiras (ETF) em Nova York já está nos maiores níveis desde o "crash relâmpago" que atingiu os mercados globais, em fevereiro. O índice CBOE Brazil ETF Volatility subiu 0,92%, aos 35,11 pontos, depois de oscilar nos maiores patamares desde 5 de fevereiro deste ano, quando a queda de mais de 5% dos índices americanos assustou o mercado e levou a volatilidade a disparar aos 39,80 pontos.

Depois da forte alta naquele mês, a instabilidade começou a apresentar uma trajetória de baixa. Desde meados de junho, porém, ela voltou a subir e oscilar no nível dos 35 pontos. O iShares MSCI Brazil Capped, maior ETF brasileiro negociado em Nova York, teve baixa de 1,39% ontem.

Segundo Rafael Gonzalez, sócio da Platinum Investimentos, a bolsa brasileira subiu de forma rápida e contundente. Nesse caso, a realização tende a ocorrer na mesma intensidade, ao sabor das notícias sobre o cenário eleitoral bastante difuso. "Um intervalo de Ibovespa de 75 mil pontos a 79 mil pontos parece condizente com os riscos", afirma. "A volatilidade no mercado vem crescendo e, por isso, vejo espaço para correções grandes."

Os investidores se animaram, nas últimas semanas com o que pareceu ser um fortalecimento do candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. No entanto, o sentimento positivo dá espaço agora para a desconfiança. Para Bruno Marques, gestor dos fundos multimercados da XP Gestão, o mercado precificou muito rápido nas últimas semanas um resultado eleitoral favorável ao ajuste econômico e está lidando com as primeiras decepções.

Hoje, a pesquisa do Ipespe para a XP Investimentos deve colocar à prova, mais uma vez, as leituras do mercado sobre o quadro eleitoral. Vale ressaltar que as fragilidades fiscais do país e a recuperação ainda gradual da economia aumentam a relevância da disputa presidencial, além de deixar os ativos vulneráveis à turbulência externa.

O fortalecimento do dólar ontem sustentou a alta dos juros futuros. As taxas dos contratos de DI registraram, em geral, avanço de 0,13 ponto percentual, com movimento mais forte nos vencimentos de médio prazo. O DI para janeiro de 2021 terminou o pregão regular em 9,16%, ante 9,03% no ajuste anterior.

Para Luciano Rostagno, estrategista-chefe na Banco Mizuho do Brasil, a eleição deve ficar indefinida até o dia do pleito, o que promete bastante volatilidade nas próximas semanas. O especialista estima que o dólar deve ficar entre R$ 3,80 a R$ 3,90 nesse período. A partir do resultado, entretanto, a moeda pode chegar a mais de R$ 4 ou abaixo de R$ 3,50. "É tudo em função do grau de reformismo que os candidatos vão apresentar", diz.