“O agro prova que é preciso criar para superar obstáculos”

Publicado em 23/12/2018 por Canal Agro Estadão

Essa é a opinião do jornalista José Tejon, importante formador de opinião do setor, autor do livro "Guerreiros Não Nascem Prontos", que valoriza educação criativa
O dia a dia do produtor do agronegócio é um retrato perfeito do cotidiano de uma criança e de um adolescente quando o assunto é aprendizado constante. Se há uma diferença, é a resiliência conquistada pelo produtor. É ela que garante a balança comercial positiva do País: em 2017, vale lembrar, foram US$ 89 bilhões positivos graças ao setor. Agora, José Tejon (foto), jornalistas especializado em marketing do agronegócio, quer propagar a importância da educação criativa nas escolas de ensino fundamental. Ao escrever o livro Guerreiros Não Nascem Prontos (Editora Gente, 2016), ele usa narrativa biográfica para estimular a compreensão de que obstáculos são impulsos para criação. “Quem não entende isso vive com impotência perante o mundo”, diz.
Em entrevista exclusiva ao Canal Agro, Tejon fala sobre as motivações para seu livro e como associa o agronegócio, sua área de especialização, às áreas da pedagogia, criação e resiliência.
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José Tejon

Como o agronegócio, um dos motores da economia nacional, está relacionado à sua percepção de educação e superação?
O assunto superação para o agro é muito importante porque ou ele se supera a cada ano na busca de conhecimento ou não tem futuro. O produtor é obrigado a crescer, e o movimento precisa ser grande. A cooperação entre as partes também é importante.
Quando e como você percebeu isso? Por que o agronegócio chamou sua atenção?
Fiz estágio em uma agência de publicidade que atendia a Jacto. Eu não sabia o que era o setor e pedi para passar uns dias na indústria para ver como era. Foi quando tive uma aula do que é o agronegócio e pensei: “Isso é olimpíada”. Há uma quantidade cada vez maior de máquinas e competição… o produtor precisa ser criativo.
E como você associa isso à educação? O que você chama de educação criativa?
Fui educado sob a perspectiva da educação criativa, mas não havia racionalizado isso até os meus 55 anos. Educação criativa se dá sob qualquer circunstância e ensina o indivíduo a criar valor na sua vida mesmo em situações de dificuldades e obstáculos. Se não trabalharmos as crianças para que elas entendam quais dificuldades e obstáculos são impulsos para criar, elas podem passar a vida com sensação de impotência perante o mundo. Existe uma maneira de educar para que seres humanos consigam e saibam se superar.
Que metodologia e conteúdo podem ser usados?
Com música, teatro, literatura, escrita e trabalho. O teatro é fantástico porque estimula o ser humano a entender que tem capacidade de criar papeis. A interpretação de um papel nada mais é que do que o armazenamento das sensações em relação a um determinado personagem. É como em um jornal: o conhecimento técnico é parecido entre os profissionais, mas em cada veículo os personagens e profissionais são diferentes entre si. O trabalho, então, também fica diferente.  
Você vai começar a lecionar educação criativa em escolas de ensino médio. Como e por quê?
É um programa voltado para educação de engajamentos. Professores têm de ter consciência de que a escola está se transformando em algo além das matérias do MEC. Sem educação não há engajamento, tampouco cooperação com o outro. Alguns fatores fundamentais precisam ser trabalhados, como o encontro de vocações e dons. Sem isso, é provável que o indivíduo fique infeliz e não encontre seu propósito.
E o trabalho…
Trabalho significa o que extrai de si. Amor ao trabalho e criação. O início do projeto de lecionar em escolas será no Estado de Goiás e no Distrito Federal. Quero trabalhar o poder de criar, por exemplo, música. Os alunos devem saber que são inúmeras as possibilidades sonoras a partir de quatro acordes musicais. Outro ponto importante é a cooperação entre as equipes, tal como num time de futebol. Deve acontecer em uma sala de aula, e isso deve ser sabido já desde os 10, 12 anos. Encontrar o trabalho passa também por arte, arte através da música e do livro.
Como colocar tudo isso em prática?
É importante ler livros, mas ler não basta. Quero que os alunos escrevam, e uma das construções textuais será sobre uma pessoa admirada pelo discente. A proposta é que ele converse com essa pessoa, entreviste e descreva o que existe por trás dela. Por que fazer isso? Nossas habilidades são desenvolvidas a partir dessas pessoas que admiramos. Os jovens precisam ser ensinados a olhar e a admirar pessoas.
No livro Guerreiros Não Nascem Prontos você fala muito sobre seu pai e sua mãe. Olhando mais para fora, quais outras referências você tem?
Quem me ensinou a arte de admirar pessoas foram justamente Rosa e Antônio, meus pais adotivos. Todas as pessoas que eles consideram admirável estavam ali perto, não eram famosas. Aprendi a admirar pessoas que evoluem, que fazem acontecer. Sinto que sou um caçador de pessoas admiráveis. Esse aspecto foi importante para minha vida profissional e acadêmica.
Dentre os aprendizados mais interessantes que teve, qual você destaca? Dá para associar ao agronegócio?
A única forma de não ser atingido pela onda é pular dentro dela, e aprendi isso com meu pai, que me ensinou a nadar aos 7 anos. Precisamos transformar qualquer circunstância em circunstância de aprendizado.