Opositores presos tomam controle de celas no Serviço de Inteligência da Venezuela

Publicado em 17/05/2018 por O Globo

Funcionários do Serviço Nacional de Inteligência da Venezuela (Sebin) na entrada do centro de detenção onde uma rebelião aconteceu - CARLOS GARCIA RAWLINS / REUTERS

CARACAS - Opositores venezuelanos e um americano disseram nesta quarta-feira que tomaram as celas onde estão presos na sede do Serviço de Inteligência em Caracas, para exigir a libertação de detentos com ordem de soltura. Em um áudio e vídeos enviados para a AFP, o ex-prefeito Daniel Ceballos, que está detido, justificou o protesto como uma reação à agressão sofrida por seu companheiro de cela Gregory Sanabria. Nas gravações, Sanabria aparece com hematomas no rosto.

- Desfiguraram o rosto de Gregory Sanabria, preso político por mais de três anos que não teve julgamento. Nós nos cansamos de ver como matam lentamente os que estão no Helicoide - afirmou Ceballos, referindo-se à sede policial.

Mais tarde, o ex-funcionário disse por telefone à rede americana CNN que um grupo de "presos políticos" e comuns continuava no controle das celas na noite de quarta-feira.

- Aqui, os presos estão no controle. Há pessoas resistindo a tentativas (das autoridades) de ingressar com violência e com bombas de gás lacrimogêneo - relatou Ceballos. - Não vamos ceder diante do atropelo do governo até alcançarmos a liberdade - advertiu.

   [#VIDEO] Daniel Ceballos invita a los presos políticos a resistir hasta "lograr la libertad" #17May https://t.co/ELQiZakgaq pic.twitter.com/TwSMN7BJFG

- NTN24 Venezuela (@NTN24ve) 17 de maio de 2018

Em um comunicado, a Conferência Episcopal Venezuelana pediu às autoridades que "respeitem a vida de quem está sob sua responsabilidade" e "busque uma saída pacífica para a problemática".

- Somos extorquidos, nos torturam, nos agridem, se metem com as nossas famílias. Morreu gente nos porões porque não recebe atenção médica - denunciou Lorent Saleh, outro detento.

O incidente acontece às vésperas das eleições de domingo, boicotadas pela oposição e nas quais o presidente Nicolás Maduro busca se reeleger.

Patricia Ceballos, mulher do preso político Daniel Ceballos, espera informação sobre o marido ao lado de fora de prisão do Sebin - Fernando Llano / AP

PROCURANDO BRIGA

Sanabria foi detido em 2014, nos protestos que exigiam a saída de Maduro do poder, que se perfila como favorito para derrotar o opositor e dissidente do chavismo Henri Falcón.

- Andam procurando briga, tentando chamar a atenção, mas não vão nos enganar - reagiu o número dois do chavismo, Diosdado Cabello, em seu programa de televisão.

As fotos e os vídeos que mostram Sanabria agredido circularam pelas redes sociais com denúncias de que a agressão foi obra de policiais e de presos comuns. Ceballos acusou o procurador-geral Tarek William Saab de "mentir de forma grosseira" depois que ele disse à CNN que a situação estava "sob controle".

Saab também negou que o Ministério Público tenha recebido denúncias formais de agressões contra os opositores presos durante a visita de uma comissão do organismo ao local.

No Helicoide, está detido o americano Joshua Holt, um missionário mormón acusado de posse de armas de guerra e de planejar para desestabilizar o governo Maduro. Holt "está bem, comprometido com essa luta pela liberdade dele e de todos", garantiu à CNN outro opositor preso na mesma instituição, Villca Fernández, que pediu à população que não compareça para votar no domingo. Em um vídeo divulgado mais cedo pelas redes sociais, o americano pediu ajuda.

Em uma mensagem no Twitter, a embaixada dos Estados Unidos em Caracas expressou sua "preocupação", porque "Holt e outros cidadãos americanos estão em perigo". O encarregado de negócios da legação americana, Todd Robinson, foi até a Chancelaria pedir informações, mas disse não ter obtido resposta.

Estamos muy preocupados por el motín en El Helicoide. Joshua Holt y otros ciudadanos estadounidenses están en peligro. El gobierno de Venezuela es directamente responsable por su seguridad y le haremos responsables si algo les sucede.

- US Embassy, VE (@usembassyve) 16 de maio de 2018

Familiares dos reclusos permaneciam até a meia-noite de quarta-feira nos arredores do Helicoide. Os presos exigem a liberdade de quem tem ordem de soltura, transferência para os tribunais para quem ainda não teve julgamento e assistência médica para os doentes.

- Preferimos morrer de pé - manifestou Ceballos.

No Helicoide, estão 54 dos 338 opositores encarcerados, segundo números da ONG Foro Penal. Os detentos também pediram a ajuda do papa Francisco, assim como a presença da Igreja Católica e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR).