O que fazer com a diversidade étnica dos povos Amazónicos?

Publicado em 10/02/2019 por Público Portugal

Não se sabe o que fazer com a Amazónia do ponto de vista governamental. Como se os povos tradicionais, conjuntamente com as ciências, já não tivessem encontrado muitas soluções.
É urgente repensar território, sociodiversidade e biodiversidade da Amazónia sob uma nova ótica de relacionamento em que não faz mais sentido a disjunção Natureza & Cultura. Natureza é Cultura. Cultura é Natureza. Existem muitas Amazónias, para os mais diversos gostos, cores, ideologias e projetos de ocupação. Nenhuma delas faz parte de um projeto governamental que respeite a autodeterminação dos povos e comunidades tradicionais e que, em sua interação com a comunidade académica, poderia gerar conhecimento para um novo e muito mais que urgente modelo de vida humana sobre o planeta. Um modelo gerador de paz e aliança entre os povos. Os externos e os que vivem na floresta. Um modelo que ensinasse florestania à uma cidadania precária baseada no consumo de objetos com rápida obsolescência e eterna contaminação do ambiente.
A região amazónica, desde sua nomeação, experimenta diversas projeções de sujeitos externos sobre seu território. A começar pelo seu próprio nome em homenagem a um mito grego, o das amazonas. Sem contarmos com uma história prévia da Amazónia, podemos assegurar que esse corte epistemológico, o do batismo grego, no século XVI, com certeza, desde então, há mais de 500 anos, experimenta as agruras impostas por predatórios sistemas de exploração a vida, seja ela animal ou vegetal, que têm definido, tantas vezes, o destino trágico de suas comunidades.
Será novamente assim a partir deste ano. Mais um grupo de sujeitos externos ao território amazónico imaginará o destino que ali deveria habitar e, na contramão do Bem viver como explica Alberto Acosta, tentará levar a cabo suas experiências. Para Acosta o Bem viver não implica uma proposta acadêmico-política, mas a possibilidade de aprender a partir de realidades, experiências, práticas e valores presentes em diversos habitats, mesmo nos dias atuais em meio à civilização capitalista.
Apesar de a mais refinada ciência ocidental ter partilhado em revistas, livros, inúmeras aulas, palestras, demonstrações audiovisuais, que o melhor trabalho e o melhor destino para a Amazónia e seus povos, tanto quanto para o destino climático e a biodiversidade do planeta é manter e reproduzir a conservação da floresta, como fazem, naturalmente, os povos tradicionais que ali habitam – indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores e extrativistas da terra e da água – enfim, aqueles que vivem ali muito antes dos predadores do mercado mundial, seja ele nacional ou internacional, chegarem. Quando falamos da cultura ocidental, podemos citar uma ganhadora Nobel e seu trabalho que faz o elogio dos sistemas de uso comum: a norte americana Elinor Ostrom.
Pensemos por um momento naquela Amazónia que não aparece nos média, nos escândalos e na imaginação científica contemporânea. Nela se escondem problemas verdadeiros da região – a começar pelo silêncio que acoberta a vulnerabilidade dos povos tradicionais, o desmantelo sociocultural e ambiental e os modelos de predação económica e cultural empreendidos em longas escalas temporais e espaciais.
Esse silenciamento corre na esteira de um projeto civilizatório que não contempla índios, quilombolas, ribeirinhos, pequenos agricultores, trabalhadores da floresta, etc, e não vislumbra dimensões da existência da Amazónia que considerem a sua cultura e a complexidade de seus biomas. Esse silenciamento nos impõe a todos uma nova relação com as informações, na qual, se quisermos ser ecologicamente corretos, devemos nos tornar pesquisadores, buscar e checar informações e compartilhar o que se sabemos comunitariamente. O que está em jogo é a sobrevivência de todos nós. O dia em que não houver mais lugar para o índio, não haverá lugar para o humano. Algo como “a morte da floresta é a nossa morte”, estava estampado na camiseta da Irmã Dorothy Stang, que foi assassinada em fevereiro de 2005.
Nossa agrura surge do fato de a Amazónia ser parte de um contínuo processo de renovação de sua colonização, que não terminou com a independência do Brasil. Novos tempos, novas colonialidades: a floresta segue como laboratório a céu aberto de interesses econômicos e empreendimentos que não deixam dúvida sobre o impacto da invasão e submissão de terras e gentes aos vencedores.
Outro aspecto a ser considerado é que, mesmo diante do estágio contemporâneo da sociedade brasileira, o Estado não tem projeto para a região, salvo o de ceder a Amazónia como moeda de troca para qualquer forma de experiência e intervenção dita produtiva. Como se manter e reproduzir a floresta em pé – algo que os povos amazónicos fazem há milénios, gerando, inclusive, rios voadores, esses que chovem sobre nós em toda a América do Sul – não fosse suficiente produção.
Não se sabe o que fazer com a Amazónia do ponto de vista governamental. Como se os povos tradicionais, conjuntamente com as ciências, já não tivessem encontrado muitas soluções. No entanto, não são soluções imediatas para a ganância do agronegócio que atuam na região. A Amazónia da atualidade é um território de enclaves – no Mato Grosso, na Zona Franca de Manaus, no Acre, no Pará – que não levam em consideração o diálogo entre povos tradicionais e ciência, produtor de muito rico conhecimento sobre a região. Os povos indígenas são também produtores de conhecimento.
Em síntese, o maior problema da Amazónia é essa violência lenta, contínua, da indiferença entre o governo e seus povos, que poderia ser feita a partir de uma ciência interessada no presente e no futuro humano. Mas a indiferença submete os inocentes, subverte o que poderia ser verdadeira e contemporaneamente nacional na política brasileira, e sabota todo e qualquer projeto autônomo de preservação da cultura, de biomas, da memória e da nossa história. Contra a ignorância, temos a ciência, os conhecimentos tradicionais, a memória.