Quem diz a verdade?

Publicado em 13/04/2018 por Lúcio Flávio Pinto - Amazônia Real

O Estado do Pará, o segundo em território e o nono em população do Brasil, espera arrecadar neste ano 27 bilhões de reais. A multinacional norueguesa Norsk Hydro fatura um terço desse valor no Estado, em quatro empreendimentos: a maior fábrica de alumina e a oitava maior fábrica de alumínio do mundo, uma das maiores jazidas de bauxita do mundo e participação em outra mina.

 

Com expectativa de receita próxima de R$ 10 bilhões, ela emprega – direta e indiretamente – quase cinco mil pessoas, quatro mil delas no município de Barcarena, sua principal base no Brasil, a 50 quilômetros de Belém. E a que mais deve se expandir em todos os domínios dessa multinacional.

 

Nas últimas semanas a Hydro foi tema de interesse internacional por ser flagrada fazendo exatamente o oposto do que constituía o seu maior capital institucional e de prestígio: a atenção e os cuidados exemplares com o meio ambiente. Uma credencial que fez o governo da Noruega, maior acionista da empresa, criar um programa de um bilhão de reais para proteger as florestas da Amazônia e criticar o governo brasileiro por não prestar a contrapartida devida por tanta atenção de um país estrangeiro.

 

A partir de denúncias de moradores vizinhos às duas fábricas gêmeas, a Albrás (de alumínio) e a Alunorte (de alumina), autoridades locais constataram não apenas o vazamento de lama tóxica a partir dos imensos depósitos de rejeitos industriais como a existência de tubulações clandestinas que despejavam água sem tratamento nas drenagens naturais da região.

 

Instituto Evandro Chagas, uma das principais instituições científicas da região, com reconhecimento internacional na sua especialidade, o estudo de arboviroses tropicais, chegou a constatar, junto com a Universidade Federal do Pará, a maior do norte do país, a contaminação de pessoas com metais pesados, em dosagens elevadas.

 

Inicialmente, a alta direção da Hydro reconheceu erros e falhas, admitindo sua culpa, pedindo desculpas e prometendo sanar todas as irregularidades. Investiria o que fosse necessário (200 milhões de reais) para montar um sistema de controle dos resíduos da sua atividade, potencialmente agressiva ao meio ambiente, na mais exemplar possível.

 

Nesta semana, porém, a empresa contra-atacou. Com base em resultados preliminares de uma auditagem internacional, contestou os resultados das pesquisas que levaram à sua condenação e execração pública.

 

Sustentou que não houve transbordamento das bacias de deposição de lama vermelha, resultante da lavagem química do minério de bauxita para sua transformação em metal. Nem teria havido lançamento de água contaminada nas drenagens, que resultariam em sérios problemas de moradores ribeirinhos, inclusive pela ameaça de doenças graves, como o câncer.

 

Em seguida, a empresa anunciou que a Albrás, responsável pela produção de 460 mil toneladas de alumínio primário, a principal exportadora brasileira desse produto, começaria a ter sua atividade reduzida à metade, já que outra subsidiária do grupo, a Mineração Paragominas, responsável pela maior parte do suprimento de matéria prima, teve de se ajustar à diminuição de 50% da produção da Alunorte, por ordem da justiça, que ainda obrigou a companhia a pagar pesada multa.

 

O laudo preliminar, cuja íntegra não foi fornecida, parece ter dado ânimo à Hydro de enfrentar o governo num terreno no qual as donas de grandes empreendimentos se têm revelado frágeis: a prática de crime ecológico, como o recente perpetrado pela Anglo American e a Vale em Mariana, Minas Gerais, o maior da história do Brasil.

 

Se a Hydro for em frente e, para resolver o dissídio, se torne necessário recorrer a uma arbitragem internacional, seria um passo à frente para, ao mesmo tempo, desvendar as práticas ilegais ou irregularidades de poderosas empresas e a seriedade da conduta governamental, muito elogiada às vezes mais pelo que diz do que pelo que faz. A prova dos nove fará bem a todos, principalmente ao quase sempre esquecido cidadão.


Publicado originalmente por Amazônia Real