Análise: PF fez muitas perguntas. Temer deixou várias sem resposta

Publicado em 19/01/2018 por O Globo

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BRASÍLIA - A lista tinha 50 perguntas subdivididas em outras tantas. No total, foram mais de 100 indagações da Polícia Federal ao presidente da República. Mas as respostas de Michel Temer, apesar de conterem uma categórica negação de que tenha se envolvido em cobrança de propina para edição de medidas que supostamente teriam beneficiado empresas do setor portuário, entre elas o Grupo Rodrimar, deixaram sem resposta vários quesitos feitos pela PF.

VEJA: As respostas de Michel Temer para perguntas da Polícia Federal

Logo no início, Temer deu única resposta às três primeiras perguntas feitas pelo delegado Cleyber Malta Lopes, que preside o inquérito conhecido como do caso Rodrimar. A PF queria que Temer explicasse: executava função de arrecadação nas campanhas de 2002 a 2014?; tinha conhecimento prévio de valores recebidos?; quem foram os doares?; tinha vínculo com algum dos setores que doaram? A resposta do presidente sugere que o delegado vá procurar os dados disponíveis na justiça eleitoral. "Todas as informações pedidas constam das prestações de contas feitas Justiça Eleitoral.". No TSE, existem planilhas que, de fato, respondem quem foram os doadores oficiais e os respectivos valores. Não há ali informação se Temer participou, sabia ou conhecia ou procurou seus doadores.

Quando a PF indaga se Temer conhece Antônio Celso Grecco, presidente do grupo Rodrimar, e no mesmo quesito subdivide com perguntas sobre qual a relação que tem com o empresário, se já o encontrou, quando foi e se deu a ele alguma orientação, o presidente dá uma resposta pela metade. "Estive com ele, rapidamente, em duas ou três oportunidades, sendo que jamais tratei de concessões para setor portuário", escreveu Temer, sem dizer quando, onde ou como. Quando a pergunta seguinte pede que diga se teve encontros extra-oficiais com Grecco e suas circunstâncias, Temer se lembra até onde foi, citando apenas um encontro: "Encontrei-me com Sr. Antonio Celso Grecco em uma festa de aniversário de um amigo comum. Nenhum pedido me foi formulado por ele, nem nesta nem em ocasião nenhuma", disse.

Sobre o advogado e amigo José Yunes, que é citado em investigação por recebimento de pacote de dinheiro, Temer confirma a amizade de longa data. Mais de 50 anos anos, diz o presidente. Colegas de faculdade, lembra ele. E sobre a atuação do amigo nas campanhas eleitorais? A resposta foi mais uma vez genérica: "...longa amizade criou um grau de confiança entre nós, de maneira que Dr. José Yunes me auxiliou em campanhas eleitorais, mas nunca atuou como arrecadador de recursos". Ficou sem explicar qual era o auxílio que o amigo dava no processo eleitoral.

Quando o delegado pede para Temer falar sobre o pacote de dinheiro entregue a Yunes pelo doleiro Lúcio Funaro, o presidente diz que ficou sabendo pela imprensa primeiro. E só depois pelo próprio Yunes. Ou seja, o amigo de 50 anos e assessor especial da presidência primeiro contou a um jornalista e depois a Temer sobre o tal pacote.

À pergunta sobre as relações comerciais que manteve com Yunes, Temer disse que se limitaram a transações imobiliárias por intermédio do amigo e aproveitou para reclamar da pergunta. "Como Dr. José Yunes, durante algum tempo, além de advogado, dedicou-se ao ramo imobiliário de construções, realizei alguns poucos negócios nesta área por seu intermédio. Embora responda pergunta, peço vênia para realçar sua absoluta impertinência em face do objeto do inquérito".

Temer também não deu muitos detalhes sobre o papel de outro auxiliar: João Baptista Lima Filho, conhecido como Coronel Lima. Trabalharam juntos ? Em que circunstância? O coronel autuou nas campanhas eleitorais? Temer responde: "Conheço Sr. João Batista Lima Filho desde época de minha primeira gestão como Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, em 1984, oportunidade em que Sr. João Batista foi meu assessor militar. Sr. João Batista me auxiliou em campanhas eleitorais, mas nunca atuou como arrecadador de recursos". Mais uma vez ficou a lacuna sobre o papel do coronel nas campanhas de Temer.

O delegado da PF ainda perguntou sobre a atuação de Temer junto ao setor portuário. O presidente negou envolvimento direto. Em relação a Rodrimar, principal objeto da investigação, Temer foi direto e também negou qualquer envolvimento com recebimento direto ou por terceiros de propina. "A questão dos portos, tal como tantas outras, chegou ao meu conhecimento por intermédio de membros do próprio governo de parlamentares. Não tenho e jamais tive nenhuma relação com setor portuário entre as diversas que mantive como parlamentar e Vice-Presidente Presidente da República com os setores empresariais". A PF pede a lista dos empresários que Temer recebeu em 2013, suas demandas, como o caso foi conduzido por ele? O presidente responde sem responder: "A resposta da questão anterior se aplica à presente". Mas Temer não não cita nomes, datas, pedidos. Mais um quesito que ficou sem esclarecimento.

À indagação sobre a ligação telefônica em que Rocha Loures pede informação a Temer sobre decreto da área portuária, o presidente diz que não deu ao então deputado função de tratar do assunto, sem explicar então a razão da conversa telefônica.

A várias outros pedidos explicações ainda sobre o tema portuário, Temer preferiu não dar margem às dúvidas. Negou ter ouvido pedidos do setor ou de parlamentares e também negou ter dado ordens ao governo para atender aos pleitos.

Francisco Leali é coordenador de Nacional do GLOBO em Brasília