Livro explora desafios de quem faz jornalismo na Amazônia Legal

Publicado em 06/11/2017 por Folha de S. Paulo Online

Depois de quatro décadas de dedicação às reportagens em jornais, com especial atenção para a cobertura das telecomunicações, a jornalista Elvira Lobato, 63, decidiu rever o tema sob um novo enfoque. E assim levá-lo para as páginas de um livro.

O mote central do recém-lançado "Antenas da Floresta" não é a utilização de TVs por políticos e grupos religiosos, filão pelo qual ela se tornou conhecida nos 27 anos em que trabalhou na Folha.

O "coronelismo eletrônico", como é conhecido o uso da mídia para obtenção de poder político, aparece com clareza ao longo das mais de 350 páginas do livro.

Mas os políticos ocupam papel coadjuvante na obra, assim como os empresários que comandam as pequenas retransmissoras.

A autora se volta para o trabalho de repórteres e cinegrafistas que contornam a precariedade financeira e técnica para fazer jornalismo na Amazônia Legal.

É o caso de Edson Nascimento, da TV Rio Norte, instalada em Conceição do Araguaia, cidade no sul do Pará.

Em um trecho divertido do livro, Elvira reconstitui a produção de uma reportagem de Nascimento, que transcorre em uma madrugada no cemitério da cidade.

O objetivo dele é denunciar a falta de iluminação pública, que havia transformado o local em abrigo para ladrões e usuários de drogas.

"É um jornalismo rudimentar e, muitas vezes, manipulado. Ainda que tenha esses defeitos, é um trabalho de relevância", afirma Elvira, que realizou três expedições pela Amazônia Legal entre 2015 e 2016. A região representa 59% do território brasileiro.

"Convivi com jornalistas que tinham sido garimpeiros, trabalhadores rurais... A dedicação deles me emocionou", conta. "Apesar das condições duras, todos falam do jornalismo com paixão."

Ela afirma ter sido cuidadosa ao abordar os repórteres responsáveis pelas histórias presentes no seu livro.

"Não falava com a arrogância de jornalista profissional de uma grande cidade", diz Elvira, vencedora do Prêmio Esso de 2008 pela reportagem publicada pela Folha sobre o crescimento do patrimônio da Igreja Universal.

DO ACRE A TOCANTINS

"Antenas da Floresta" é o segundo livro da jornalista. Em 2005, ela lançou "Instinto de Repórter" (Publifolha), que reúne 11 reportagens, como a que revelou a construção de um poço para testes nucleares no Pará. Esse texto foi publicado em 1986.

Dezenove anos depois, o Pará foi um dos Estados percorridos na primeira expedição de Elvira para a apuração do novo livro. Só nesta incursão inicial, foram 5.000 km rodados por terra pela Amazônia Legal (formada por Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins).

A explicação para a escolha da enorme região surge no primeiro capítulo de "Antenas da Floresta".

Em 1978, o presidente Ernesto Geisel assinou decreto que permitia inserção de programação local nas TVs de "regiões de fronteira de desenvolvimento". A ordem, contudo, não esclarecia que regiões eram essas. Ela só ganhou efeito prático no governo José Sarney, quando se estabeleceu que a determinação dizia respeito à Amazônia Legal.

Desde então, retransmissoras instaladas nesse território podem ocupar até 15% da programação (três horas e meia por dia) com produção local.

Há hoje na região ao menos 400 microtelevisões. Só em Araguaína (TO), com cerca de 100 mil habitantes, existem sete telejornais locais.

"Se há um acidente ou alguém leva um tiro, avisam primeiro a TV e só depois chamam a polícia ou a ambulância", conta Jaime Júnior, apresentador de uma TV de Araguaína, no livro.

Apesar das ressalvas (e são muitas) à qualidade do noticiário apresentado pelas retransmissoras da Amazônia, "Antenas da Floresta" é uma profissão de fé no jornalismo.

No parágrafo final do livro, Elvira escreve: "A jornalista que começou este livro não é a mesma que o concluiu. A experiência modificou positivamente meu olhar sobre o exercício da profissão".

*

ANTENAS DA FLORESTA
autora Elvira Lobato
editora Objetiva (358 págs.)
quanto R$ 59,90