Neste desalento, com a endorfina, sou um drogado na multidão

Publicado em 04/07/2017 por Folha de S. Paulo Online

Neste momento tão difícil da vida nacional, eu busco paliativo na maior e mais natural das drogas: a endorfina. No dia 15 de novembro, o meu primeiro triatlo me espera.

É um virada contundente na vida de um ex-gordo fumante de 160 quilos galopando para os 200 quilos.

Naquela época, Roberto Kalil, meu médico, foi taxativo: você vai morrer.

Eu escrevo este texto às 4h40, o momento em que saí da cama nesta segunda-feira fria de São Paulo rumo à piscina da academia.

O triatlo "short" para o qual venho me preparando são 750 m de nado, 20 km pedalando e 5 km correndo.

Assim escrito não parece tão difícil.

Mas, na realidade do simulado que fiz no mês passado em São Carlos, no interior de São Paulo, não é fácil não.

É como ser empresário no Brasil.

Tributos mais burocracia mais péssimo ambiente de negócios mais imprevisibilidade... Somos todos ironmen.

Empresário hoje no Brasil não dorme e não sonha. Eu desmaio.

São duas horas e meia de treino que caminham para três com uma folga na sexta. Nos fins de semana, faço um treino longo no qual posso nadar com a roupa de borracha que vestirei na prova e pedalar em ladeiras que me darão mais músculo.

Chego geralmente às 8h na empresa, onde tomo banho, café da manhã (o segundo após o treino), almoço lá mesmo e só saio às 20h.

A endorfina foi fundamental para fazer a empresa que toco subir dez posições no ranking de agências de publicidade do Brasil, numa virada espetacular. Ela nos ajudou a conquistar uma das maiores vitórias de minha carreira profissional no festival de Cannes deste ano, tem atraído clientes e talentos para trabalhar conosco e mudou o ambiente de trabalho.

Sim, foi tudo graças a ela: a endorfina.

É muito melhor que Rivotril. A história da minha vida é a luta pelo sono e pelo sonho. Esse triatlo tem me dado os dois.

Neste momento de desalento nacional, sou um drogado na multidão.

Eu fugi da realidade. Que, aliás, é meu truque no Brasil desde sempre.

Quando cresci, havia a realidade da ditadura. Quando comecei minha agência, a realidade da inflação. Hoje, a realidade dos fatos. Quando pulo da cama e vejo meu peso, entro imediatamente num sonho grande, como diz Jorge Paulo Lemann.

O homem não pode viver sem seu sonho grande. Sou baiano, vindo de um família de esquerda. A disciplina nunca foi minha praia. A endorfina me levou para a disciplina, a rotina, a soneca depois do almoço, a castanha no meio da tarde.

E, à noite, eu desmaio. Às 21h30, 22h sou um ser em transe.

Durante o dia, a endorfina me deixa em ritmo de Brasil grande. Sou um sujeito desconectado da realidade. Parece que a economia está crescendo a 4% ao ano.

O Brasil está cheio de problemas, mas tenho um seríssimo: a piscina.

Das três modalidades, a natação é a que mais me desafia. Por isso, vou ter que aumentar meus treinos de natação de duas para três vezes por semana.

Meu peso no início do ano era 104 quilos. Agora estou em 97 e preciso perder ainda mais sete para o triatlo do dia 15 de novembro.

Peso é custo, a data é a meta.

Enfim, é tudo gestão digna do meu mestre Galeazzi.

Não é à toa que grande parte dos empresários modernos, como Alexandre Birman e Duda Sirotsky Melzer, é também maratonista.

A grande maratona é o Brasil.
O triatlo nos dá força para enfrentar esse ironman que é ser empresario brasileiro