Análise: Banco do Japão provoca reversão de posições vendidas no iene

Publicado em 11/01/2018 por Valor Online

SÃO PAULO - O Banco do Japão (BoJ) vem reduzindo as compras de JGBs (títulos soberanos) gradualmente, à medida que sua política se concentra na curva de rendimentos (yield curve), não na quantidade adquirida de ativos, como se viu no anúncio feito na terça-feira. A instituição anunciou redução de 5% do que era o habitual em suas operações de recompra, ação que faz parte de seu esforço para estimular a inflação, mantendo as taxas de juros de longo prazo em torno de zero. Embora para alguns bancos essa mudança não seja propriamente surpreendente (já vem acontecendo), na dinâmica dos mercados de renda fixa e de moedas o impacto foi notório. O iene mostrou na quarta valorização de cerca de 1% em relação ao dólar. Quando investidores começaram os negócios ontem, o dólar estava por perto de 111,65/USD, abaixo de 112,77/USD. Por volta das 7h15 (horário de Brasília), a moeda japonesa era cotada a 111,44/USD. A ação do banco central japonês também elevou os rendimentos dos títulos de 10 anos do governo japonês para 0,087%. O reflexo foi sentido da mesma forma na T-note americana, que bateu o seu nível mais alto desde março na terça-feira, a 2,542%. Ontem, o yield atingiu a máxima a 2,597% no meio da sessão. Leituras de que o crescimento será mais forte e sincronizado neste ano pressupõe ações preventivas contra a redução dos estímulos monetários globalmente. No começo de janeiro, as apostas em um iene mais fraco pelos maiores traders - incluindo instituições financeiras e hedge funds - eram as maiores desde meados de novembro, segundo dados da U.S. Commodity Futures Trading Commission. Isso refletiu a desmontagem de especulações anteriores de que o BoJ planejava reforçar - e não flexiblizar - sua política. Essas apostas haviam sido infladas pelo discurso do presidente Haruhiko Kuroda em novembro, quando destacou o prejuízo que poderia derivar de taxas de juros muito baixas para as instituições financeiras, considerando que a taxa de depósitos está negativa em 0,10%. Na ocasião, Kuroda reforçou que nada mudaria nas estratégias até que a meta de 2,0% de inflação fosse alcançada. A reação dos mercados na ontem está relacionada com a reversão das posições vendidas no iene. A cobertura dessas posições curtas provoca os ganhos na moeda. O compromisso do BC japonês é comprar 80 trilhões de JGBs anualmente, mas desde a mudança de foco da política para uma estratégia de controle da "yield curve" em setembro do ano passado, o ritmo caiu para 60 trilhões de ienes - redução esta feita com bastante discrição. Para muitos analistas, o atual ambiente positivo dos mercados justifica a decisão do BoJ. No entanto, isso não necessariamente significa que a posição política do BoJ se tornou mais "hawkish" (voltada para o aperto monetário). O próprio Kuroda já disse repetidas vezes que o impacto das compras de ativos foi amplificado porque o 'efeito estoque' aumentou. Ou seja, há menos títulos disponíveis no mercado. Segundo análise de Yujiro Goto, estrategista do Nomura, é improvável que a redução das compras de JGBs super longos eleve muito os yields. Devido ao recente aumento das expectativas de inflação, os rendimentos reais dos títulos devem permanecer em torno do menor nível desde dezembro de 2016. Além disso, a redução das compras de fato melhora a sustentabilidade do atual quadro de flexibilização, uma vez que tira o peso do problema do limite de aquisições. "Em outubro, na reunião do Banco Central Europeu, o mercado estava focado na duração e no tamanho da mudança do QE, e concluímos que a duração era mais importante do que uma compra menor", disse Goto. Isso também é verdade para as compras de ativos do BoJ. Menores montantes de JGB facilitam a manutenção do quadro de estratégia de controle da curva. Se o ambiente positivo continuar, a redução das compras deve persistir. A postura de Kuroda daqui para frente também será importante para os mercados. O presidente fará a abertura da reunião dos gestores de sucursais do BoJ em 15 de janeiro e uma conferência de imprensa será realizada em 23 de janeiro após a próxima reunião de política monetária, como de costume. Há também no radar dos investidores a troca de comando no BC japonês. Em abril o mandato de Kuroda acaba, mas ele segue o favorito pelos participantes do mercados para continuar à frente do banco central do Japão.