Cientistas planejam ação para proteger primatas da Mata Atlântica

Publicado em 11/02/2018 por O Globo

Muitos macacos tem sido mortos por conta da falsa associação dos animais com a propagação da febre amarela - Guito Moreto / Agência O Globo

SANTA RITA DE IBITIPOCA- A febre amarela dominou as discussões da reunião que levou a Ibitipoca em janeiro 12 dos principais primatologistas do Brasil. Próximo à mata onde vivem os últimos muriquis da região, eles discutiram não só as ameaças a essa espécie, mas a todos os primatas da Mata Atlântica. A meta é lançar em abril o Plano Ação Nacional para a Conservação dos Primatas da Mata Atlântica, um projeto de nome grandioso e objetivo maior. O conceito é o de que os macacos precisam de nós. Mas nós também não podemos ficar sem eles. E eles estão no limite. Para o primatologista Sérgio Lucena, está na hora de as pessoas entenderem que não existe floresta sem os macacos. Sem floresta, não há água, nem regulação do clima e do solo.

Leia mais: Macaca aventureira recusa poliamor e frustra plano de pesquisadores para salvar a espécie

Historicamente, os muriquis são mais resistentes à febre, mas os dados do Sossego acenderam o sinal vermelho. Em 2017, morreram 11% dos 350 muriquis da maior população conhecida da espécie, a da RPPN Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga (MG), perto do Sossego. A febre amarela é a causa mais provável, diz Karen Strier, presidente da Sociedade Internacional de Primatologia. Professora da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), ela estuda os muriquis do Brasil há 30 anos.

- O muriqui é uma espécie tão preciosa que salvar qualquer indivíduo é importante. Com a experiência perigosa da febre amarela na natureza, temos que aprender a reintroduzir espécies, proteger a floresta e, com ela, as pessoas - diz.

VÁRIAS ESPÉCIES EM RISCO

O plano estabelecerá as estratégias para proteger as 24 espécies de macacos na Mata Atlântica. Fabiano Melo, um dos organizadores da reunião e professor da Universidade Federal de Viçosa, frisa que a febre levou os primatas do bioma ao limite. Ela ataca com ferocidade os bugios, também conhecidos como guaribas ou barbados. Mas a epidemia mata também sauás, macacos-pregos e algumas espécies de saguis. E é apontada como a provável causa para o desaparecimento de muriquis em Caratinga e no Sossego.

Leandro Jerusalinsky, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros, destaca que as prioridades são o muriqui e o barbado-vermelho. Esse último é um dos primatas em maior risco da Terra. Restam 250, segundo as estimativas mais otimistas, e pouco se sabe sobre eles. Estão espalhados em fragmentos de floresta entre Minas e Bahia, dentro da área afetada pela epidemia. Leonardo Neves, que trabalha com o barbado-vermelho no sul da Bahia, lamenta a falta de recursos para estudá-lo e teme que desapareça antes que se possa fazer alguma coisa. Em seu último levantamento, encontrou 80. E o dinheiro acabou antes que localizasse os demais.

Na Mata Atlântica, os primatas perderam 90% de seu habitat, o que os deixa vulneráveis à redução da diversidade genética e dificulta a busca por alimento. No que restou de habitat sofrem pressão da caça. Monica Mascarenhas, do ICMBio, observa que a Mata Atlântica é uma colcha de 250 mil retalhos, a maioria deles com menos de 50 hectares. São milhares de matas como a do Luna, a maioria desertos de bichos cercados por gente.