Crítica: um Neil Young político e ecológico, com qualidades e defeitos

Publicado em 05/12/2017 por O Globo

RIO - Dificuldades para gravar, Neil Young nunca teve lá muitas. Com canções que parecem fluir em cascata, surgidas de uma inesgotável inspiração que ele tem buscado ultimamente nas discussões sobre política e ecologia, só o que lhe falta para fazer mais discos é uma banda e alguns equipamentos.

"The visitor" é resultado de quando ele entrou no estúdio Shangri-la, do produtor Rick Rubin, com o Promise of the Real - banda de Lukas, filho do cantor Willie Nelson, com quem vem trabalhando desde o álbum "Monsanto years", de 2015.

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É um disco que tem sangue e bile, um pouco mais organizado e menos sujo do que seria com o seu velho Crazy Horse (mas não tão certeiro quanto o que fez com o Pearl Jam, "Mirror ball") e tão cheio de qualidades e defeitos quanto qualquer dos álbuns que vem lançando, com saudável regularidade, desde 2000.

Há 50 anos vivendo nos EUA, Neil Young sente-se impelido, logo na primeira faixa de "The visitor", a dizer: "Por acaso, eu sou canadense, mas amo os Estados Unidos". Rock de garagem, arrastado, "Already great" é uma investida ao artista contra o lema "Faça a América grande novemente" de Donald Trump, assegurando que o país não deixou de ser grande e que sempre foi a terra prometida, com seu modo de vida e a sua liberdade de expressão.

Um pianinho de brinquedo introduz a seguinte, "Fly by night deal", rock rude com letra lembrando que "atirar em coisas na floresta tem um custo". "Almost always", por sua vez, conduz com seu violão e gaita aos clássicos folk de Young, com empréstimo de guitarra da sua própria "Unknown soldier" e mais menções mal-disfarçadas a Trump ("estou vivendo com um apresentador de programas de jogos na TV / que tem que se gabar e se vangloriar").

Em seu ímpeto de comentarista político, Neil Young faz com que algumas faixas pouco consigam ir além do semples libelo, como "Stand tall" e "Children of destiny" ("Levante-se pelo que você acredita / resista aos poderes constituídos / preserve a terra e os mares").

Por outro lado, ele se arrisca na latinidade em "Carnival" (que fica meio Santana demais) e deixa o clima de banda de bar esfumaçado rolar em "When bad got good".

No fim das contas, "The visitor" é um dos álbuns de que se poderia dizer palatáveis na carreira de selvagens oscilações estilíticas de Neil Young - embora esteja bem longe do brilhantismo dos seus clássicos.

Cotação: bom