Para especialistas, desobstrução de galerias de águas pluviais pode minimizar inundações no Rio

Publicado em 09/01/2018 por O Globo

Problema. O lixo toma o Rio Arroio Fundo, em Jacarepaguá: acúmulo de detritos pode provocar enchentes - Gabriel Paiva / Agência O Globo

RIO - Como acontece todo verão, o pesadelo das inundações voltou. Bastou que chovesse mais - em oito dias, os temporais produziram 85% de toda a precipitação prevista para o mês de janeiro - para que a cidade, das zonas Norte a Sul, não suportasse a pressão da água. Um levantamento do Centro de Operações Rio (COR), feito a pedido do GLOBO, revela que a cidade tem 378 pontos mais vulneráveis a alagamentos e a deslizamentos de encostas. A Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma), responsável, junto com a Comlurb, pela limpeza dos bueiros, listou, sem informar o endereço de cada uma delas, 43 áreas de inundação severa, que merecem atenção especial. Mas, para especialistas ouvidos pelo jornal, a população carioca sofre porque, entra gestão, sai gestão, e o poder público não faz o dever de casa: desobstruir as galerias de águas pluviais.

Entre as áreas listadas, estão velhos conhecidos: as ruas Jardim Botânico - onde há anos pedestres se penduram nas grades do parque para atravessar bolsões d'água - e do Catete; a Lagoa Rodrigo de Freitas; e as avenidas Brasil (trechos de Irajá, Parada de Lucas e Caju), Maracanã (Tijuca) e Ayrton Sena (Barra da Tijuca). A Praça da Bandeira, que perdeu o apelido de "Praça da Banheira" após a construção de três reservatórios na Grande Tijuca, ainda não está completamente livre do problema e, nas últimas chuvas, houve registro de alagamentos em alguns trechos da região.

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FALTA DE CONSERVAÇÃO, DIZ ESPECIALISTA

O caso específico da Zona Sul é bem conhecido de especialistas. Problemas como o do Jardim Botânico, onde há registros desde a grande enchente de 1966, quando houve 250 mortos na cidade - ou da Lagoa poderiam ser resolvidos com investimento em microdrenagem. O professor do Laboratório de Hidrologia da Coppe/UFRJ, Paulo Canedo, não tem dúvidas de que as inundações são causadas por má conservação, principalmente devido ao entupimento das galerias de águas pluviais:

- Jardim Botânico, Lagoa e Catete são regiões que têm encosta íngreme, com rios pequenos que descem e ficam muito planos até chegarem ao mar. Mas isso não deveria trazer nenhum grande problema de inundação. Portanto, os rios não são a questão, mas, sim, o sistema de microdrenagem. Não há por que o Jardim Botânico encher pois a água poderia escoar para o mar do Leblon. É má conservação, entupimento mesmo. Problema do sistema de microdrenagem da região. Situações, como a que aconteceu durante a obra do metrô, com a obstrução do canal da Visconde de Albuquerque, que provocou alagamento às vésperas das Olimpíadas, são pontuais - explicou o especialista.

Alagamentos clássicos na cidade

  • Avenida Francisco Bicalho: A foto histórica mostra o transbordamento do Canal do Mangue em 1966. Quase 52 anos depois, o ponto continua na lista da prefeitura como uma área sujeita a inundaçõesFoto: -

  • Rua Jardim Botânico: Um grupo enfrentou em 1988 a inundação após um temporal na via, onde as cheias fazem parte desse cenário desde a década de 1960. Autoridades atribuem o problema à maré alta da LagoaFoto: Carlos Ivan / -

  • Rua Maracanã: Em 2005, a chuva alagou a via, após o transbordamento do rio Maracanã Foto: Fernando Quevedo / -

  • Praça da Bandeira: O local ficou alagado após temporal, e a água invadiu comércios, em janeiro de 1996 Foto: -

  • Parque dos Patins: A chuva que caiu na cidade em 2010 transformou as ruas da Lagoa em um mar de barro e deixou o Rio em estado de emergência Foto: Gabriel de Paiva / -

  • Avenida Brasil: Aqui é outro ponto que costuma dá um nó na cidade quando enche. Esse alagamento de 2013 em Irajá deixou passageiros ilhados por horas, mas os bolsões d'água são comuns na via há mais de 50 anosFoto: Marcelo Carnaval / -

  • Acari: Jovens nadam próximo a um carro, que estava sendo retirado do Rio Acari, em dezembro de 2013, após chuva forte Foto: Gabriel de Paiva / -

No caso dos alagamentos da Avenida Brasil, Canedo ressalta que há obras em curso ao longo da via que podem estar atrapalhando o fluxo de água. Ele observa, no entanto, que é preciso verificar se o problema vai persistir quando as intervenções forem concluídas. O quadro, segundo ele, é mais crítico no Rio Maracanã e no Rio Acari, que teve o entorno bastante castigado durante as chuvas de ontem. No caso da Tijuca, ele alerta para a solução que poderia pôr um fim às inundações: obra de desvio no curso do Rio Joana, que teve início em 2012 e não foi concluída até hoje. Só os três piscinões das Praças da Bandeira, Varnhagen e Niterói não foram suficientes para conter o avanço das águas.

- Quem projetou os piscinões desconsiderou a inaptidão do governo brasileiro em fazer a manutenção. Sabemos construir, mas nossa capacidade de manutenção é precária. A região só ficará adequada quando fizerem obras nos rios da região, principalmente o Joana - disse Canedo.

O presidente da Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro (Seaerj), Haroldo Mattos de Lemos, também concorda com Canedo sobre a falta de manutenção dos piscinões e da cidade como um todo:

- Falta um planejamento de limpeza e os governos municipais estão cansados de saber disso. Durante o ano inteiro, jogam lixo no sistema de drenagem. É nesta época do ano que vem a conta. Se tivessem feito uma programação de limpeza, as enchentes não ocorreriam com esta frequência. Na região do Rio Acari, o problema é o lixo que jogam nos rios, porque o sistema de coleta naquela parte da cidade e na Baixada não é adequado. Na Tijuca, os reservatórios já estão com suas capacidades comprometidas por falta de manutenção - avaliou Haroldo Mattos.

O COR informou que monitora todos os pontos e que vem implantando algumas medidas preventivas, como deslocar veículos do tipo vac-all (uma espécie de aspirador gigante para a desobstrução de bueiros) para as áreas inundadas. O órgão informou que a última vez em que a Praça da Bandeira foi interditada por causa da chuva foi em março de 2016. Ele também informou que o monitoramento da área é constante.

- O Rio tem três maciços, duas baías, a de Guanabara e a de Sepetiba, além do Oceano Atlântico. É muita oferta de umidade. Se não existissem as montanhas, choveria menos por aqui. Isso tudo influi nos cálculos meteorológicos. Por isso, é fundamental o monitoramento 24 horas - explicou o meteorologista Nilton Moraes, do Alerta Rio, lembrando que o índice de acerto é de 80% da previsão, chegando a 90% no inverno, por não existirem fatores termodinâmicos.

PREVENÇÃO TEVE CORTE DE ORÇAMENTO

Já a Seconserma confirmou que há 43 pontos críticos, mas não divulgou os locais, nem as razões para as enchentes. Por meio de nota, informou que a Fundação Rio-Águas monitora esses pontos críticos e que há disponibilidade de equipes especiais de plantão para atuação imediata em caso de emergência nas bacias hidrográficas, canais e rios da cidade. O Centro de Operações Rio, diz a pasta, também faz o monitoramento em tempo real dos principais cursos d'água através de 26 estações hidrológicas.

Especificamente sobre os pontos de alagamento nas zonas Norte e Oeste, a Seconserma alega que elas foram mais impactadas pela chuva da madrugada de ontem. Na Zona Norte, o bairro com maior incidência de chuva foi Madureira, onde foram registrados 58% da chuva esperada para este mês. Na Zona Oeste, choveu com mais intensidade na região da Barra /Barrinha, onde foram registrados 69% da média histórica de chuva no bairro.

Apesar das explicações dos órgãos, o município já admitiu ter gasto apenas 38,26% do orçamento do ano passado previsto para prevenção de enchentes, com exceção da Comlurb. Ao todo, foram investidos R$ 253,3 milhões em 2017. Este ano, o corte será de 14% no orçamento.