Falta de dragagem e despejo de lixo provocam cheias no Rio Acari há 50 anos

Publicado em 09/01/2018 por O Globo

Longe de uma solução. Um morador vê o Rio Acari tomar a rua em frente à sua casa: chuva durante toda a madrugada de ontem deixou população ilhada na região - Fabiano Rocha

RIO - Quando Thiago Gabri acordou, a rua onde ele mora, na Fazenda Botafogo, estava coberta por um metro de água. A chuva desta segunda-feira fez o Rio Acari transbordar mais uma vez, triplicando sua largura e deixando ilhada boa parte dos 30 mil moradores que vivem naquela região do bairro de Coelho Neto, especialmente nas ruas Ender, Prefeito Sá Lessa e Ouseley. Nesta última, Thiago, de 29 anos, mora com a mãe, a mulher e a filha. Tomadas pela água barrenta do rio, as vias de todo o entorno cheiravam a esgoto. O "mar" que se formou é uma mistura de lama e do entulho despejado diariamente às margens do Acari por pequenas construtoras. Sem outra alternativa para se deslocar, Thiago tirou ontem seu caiaque da garagem e, numa cena insólita, saiu remando pelo bairro alagado, oferecendo ajuda aos vizinhos.

- Há moradores, principalmente os mais velhos, que não conseguem sair de casa. Quem mora no térreo acaba perdendo os móveis, mas o problema não é só a chuva. Um caminhão de entulho (que descarrega restos de obra no local) passou na porta da minha casa e levantou uma onda tão grande que quebrou meu portão - contou o rapaz.

Caminhões de entulho são rotina às margens do rio, onde fica a Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza, onde morreu a estudante Maria Eduarda Alves da Conceição, no ano passado. Representantes da associação de moradores de Fazenda Botafogo levaram a equipe do GLOBO até o ponto mais crítico das inundações. A região industrial, que já teve 30 fábricas, foi se descaracterizando com o passar dos anos e, nas últimas duas décadas, deixou de ser endereço de nomes importantes como a Sony. Hoje, restaram prédios abandonados, e quase nenhum poste a iluminá-los, quando cai a noite. A canibalização da iluminação pública é, segundo um antigo morador, coisa de usuários de crack que roubam os fios de cobre.

CADA VEZ MAIS ASSOREADO

No breu, fica mais fácil para caminhões desembarcarem ali lixo de obras de bairros vizinhos e até de Duque de Caxias, município a apenas dez quilômetros de distância. O despejo é feito na beira do rio: há montanhas de resíduos, de até quatro metros de altura, que cobrem a placa com o nome da via. Quando chove, esse enorme volume de dejetos é arrastado para o rio, cada vez mais assoreado.

- Há quatro meses, os moradores se organizaram. Conseguimos tirar, por nossa conta, o equivalente a mais de 200 caminhões de entulho, levados para um aterro sanitário. Uma semana depois já estava a mesma sujeira de antes. Além disso, essa ponte que construíram sobre o rio é um horror, pois ele transborda e perde a vazão porque sofás e carcaças de carro ficam presos nela. Deveriam ter feito apenas uma passarela para os pedestres - protesta Josimar Carvalho Gabri, presidente da associação de moradores e tio do dono do caiaque.

Na manhã desta segunda-feira, havia pelo menos 30 carcaças de automóveis boiando no rio lamacento.

- O povo joga tudo no rio. O que você puder imaginar tem aí dentro - afirma a pernambucana Maria de Lourdes da Silva, aposentada e dona de um apartamento de primeiro andar em um dos 86 edifícios do conjunto habitacional que deu origem à Fazenda Botafogo, nos anos 1970. - Na enchente de 2013, a água chegou a 2,10m de altura e eu perdi todos os móveis. Tive que me mudar. Hoje alugo meu apartamento. Só rezando.

A solidariedade é a única defesa dos moradores contra os alagamentos que, segundo os mais antigos, acontecem há mais de 50 anos. A obra de dragagem prometida pela prefeitura caminha lentamente. Foram feitas apenas duas de cinco etapas previstas: na semana passada, o prefeito Marcelo Crivella esteve no local e determinou o uso de uma draga no Rio Acari, o que de fato aconteceu. Mas é pouco, diz quem mora lá. Segundo a Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente, a Fundação Rio-Águas fará duas licitações, uma delas da obra de canalização de um dos afluentes do Rio Pavuna e a outra do projeto de controle de enchentes para os rios Acari e Pavuna. Durante as chuvas da madrugada de ontem, equipes de plantão da secretaria trabalharam para "mitigar os efeitos das elevadas precipitações". Segundo a pasta, será licitado um amplo estudo técnico para intervenções de controle de enchentes em bacias hidrográficas dos rios Acari e Pavuna, área de 181 quilômetros quadrados que afeta um milhão de pessoas.

Alagamentos clássicos na cidade

  • Avenida Francisco Bicalho: A foto histórica mostra o transbordamento do Canal do Mangue em 1966. Quase 52 anos depois, o ponto continua na lista da prefeitura como uma área sujeita a inundaçõesFoto: -

  • Rua Jardim Botânico: Um grupo enfrentou em 1988 a inundação após um temporal na via, onde as cheias fazem parte desse cenário desde a década de 1960. Autoridades atribuem o problema à maré alta da LagoaFoto: Carlos Ivan / -

  • Rua Maracanã: Em 2005, a chuva alagou a via, após o transbordamento do rio Maracanã Foto: Fernando Quevedo / -

  • Praça da Bandeira: O local ficou alagado após temporal, e a água invadiu comércios, em janeiro de 1996 Foto: -

  • Parque dos Patins: A chuva que caiu na cidade em 2010 transformou as ruas da Lagoa em um mar de barro e deixou o Rio em estado de emergência Foto: Gabriel de Paiva / -

  • Avenida Brasil: Aqui é outro ponto que costuma dá um nó na cidade quando enche. Esse alagamento de 2013 em Irajá deixou passageiros ilhados por horas, mas os bolsões d'água são comuns na via há mais de 50 anosFoto: Marcelo Carnaval / -

  • Acari: Jovens nadam próximo a um carro, que estava sendo retirado do Rio Acari, em dezembro de 2013, após chuva forte Foto: Gabriel de Paiva / -