Feira de trocas de brinquedos garante novidade sem incentivar consumo

Publicado em 11/10/2017 por O Globo

Feira de troca de brinquedos promovida pelo Alana - Divulgação

RIO - Dar à criança tudo o que ela pede, por influência de amigos ou da publicidade, pode ser prejudicial em diferentes aspectos, da sustentabilidade financeira à ambiental. Datas comerciais, como o Dia das Crianças, estimulam o consumo excessivo, aquele que acontece sem uma real necessidade, seguindo simplesmente o impulso. Especialistas avaliam, no entanto, que essas datas podem se transformar em uma boa oportunidade para ensinar a criançada a exercitar o desapego e que para brincar não é preciso comprar um brinquedo novo, em eventos chamadoss feiras de troca. Aproveitando as comemorações pelo Dia das Crianças, o programa "Criança e Consumo", do Instituto Alana, está estimulando a realização e divulgação deste tipo de eventos e ensinando a quem se interessar como realizá-lo. No calendário no site do instituto há 14 feiras agendadas Brasil afora, seis delas marcadas para acontecer no feriado desta quinta-feira.

LEIA:Vai às compras neste fim de semana? Veja dicas para não se endividar com o Dia das Crianças

VEJA TAMBÉM:Dia das crianças: dicas para a escolha do presente da garotada

E AINDA: Dia das Crianças: Ipem/RJ recolhe mais de três mil brinquedos em operação em lojas da Saara

Responsável pelo programa "Criança e Natureza" do Instituto Alana, Laís Fleury ressalta que a feira de trocas de brinquedos tem uma importância enorme para as crianças por proporcionar a construção de valores mais humanistas.

- A criança não deve associar a felicidade unicamente ao ato de comprar, e assim tende a ser menos materialista em sua vida adulta. Ela desconstrói conceitos consumistas de uma forma lúdica, numa linguagem que ela entende e entra em contato com valores mais humanistas, como solidariedade, compaixão e que ser é mais importante do que ter - afirma Laís, que está organizando um evento no dia 22, na Urca.

A pesquisadora Neusa Tamaio, responsável pela Feira de Trocas de Brinquedos e de livros do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, lembra, por sua vez, que as crianças costumam acumular muitos brinquedos que já não brincam mais.. A propsota da feira, diz, é diminuir o consumo neste período, garantindo, no entanto, que ela tenha um objeto novo, mas sempre precisar ir às compras..

- Há outros pontos positivos nesses eventos: a criança exercita o poder da argumentação, já que, às vezes, tem que convencer o colega a fazer a troca; aprende a lidar com diferentes sentimentos, como compaixão, quando o brinquedo da criança que quer trocar é menos legal que o dela, mas o outro quer tanto que é muito bom aceitar a troca e ver a felicidade do outro; e a frustração, quando a outra criança não aceita a troca de jeito nenhum. No geral, todos saem satisfeitos - afirma a pesquisadora, lembrando que é a quarta vez que o Jardim Botânico promove o evento no Dia das Crianças.

Neusa acrescenta que a ideia é não ter a interferência do adulto, somente em casos sem solução, mas o comportamento dos adultos acaba chamando mais atenção do que o dos pequenos:

- O adulto não deve palpitar na escolha do filho, mas é comum observar que os pais não querem que seu filho saia da feira em desvantagem. Neste sentido, a feira é uma ótima experiência para ambos os lados, pois o valor do brinquedo não está no monetário, mas sim na potencialidade "brincante" do objeto. E isto a criança conhece muito bem e ensina o adulto.

EXPERIÊNCIA POSITIVA PARA ASULTOS E CRIANÇAS

Laís, que há três anos participa da organização da feira na Urca, vai além :

- O processo para que a feira aconteça é muito rico: ressignifica o que é "novo", estimula a socialização e o exercício de desapego, além de colocar em prática a economia solidária e o consumo colaborativo. As crianças amam, porque têm a oportunidade de escolher os brinquedos de acordo com sua vontade própria, longe dos apelos da publicidade. Elas amam trocar seus brinquedos com os amigos.

Neusa diz que a iniciativa tem tando sucesso que o Jardim Botânico já analisa a possibilidade de realizar uma outra feira no mês de dezembro.No site do Alana, é possível acompanhar a agenda das feiras que acontecem a partir desta quarta-feira, véspera do Dia das Crianças, em todo o Brasil. Aqui no Estado do Rio, já são cinco programadas. (confira aqui a agenda completa das feiras pelo país).

CONSUMO EXCESSIVO

Dados do Instituto Akatu apontam que temos uma população mundial de mais de sete bilhões de pessoas, que já consome 60% de recursos naturais a mais do que a Terra consegue regenerar. A estimativa é que cheguemos a 9,7 bilhões de habitantes no planeta até o ano de 2050. Globalmente a extração de matérias-primas aumentou de 22 bilhões de toneladas em 1970 para cerca de 70 bilhões em 2019. Uma parcela pequena da população mundial (16%) é responsável por 78% do consumo total. Se todos consumissem como os habitantes mais ricos do mundo, seriam necessários quase cinco planetas para suprir esse consumo. E, a cada ano, entram no mercado consumidor mais 150 milhões de pessoas - isto é, serão três bilhões de novos consumidores nos próximos 20 anos.