Fuga de traficantes por trilhas expõe insegurança da Floresta da Tijuca

Publicado em 08/10/2017 por O Globo

O Rio de janeiro visto de dentro da Floresta da Tijuca - Custódio Coimbra / Agência O Globo

RIO - Famosa por sua beleza de cartão-postal, a Floresta da Tijuca significa bem mais que turismo e lazer para o Rio. É questão de segurança pública. A recente fuga de bandidos da Rocinha pelo Horto, por uma trilha que chega à Vista Chinesa, evidenciou o que frequentadores sabem há anos e boa parte dos cariocas não vê: a floresta é usada por criminosos como caminho para várias comunidades. Ponto central do Rio, ela liga todas as regiões da cidade. A rota seguida por uma quadrilha chamou a atenção pela facilidade com que foi percorrida - o bando alcançou as zonas Norte e Sul. Há lugares na mata que se tornaram territórios proibidos, devido ao medo imposto por facções.

- Quando se diz que os bandidos fugiram pelo mato, soa para muita gente como se tivessem entrado num buraco negro. Não é verdade. Os caminhos são batidos. Os bandidos não inventaram nada, usam velhos trajetos. A floresta é o jardim do Rio, está dentro da cidade, bem no meio dela. Não existe qualquer outra área mais central do que a Floresta da Tijuca. Não se trata de uma Amazônia, mas de uma mata muito bem conhecida e que, por estar cercada por comunidades dominadas pelo tráfico, deveria ter policiamento ostensivo, e não apenas pontual - afirma Horácio Ragucci, um dos maiores conhecedores da região e guia do Centro Excursionista Brasileiro (CEB).

As trilhas do crime na Floresta da Tijuca

  • Lembrada pela beleza de cartão-postal, a Floresta da Tijuca significa bem mais do que turismo e lazer para o Rio de Janeiro. É questão de segurança públicaFoto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

  • A floresta é usada por criminosos como via expressa entre comunidadesFoto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

  • Ponto central do Rio, ela liga todas as regiões da cidade Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

  • A rota da Rocinha chamou a atenção pela facilidade com que foi percorrida para se chegar às zonas Norte e SulFoto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

  • Há lugares da floresta que se tornaram territórios proibidos devido ao medo da criminalidadeFoto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

  • Existem locais que são considerados territórios proibidos dentro do Parque Nacional da TijucaFoto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

  • O mais urbano dos cariocas pode nunca colocar os pés na Floresta da Tijuca. Mas o que acontece lá impacta a segurança deleFoto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

  • O chefe do Parque Nacional da Tijuca, Ernesto Viveiros de Castro, destaca que o policiamento da floresta não é necessário apenas para os frequentadores e visitantes. Mas para toda a cidadeFoto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

Há duas áreas consideradas extremamente perigosas dentro do Parque Nacional da Tijuca (PNT), que, com seus 39,6 quilômetros quadrados, abrange a maior parte da floresta. Elas ficam nas zonas Norte e Oeste.

A primeira, explica Ragucci, fica no trecho Covanca-Pretos Forros, entre Jacarepaguá e Grajaú. A outra é a região conhecida como Perdidos do Andaraí, que inclui a descida do Alto da Boa Vista pela mata até o Grajaú. Ela dá acesso a comunidades ligadas ao Complexo do Lins.

- Nessas áreas, é quase certo encontrar homens armados em qualquer dia ou horário. São matas em que os trilheiros e a maioria dos frequentadores não pisam. Ninguém vai ali, a não ser bandidos e incautos. Uma perda imensa para a cidade - observa Ragucci, uma das poucas pessoas que pode se orgulhar de já ter percorrido praticamente todas as trilhas da floresta.

Fundamental para a segurança

O mais urbano dos cariocas pode nunca pôr os pés na Floresta da Tijuca, mas o que acontece lá impacta a sua segurança. O chefe do Parque Nacional da Tijuca, Ernesto Viveiros de Castro, destaca que o policiamento das trilhas da floresta não é necessário apenas para os frequentadores e visitantes, mas para toda a cidade. Policiar só o asfalto não basta.

- Impedir que bandidos invadam a floresta é importante para a segurança do município, para todos que frequentam ou não o parque. A área é central, conecta todo o Rio. Se os bandidos não puderem transitar por ela, terão mais dificuldade para se deslocar, se esconder e ocultar armas - diz Viveiros de Castro.

Beleza não falta às áreas que a criminalidade transformou em territórios proibidos. Na Zona Norte, ipês às dezenas pintam de amarelo o verde das matas das encostas dos morros da Pedra do Conde, da Pedra da Caixa, dos Perdidos do Andaraí e do Felizardo, uma região contígua aos bairros do Grajaú, do Méier, da Usina e do Andaraí. Vista de cima, toda a exuberância da primavera na Mata Atlântica se revela. Debaixo da copa da árvores, é território de bandidos de comunidades como a Divinéia, que se liga com favelas do Complexo do Lins e do Andaraí.

- Esse trecho é perigosíssimo. Até bem pouco tempo, uma cruz com o símbolo do Comando Vermelho marcava uma das trilhas. O Morro do Felizardo, um dos mais críticos, oferece um panorama espetacular, pena que não possamos mais ir até lá - lamenta Ragucci.

O guia e voluntário da Trilha Transcarioca Jeremias Freitas é outro que não vai mais à região do Perdidos do Andaraí.

- Esse é um dos lugares em que não caminho mais. Não há segurança alguma, e o risco de encontrar com bandidos é enorme - afirma Freitas, que também conhece bem os caminhos da floresta e anda por lá todas as semanas.

Na Covanca-Pretos Forros, a situação não é melhor. A Trilha Transcarioca, por exemplo, foi desviada dessa mata, onde é mais provável encontrar homens armados do que não vê-los por lá. Nessa região, a floresta se fechou em vários pontos porque pouca gente se aventura em seus caminhos. A área compreende o entorno da Avenida Menezes-Cortes (Grajaú-Jacarepaguá) e da Estrada do Catonho.

Ficam lá a Floresta dos Pretos Forros, os vales do Olho D'Água e o dos Três Rios. A área de risco inclui ainda parte da Floresta de Santa Inês, uma das partes belas do parque. É lá que fica a Represa dos Ciganos, e assaltos não são raros, principalmente no verão.

- Ali é muito ermo e extremamente perigoso. Um dos pontos chaves para atrair bandidos é o Morro do Inácio Dias, num dos extremos da floresta, junto à Covanca, em Jacarepaguá. O morro está desmatado, mas o acesso pode ser feito pela floresta. A vista de 360 graus da cidade é fantástica. É estratégica para bandidos, que podem controlar acessos a comunidades vizinhas, em bairros como Jacaré, Cascadura, Praça Seca e Méier - alerta Ragucci.

Rota bem conhecida

Uma trilha bem conhecida por frequentadores da floresta, mas que só ganhou visibilidade nas últimas semanas, devido à fuga do bando de Rogério Avelino dos Santos, o Rogério 157, é a que liga o alto da Rocinha à Vista Chinesa e que oferece vias pela mata para o Horto, o Alto da Boa Vista, o Sumaré e o Complexo do Lins. Ela começa no Morro do Laboriaux, na parte alta da comunidade. Recentemente, esse trecho recebeu melhorias do PNT para que servir de atrativo e de potencial fonte de renda para moradores da região, já que a trilha passa por lugares de paisagens espetaculares, com vocação para o turismo.

Do Laboriaux à trilha - considerada relativamente fácil -, chega-se ao Ponto das Andorinhas. O caminho leva até o Morro do Cochrane, já na Gávea. A trilha desce um pouco e depois serpenteia pelas encostas da Floresta da Gávea Pequena. Ela termina em outra trilha, bem menor e até então frequentada por trilheiros, turistas e corredores. Essa liga a Vista Chinesa à Mesa do Imperador.

Bandidos pela mata
As trilhas da floresta também são usadas por criminosos
Morro dos
Prazeres
trem do
Corcovado
Morro do
Sumaré
Comunidade
do Cerro Corá
Alto da
Coroa
N
Paineiras
CRISTO
REDENTOR
Túnel
Rebouças
Morro do
Corcovado
2
Humaitá
Parque Lage
Cachoeira
do Horto
Estr. Dona
Castorina
Jardim
Botânico
Horto
LAGOA
RODRIGO
DE FREITAS
Mesa do
Imperador
Vista
Chinesa
Puc Rio
Gávea
Morro do
Laboriaux
Instituto
Moreira
Salles
IPANEMA
Leblon
1
Rocinha
Túnel
Zuzu Angel
São
Conrado
Vidigal
1
2
Trilhas do Parque Lage - Cristo Redentor
Rota Rocinha - Vista Chinesa -
Mesa do Imperador
Essa foi a rota apontada como usada pelos bandidos do grupo de Rogério 157 para escapar da Rocinha e chegar ao Horto e a comunidade da Usina e do Lins. O caminho começa no alto do Morro do Laboriaux, por onde se vai até a parte alta da Rocinha, e, depois, ao Ponto das Andorinhas e ao Morro do Cochrane. A trilha desce um pouco e, depois, sobe pelas encostas da Floresta da Gávea Pequena. No alto da mata, há uma menor, ligando a Vista Chinesa à Mesa do Imperador.
Na primeira metade do ano, registrou assaltos praticamente diários. É muito procurada por turistas. Os pontos mais críticos são o trecho das correntes, onde é preciso andar com mais cuidado sobre pedras. E, principalmente, o trecho que cruza a linha de ferro do trem do Corcovado. Dali, os bandidos alcançam com facilidade a comunidade do Cerro Corá.
Custodio Coimbra
Custodio Coimbra
Morro do Cochrane
Mata do Morro do Cochrane, próximo a Rocinha, por onde os bandidos teriam fugido durante o confronto da semana passada
Floresta da Tijuca
Jeramias Freitas (camisa branca) e Horácio Ragucci (boné preto) caminham por uma trilha na Floresta da Tijuca
Bandidos pela mata
As trilhas da floresta também são usadas por criminosos
N
Cachoeira
do Horto
Estr. Dona
Castorina
Horto
Mesa do
Imperador
Vista
Chinesa
Puc Rio
Morro do
Laboriaux
Instituto
Moreira
Salles
1
Rocinha
Túnel
Zuzu Angel
São
Conrado
Vidigal
1
Rota Rocinha - Vista Chinesa -
Mesa do Imperador
Essa foi a rota apontada como usada pelos bandidos do grupo de Rogério 157 para escapar da Rocinha e chegar ao Horto e a comunidade da Usina e do Lins. O caminho começa no alto do Morro do Laboriaux, por onde se vai até a parte alta da Rocinha, e, depois, ao Ponto das Andorinhas e ao Morro do Cochrane. A trilha desce um pouco e, depois, sobe pelas encostas da Floresta da Gávea Pequena. No alto da mata, há uma menor, ligando a Vista Chinesa à Mesa do Imperador.
Morro dos
Prazeres
trem do
Corcovado
Morro do
Sumaré
Comunidade
do Cerro Corá
Alto da
Coroa
Paineiras
CRISTO
REDENTOR
Morro do
Corcovado
Túnel
Rebouças
2
Humaitá
Parque Lage
LAGOA
RODRIGO
DE FREITAS
Jardim
Botânico
2
Trilhas do Parque Lage - Cristo Redentor
Na primeira metade do ano, registrou assaltos praticamente diários. É muito procurada por turistas. Os pontos mais críticos são o trecho das correntes, onde é preciso andar com mais cuidado sobre pedras. E, principalmente, o trecho que cruza a linha de ferro do trem do Corcovado. Dali, os bandidos alcançam com facilidade a comunidade do Cerro Corá.
Custodio Coimbra
Morro do Cochrane
Mata do Morro do Cochrane, próximo a Rocinha, por onde os bandidos teriam fugido durante o confronto da semana passada
Custodio Coimbra
Floresta da Tijuca
Jeramias Freitas (camisa branca) e Horácio Ragucci (boné preto) caminham por uma trilha na Floresta da Tijuca

Até o Horto, o caminho é fácil. Basta descer a trilha sinalizada em direção à Vista Chinesa. O trajeto termina numa escada. Daí, são menos de cem metros até a trilha do Solar da Imperatriz (igualmente sinalizada), frequentada por mountain bikers e corredores. Essa trilha de cerca de dois quilômetros chega ao Solar, que pertence à Fundação Jardim Botânico. Dali, são poucos metros até o asfalto da Rua Pacheco Leão.

Necessidade de policiais treinados

Para alcançar a Zona Norte pelo mesmo caminho do Cochrane, é só pegar a trilha Vista-Mesa do Imperador no sentido desta última. O caminho termina numa pracinha quase em frente ao ponto turístico, onde, nos fins de semana, acontecem piqueniques. Basta atravessar a estrada da Vista Chinesa e subir pela escadaria da Mesa, que termina na trilha do Morro do Queimado. Essa dá acesso a uma das paisagens mais belas da cidade e também à Estrada do Redentor. Descendo a estrada, a partir da trilha, chega-se ao Alto da Boa Vista e, pelo mato, ao Andaraí e, daí, à Usina ou ao Lins. Se a opção for subir, chega-se ao Sumaré, por onde é possível alcançar o Rio Comprido. Ou às Paineiras, via Cosme Velho, ou Santa Teresa, até o Centro. Tudo interligado.

- A fuga pela mata não causa surpresa. Era o esperado que fizessem. De certa forma, esse caso evidenciou uma questão antiga da cidade, que não recebia a devida atenção. A floresta necessita de policiamento com homens treinados e equipados para operações em trilhas. Os policiais precisam conhecer bem a área, porque os bandidos se sentem em casa. É inadmissível que um lugar tão fundamental para o Rio seja invadido. Ninguém pode se conformar com uma coisa dessas, que o crime domine um patrimônio da sociedade. É uma perda para a cidade em turismo, segurança e liberdade - afirma o coronel reformado da Polícia Militar Eduardo de Oliveira, integrante da Câmara Técnica de Segurança do Mosaico Carioca e coordenador de segurança da Trilha Transcarioca.

Ele destaca que, para obter segurança no asfalto, é preciso policiar as trilhas ostensivamente, e não apenas durante operações pontuais.

- Policiar só o asfalto não adianta porque os bandidos vão para a mata. O Rio precisa de uma unidade de policiamento voltada para isso, com amplo conhecimento sobre a Floresta da Tijuca - frisa Oliveira.

Tanto ele quanto os frequentadores e o chefe do PNT estão convencidos de que a implantação no parque de uma Unidade de Policiamento Ambiental (Upam), especializada em ações na mata, é um passo fundamental para aumentar a segurança.

- É essencial ter uma unidade de polícia especializada, capaz de identificar áreas mais vulneráveis e fazer incursões rápidas. A floresta está inserida bem no meio da cidade, precisa ser vista desta forma. Não é apenas turística, é de todos. Quando ela está vulnerável, toda a cidade sofre - diz Viveiros de Castro.

Uma casa pertencente ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea), na Estrada da Vista Chinesa, é considerada o lugar ideal para abrigar uma Upam devido à facilidade de acesso a toda a floresta e a suas trilhas. Segundo Viveiros de Castro, o Inea mostrou disposição em ceder o imóvel para instalar a unidade.

PM apoia instalação de unidade especial

Outra medida é melhorar a comunicação entre os cinco batalhões que cobrem a área. O diretor da Comissão de Segurança no Ciclismo do Rio de Janeiro, Raphael Pazos, concorda. A comissão promoveu uma reunião com entidades ligadas à floresta, a polícia e o ICMBio.

- Até hoje não temos uma polícia própria para essa região tão fundamental. Hoje, não há mais dúvida de que isso é uma urgência. Tanto para combater a grave crise de segurança quanto para que possamos integrar áreas. Se ficassem livres de bandidos, elas poderiam render emprego e renda por meio do turismo, por exemplo, além de servir de lazer para os cariocas. A segurança também ajuda a conter a degradação ambiental. A sociedade precisa acordar e se mobilizar - salienta Pazos.

Segundo ele, a PM se mostrou disposta a instalar uma Upam na floresta. O chefe do Comando de Policiamento Ambiental (Cepam), coronel Mário Marcio Fernades, diz que a corporação considera viável a implantação de uma unidade de policiamento dentro do Parque Nacional da Tijuca:

- Temos hoje oito Upams no estado. Nossa principal função é coibir crimes ambientais, como caça e desmatamento. Mas nada impede que possamos fazer uma parceria com o Inea e colaborar com os demais batalhões para a segurança da floresta. Temos tido reuniões com entidades representativas da sociedade, o ICMBio e a prefeitura para discutir isso, e tem havido avanços. Infelizmente, as reuniões foram interrompidas com a crise na Rocinha, mas esperamos poder retomar as conversas em breve.

Fernandes lembra que problemas de ordenação urbana ajudam a agravar a insegurança na área verde:

- A floresta tem sofrido com o crescimento urbano desordenado. A segurança passa também pelo controle das comunidades que invadem a mata.

O coronel diz que o Cepam tem feito incursões regulares em trilhas mais visadas para assaltos. Entre elas, está a do Parque Lage-Corcovado, que, no início do ano, teve casos de violência quase diários. Também têm sido alvo de operações as trilhas da Pedra da Gávea, da Cova da Onça e do Excelsior. Essas duas últimas servem de comunicação com as comunidades do Borel e dos Macacos.

- Todas essas trilhas são vulneráveis e tiveram assaltos. No Corcovado e na Cova da Onça, eu evito caminhar - frisa Freitas, que ajudou a instalar as placas de alerta para risco de assalto na trilha do Parque Lage.

Durante a semana passada, a PM manteve viaturas na Vista Chinesa, na Mesa do Imperador e nos acessos ao Horto. Aos poucos, visitantes e frequentadores começam a voltar.