Gastos com Previdência são completamente fora de proporção

Publicado em 05/12/2017 por O Globo

Moritz Kraemer, da S&P - Fernando Lemos / Agência O Globo

RIO - O chefe global para ratings soberanos da S&P Global Ratings, Moritz Kraemer, afirmou ao GLOBO que o Brasil, dada sua demografia, enfrentará nas próximas décadas o crescimento mais rápido do mundo em gastos fixos como Previdência e saúde. De acordo com ele, a janela de aprovação da reforma da Previdência está se fechando, o que pode representar um gatilho de rebaixamento do rating - cuja perspectiva já é negativa para a agência.

Como a S&P está vendo o processo de saída da crise do Brasil?

Esperamos que o Brasil acelere seu crescimento no próximo ano, para algo perto de 2%. É uma recuperação de um longo período de baixo crescimento. Desde o começo da década, em 2010, até este ano, o PIB per capita praticamente estagnou, crescendo 0,4% (em média) por ano. Os investimentos seriam um bom lugar para começar.

O sr. fez uma apresentação dizendo que o Brasil tem um retorno menor dos investimentos do que outros países. Por que?

Os emergentes tem ou um investimento mais baixo e a mesma taxa de crescimento ou crescem mais com o mesmo investimento do Brasil. Uma das razões pode ser que a distribuição de investimentos se dá de maneira desigual. A criação da Taxa de Longo Prazo trata disso. Outro elemento tem a ver com o setor público. A Lava-Jato mostra questões relacionadas com o direcionamento do investimento público. Estou cautelosamente otimista com a possibilidade de essa grande onda de revelações mudar a forma como negócios são feitos no Brasil, porque a impunidade já não é uma opção.

O que levaria a um novo rebaixamento do Brasil?

A perspectiva negativa significa que há pelo menos uma em três chances de redução dos ratings nos próximos seis meses. Esse prazo tem a ver com o que consideramos ser o fechamento de uma janela de oportunidade para que a reforma passe no Congresso, dado o calendário eleitoral que vai dominar o debate. Acreditamos que, em 2018, será cada vez mais difícil aprovar qualquer medida controversa no Congresso. Logo, o maior gatilho para um rebaixamento seria a reavaliação da capacidade das instituições políticas de implementar medidas que seriam necessárias para garantir a sustentabilidade das finanças públicas.

Uma reforma agora resolveria?

Esse seria apenas um passo de muitos, porque o desequilíbrio no sistema previdenciário é tão grande que é um desafio multianual, multigovernos.

Por que o sr. afirmou que o Brasil é um dos países com maior risco de crescimento de despesas?

O gasto com o que chamamos de itens relacionados ao envelhecimento da população, que inclui saúde, Previdência e cuidados de longo prazo, vai crescer no Brasil mais rapidamente do que em qualquer outro lugar no mundo até 2050 (em um slide, ele mostra que o incremento seria de 65% do PIB, contra 28% da média do G-20, excluindo o Brasil). O que o Brasil gasta com Previdência é completamente fora de proporção.

Não seria mais viável deixar a reforma para um próximo governo, no qual a sociedade enxergue maior legitimidade?

Depende. Não é isso ou aquilo. O próximo governo também terá que lidar com isso de qualquer jeito. Obviamente, seria mais fácil para um governo que faz campanha a partir disso conseguir uma maioria e aprová-la com grande legitimidade. Mas isso é um conto de fadas que não vai acontecer. Se você diz que quer fazer essa reforma provavelmente não será eleito. Não é um argumento válido dizer que se pode deixar de fazê-la agora e deixar para um próximo governo.

Quais riscos as eleições do ano que vem podem representar para a nota soberana do Brasil?

Se houver retrocesso nas reformas, seria ruim para o rating. Não temos favoritos. Estamos interessados em resultados. Mas se um outsider vencesse as eleições, seria mais difícil conseguir a maioria para aprovar as reformas. Mas isso não quer dizer que tomaríamos uma ação de rating após as eleições nesse caso. Queremos ver as ações dos governo.