Grandes empresas aderem à autoprodução de energia

Publicado em 13/02/2018 por Folha de S. Paulo Online

Torres de energia eólica dispostas lado a lado no município de Araripina (PI)
Um dos motivos para maior interesse em geração distribuída é a queda dos preços de instalação de energias renováveis - Zanone Fraissat/Folhapress

Representantes dos setores de geração eólica e solar afirmam que grandes companhias intensificaram suas pesquisas para ter a sua própria produção.

Elas têm projetos para instalar energia distribuída ou seja, gerar parte do que gastam e descontar esses valores das contas de luz.

Clientes com alto consumo podem fazer contratos com fornecedores específicos no mercado livre e se proteger de eventuais altas de tarifas.

Por que, então, as companhias se interessam em ter suas próprias usinas?

"Um motivo é acoplar à imagem delas uma ideia de sustentabilidade", diz Elbia Gannoum, presidente-executiva da Abeeólica (associação do setor eólico).

Os valores de instalação das renováveis têm caído, afirma, o que incentiva as empresas a terem seus projetos.

Essa tendência também é citada por Rodrigo Sauaia, presidente da Absolar.

"Nós fomos procurados por cadeias de supermercado, shopping centers e companhias de agronegócio, principalmente as produtoras de proteína animal."


Oi vai investir pelo menos R$ 330 milhões em energia solar

A Oi está em busca de áreas no norte de Minas Gerais para instalar suas primeiras usinas de energia solar. A meta é que elas entrem em operação em novembro deste ano.

A empresa de telefonia pretende instalar 22 usinas de geração de energia nos próximos três anos, segundo Marco Antonio Vilela, diretor de patrimônio e energia.

O valor de investimento de cada uma varia entre R$ 15 milhões e R$ 18 milhões, diz. Serão parques das matrizes solar, eólica e PCHs (pequenas hidrelétricas).

"As antenas têm consumo semelhante ao de residências, e a geração distribuída é para abater o gasto delas."

As despesas com conta de luz não são o único motivo que motiva a Oi a investir, afirma Vilela.

"A questão da sustentabilidade também é importante, e, por último, ficaremos menos expostos a eventuais problemas de fornecimento ou preços de energia."

A empresa só vai instalar usinas onde a questão do ICMS estiver pacificada: em alguns Estados do país, o cliente paga o imposto com base no consumo, e não importa se ele mesmo gerou parte da energia.

A FORÇA DO VENTO

Setor de energia eólica no Brasil

508 são as usinas

12,45 GW é a capacidade instalada, 7,5% do total no país

4,69 GW estão em construção

500 GW é o potencial do país

18,8% foi o crescimento da fonte eólica em 2017

2,02 GW foram instalados ano passado

Fontes: Abeeólica e Aneel


Sete anos para o equilíbrio

A Honda abastece sua fábrica de Sumaré (SP) e sua sede administrativa com a energia que ela mesma gera em um parque eólico em Xangri-lá (RS) desde 2015.

A montadora de origem japonesa investiu R$ 100 milhões na construção.

Foi um aporte em decorrência de uma determinação da sede, que, em 2011, estabeleceu meta de redução de 30% das emissões de gás carbônico das operação das unidades espalhadas pelo globo.

"Não era o nosso escopo, mas foi possível economizar cerca de 20% do custo da energia", afirma Carlos Eigi, presidente da Honda Energy.

Pelos estudos, o investimento deverá atingir o "break even" em 2022, quando se completarão sete anos da inauguração da operação.

A empresa escapou de parte das altas de preços decorrentes da falta de chuvas, que elevou o valor do preço de liquidação de diferenças, o parâmetro para definição de valores dos grandes contratos de fornecimento.

Antes de ter seu próprio parque eólico, a Honda comprava energia de uma comercializadora no mercado livre.

30 MW
de capacidade instalada é o potencial do parque


Bateria recarregada

A Claro foi a primeira empresa de telefonia a construir sua própria rede de geração de energia, segundo o diretor de suporte financeiro, João Pedro Neves.

Ela prevê inaugurar vinte parques solares apenas em 2018, e também planeja gerar energia eólica, de biomassa e a partir de PCHs (pequenas hidrelétricas).

A meta é atingir 600 mil MW/h por ano, ou cerca de 80% da energia consumida.

A empresa também está no mercado livre, em que compra energia de comercializadores, mas uma parcela de seu consumo não se enquadra nessa modalidade.

"Parte das unidades da empresa são imóveis com conexão de baixa tensão, que só podem ser clientes tarifados", afirma Neves.

É necessário pulverizar os centros de geração pelo país, de acordo com as áreas de concessão de cada distribuidora.

Cada investimento se paga em um período de cinco a sete anos, calcula ele.

"A rede tem de funcionar o tempo todo, não podemos correr o risco de ficar sem energia. Essa é uma forma de termos mais previsibilidade", diz Neves.


Solar para o varejo eletrônico

O Mercado Livre, empresa de comércio eletrônico, construiu uma sede nova em Osasco (SP) em 2017 e instalou painéis de energia solar.

O valor dos equipamentos de geração não é divulgado foram gastos R$ 105 milhões no prédio inteiro.

A economia na conta de energia tem sido da ordem de 48% ao mês, mas a empresa afirma que esse percentual deverá aumentar.

A companhia pretende colocar painéis também em seus centros de distribuição e em mais escritórios, tanto no Brasil como nos outros países onde atuam.


com FELIPE GUTIERREZ, IGOR UTSUMI e IVAN MARTÍNEZ-VARGAS