Jack Holmer, artista: "Vivemos um tempo de memória ampliada"

Publicado em 08/02/2018 por O Globo

"Trabalho com poéticas tecnológicas, vida artificial e robótica. Tenho graduação em Licenciatura em Desenho pela Escola de Música e Belas Artes e sou mestre em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti, ambas do Paraná."

Conte algo que não sei.

Existe uma evolução natural a caminho da inteligência artificial. O final disso seria uma substituição das formas de vida. Partiríamos do biológico para o pós-biológico, feito talvez de ferro ou silício. Os índios e os negros não eram considerados humanos, não tinham direitos humanos. A natureza teve essa fase também. Podia-se destruir uma floresta, matar animais, mas hoje eles têm direito à existência. Agora, estamos na fase dos objetos ganharem o direito de existirem. Vários robôs estão sendo construídos, como a Sophia, a robô humanoide desenvolvida em Hong Kong, capaz de reproduzir expressões faciais, que ganhou cidadania.

O que fez você juntar arte e tecnologia?

Eu cresci nos anos 1980,época em que houve um revolução na área de brinquedos. O carro passou a ser avião, foguete, e eu me encantei. Eu pensava em ser piloto ou construir um espaçonave, mas só tenho habilidades estéticas. Então, eu me interessei pelo virtual. Lá, eu posso pegar dois objetos e colocar num mesmo espaço. No espaço virtual não existem as leis básicas da física e da gravidade. Tudo funciona.

Você acha que a gravidade é um tipo de prisão?

Sim. A gravidade é a pior coisa possível, porque nos prende ao chão. Minha montagem "Manifesto Contra Gravidade" desafia essa lei da física imbatível, que nos prende aqui. Essas leis influenciam nosso cotidiano, e a gente nem percebe, elas já estão embutidas no nosso dia a dia como o simples gesto de colocar água num copo.

Vai chegar um momento em que vai ser impossível fazer arte sem recursos tecnológicos?

Acredito que problemas contemporâneos só podem ser expressos com as tecnologias contemporâneas. O que eu tento construir só é possível com tecnologia, mas as técnicas primárias não vão sumir. Gravura, pintura, desenho sempre vão existir. Eu posso usar desenho num GIF, por exemplo, e fazer algo mais contemporâneo. Eu acredito que seja algo acumulativo.

Como é o ambiente de arte contemporânea no Brasil para artistas como você?

Eu já expus minhas montagens nos Estados Unidos e em Israel. Eu fico feliz por estar no meu país, mas comparo a outros lugares: aqui é tudo muito difícil e cansativo, por conta da burocracia. Não tem um ritmo bom, tranquilo, e isso atrapalha o meu ânimo. Lá fora, eu também sinto que as pessoas acham mais interessante um artista que trabalhe com tecnologia.

A tecnologia tem relação com memória?

Muito do que lembramos da nossa infância está ligado ao que está registrado em fotos. Criamos um imaginário, uma relação com as fotos. Olhamos uma foto e lembramos daquele momento. Se meu pai juntar e digitalizar todas as fotos de infância dele, analógicas e pequenas, deve dar um Megabyte. Eu devo ter um Giga de fotos. Já a minha sobrinha, que é criança, deve ter Tera, porque todos os dias alguém faz fotos e vídeos dela. A minha sobrinha vai poder ver toda a infância dela em HD, e isso se relaciona com a própria história dela e com as outros. Não é só tecnologia externa, mas relação de memória. Atualmente, vivemos um tempo de memória ampliada.

E você acha isso positivo?

Existe uma romantização do passado, "no tempo da minha vó que era bom". Era bom uma criança morrer de diarreia? Graças à tecnologia, a gente ganhou vários benefícios. Temos que aceitar isso. A gente não consegue mais sair sem o celular, dormir sem ele. Precisamos aceitar logo que não conseguimos viver sem tecnologia e seguir em frente. Já está feito.