Juan Carlos Picasso, terapeuta cognitivo comportamental: "O que dá paz e ordem ao cérebro é o amor"

Publicado em 30/11/2017 por O Globo

"Nasci e cresci em Buenos Aires, na Argentina. Aos 20 anos, descobri minha paixão pelo contato com o ser humano e pelo desejo de ajudá-lo com suas necessidades. Procurei me formar dentro e fora do meu país fazendo especializações em terapia de casal e família e terapia cognitiva comportamental".

Conte algo que não sei.

O cérebro não apaga as coisas que viveu. A única coisa que o cérebro pode fazer é dar a elas outro significado. Você pode até esquecer por um tempo, mas quando há situações que te recordam o que aconteceu, e se esta circunstância não está superada, você volta a vivê-la como se estivesse acontecendo naquele exato momento.

Como funciona a terapia cognitiva comportamental?

A tríade do modelo cognitivo diz que o cérebro humano funciona a partir dos pensamentos, das emoções e da ação. A terapia cognitiva comportamental trata de identificar as tendências e valores equivocados e, fundamentalmente, os preconceitos. E a mente humana usa, mais do que valores e crenças, os preconceitos. Então, dentro dos processos cognitivos tratamos de avaliar estes pensamentos e imagens, identificar quais são as crenças que sustentam estes pensamentos e imagens, e quais crenças vêm da história pessoal do indivíduo. Para modificar estes processos e poder sustentar as condutas a partir de novas crenças, é preciso renovar valores. É neste campo que trabalho.

Preconceitos podem exercer algum tipo de influência positiva?

Não conheço preconceitos que façam bem. Os preconceitos são o que mais nos faz mal. Às vezes, os preconceitos são uma forma de defesa. Quanto tenho um preconceito, coloco um rótulo no outro. Meu ego fica tranquilo porque já disse "o outro é essa coisa". O mais difícil que há é mudar um preconceito. O preconceito é uma verdade absoluta mentirosa. Mas como dá segurança ao ego, segue-se usando.

Quais são os fatores mais comuns que levam ao estresse?

O estresse, em termos de normalidade, é um sinal vital. Os únicos que não têm são os mortos ou pessoas que estão tão deprimidas que já não respondem a nenhum estímulo. Vira negativo quando há excessos. São situações crônicas, constantemente associadas a questões que geram desequilíbrio. Se você tem um problema no trabalho, por exemplo, por mais de três meses, então estamos falando de estresse crônico. Problemas afetivos sem resolução e problemas no trabalho são geralmente os fatores mais frequentes na sociedade que vivemos.

Quais são os efeitos de uma sociedade violenta sobre um indivíduo?

Viver em um meio ambiente contaminado, como podem ser as grande cidades, pode causar transtornos de sono e de ansiedade generalizada, fobias, quadros de pânico, e, lógico, um estado de hiper alerta constante. Este estado de hiper alerta pode produzir irritabilidade, agressividade, transtornos de conduta alimentar, consumo excessivo de tabaco e bebidas cafeinadas. Logicamente, pode-se passar depois às drogas ilegais, que são consumidas porque a pessoa não está em paz emocionalmente.

O que aprendeu com clientes famosos, como Maradona e a família Kirchner?

Todos os seres humanos necessitamos que nos amem, que nos aceitem e que nos valorizem. Todos. Atrás de todo o excesso, de trabalho, de amor, de dinheiro, de poder, de prestígio, de fama... atrás de cada excesso, há uma carência, alguma coisa que faltou. O único elemento que dá paz e ordem a seu cérebro é o amor. É impossível não estar feliz se houver amor de boa qualidade.