Masp deve ser o próximo alvo da onda de puritanismo antiarte

Publicado em 11/10/2017 por Folha de S. Paulo Online

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Mais do que as 70 obras ali, as três que não estavam chamavam mais a atenção numa das aberturas mais aguardadas desta temporada de outono das artes em Nova York.

No miolo da rotunda que Frank Lloyd Wright criou para abrigar o Guggenheim, convidados olhavam perplexos na semana passada para a gaiola vazia onde deviam estar os répteis e insetos de Huang Yong Ping na maior exposição já dedicada à arte contemporânea chinesa na história dos Estados Unidos.

Um pouco mais adiante no caracol de concreto do museu, estariam um vídeo de Xu Bing, de dois porcos em cópula, e -mais problemático de todos- outro filme da dupla Sun Yuan e Peng Yu, em que oito cachorros bravos correm amarrados sobre esteiras, impedidos de se atacar.

Um abaixo-assinado com mais de 750 mil adesões pediu a remoção das peças. O Guggenheim disse não, depois cedeu, alegando ter sofrido ameaças que não quis detalhar. À boca pequena, corre o boato que curadores do museu teriam sido ameaçados de morte, e, no clima apocalíptico das guerras culturais no país, todos acharam melhor não forçar a barra.

O prejuízo, no entanto, foi colossal. Críticos, artistas e curadores caíram matando nas redes sociais. Um influente articulista resumia a colegas no vernissage que retirar uma obra já anunciada de uma mostra tem o mesmo efeito que fazer um aborto -uma vez grávida, na opinião dele, é melhor ter o bebê.

Mas esses são tempos distintos, tempos de tuítes raivosos do presidente da maior potência do planeta, tempos em que performances viram atos de apoio à pedofilia aos olhos do raciocínio perigoso de uma direita em ascensão.

Desde que o Santander Cultural, em Porto Alegre, interditou no mês passado uma mostra atacada nas redes sociais porque, na visão de seus detratores, promovia a zoofilia e a erotização de crianças, a tempestade só engrossou.

Logo depois, uma performance na abertura do Panorama da Arte Brasileira, em que um bailarino oferecia o corpo nu ao toque dos espectadores, no Museu de Arte Moderna paulistano, detonou até agressões a funcionários e ao público da instituição.

Relembre polêmicas nas artes cênicas e visuais

Enquanto isso, em Paris, o Louvre suspendeu a montagem de uma escultura do holandês Joep van Lieshout nos jardins em frente ao maior museu do mundo porque a obra parecia um homem penetrando um quadrúpede.

Seria um comentário, não importa se bem ou mal executado, sobre como seres humanos subjugaram o planeta e o meio ambiente. O episódio, aliás, traz à memória o ataque de vândalos a uma obra do americano Paul McCarthy, também na capital francesa, que parecia tanto uma árvore de Natal quanto um brinquedo erótico anal.

É como se na total ausência de assuntos mais urgentes no horizonte -a iminência de uma guerra nuclear com a Coreia do Norte, a crise dos refugiados, as catástrofes climáticas que se avolumam-, o mundo de repente se tornasse um reduto de puritanismo avesso às artes.

Na semana que vem, o Masp se prepara para entrar -sem querer- no olho desse furacão. "Histórias da Sexualidade", uma mostra que vem sendo preparada há anos, entra em cartaz com um apanhado de obras que podem chocar os mais sensíveis.

Lá estará a mesma tela de Adriana Varejão que militantes do Movimento Brasil Livre chamaram de apologia da zoofilia -nunca viram Bosch-, uma fotografia de Wolfgang Tillmans de dois rapazes -vestidos- de mãos dadas e outros trabalhos com alguma nudez masculina.

O clima é tenso nos bastidores do museu da avenida Paulista, acostumado a ver de camarote os protestos raivosos cruzando seu vão-livre.

Diretores, curadores e responsáveis pela imagem do Masp temem que o vazamento de informações antes da abertura leve à censura de uma exposição que coroa uma série de outras voltadas à discussão sobre a representação do sexo na arte, todas elas até agora sem despertar ataques de nenhum grupo.

Nenhuma obra foi descartada da seleção até agora, por mais que tenha acendido a luz amarela na alta cúpula do museu. Mesmo assim, a estratégia de nada revelar sobre o que vem por aí e a tentativa um tanto esdrúxula de controlar tudo que pode ser dito sobre a mostra por seus organizadores pintam o quadro de um triste estado de pânico que assola até o museu mais importante da nação.