MoMA expõe obras de Tarsila do Amaral nos anos 1920, como A Negra

Publicado em 08/02/2018 por Folha de S. Paulo Online

Ela quase transborda do quadro, os dedos dos pés e o alto da cabeça roçando os limites da pintura. O seio enorme, que pende sobre os braços cruzados, e os lábios carnudos fazem dessa figura despida uma mulher superlativa, com ar de fera enjaulada ou mucama violentada.


Tarsila do Amaral pintou "A Negra" há quase um século, em Paris, num momento em que os modernistas ali ousavam deformar o retrato da realidade buscando seus modelos na chamada arte primitiva das máscaras africanas.

Mas essa figura meio animalesca, de traços superexagerados, nunca foi uma abstração. O retrato real de uma escrava da velha fazenda da família da artista no interior paulista serviu de base visual para essa tela que agora encara uma plateia novíssima.

No segundo andar do MoMA, em Nova York, sua ama de leite diante de uma folha de bananeira é o abre-alas de uma das mostras mais aguardadas na onda de revisão do repertório moderno de uma instituição que tenta esquadrinhar os limites dessa vanguarda desde que apareceu.

E Tarsila em Manhattan, na primeira mostra da artista nos Estados Unidos, responde pela vertente mais exuberante de uma narrativa esgarçada da modernidade.

O estranho poder de fogo de sua pintura se revela de uma tacada só nas duas galerias dessa mostra ao mesmo tempo enxuta e potente --de um canto, é possível observar "A Negra", "Abaporu" e "Antropofagia" em série, os três trabalhos quase nunca reunidos que viraram os alicerces da iconografia brasileira construída pela artista.

Também estão lá algumas de suas paisagens mais surreais e desconcertantes, como "Sol Poente", "Floresta" e "Cartão-Postal", todos delírios visuais da mesma década de 1920 em que árvores e flores ganham contornos roliços em degradês tecnicolor.

Luis Pérez-Oramas, o crítico venezuelano que organiza essa exposição seis anos depois de comandar uma edição marcante da Bienal de São Paulo, comenta que Tarsila, morta aos 86, em 1973, passou a vida arquitetando contrastes entre "a carne da natureza e a carne humana".

Era, no caso, a carne ainda indigesta de "A Negra" e do "Abaporu", a escrava e o canibal que aparecem juntos em "Antropofagia", espécie de apoteose de uma série que retrata o entrelaçamento de instintos feéricos e ilustrados.

MENTE E CORPO


Tarsila, que estudou em Paris com Fernand Léger e ainda viu de perto o auge do cubismo e do surrealismo, nesse ponto parecia romper com a crença dos europeus numa separação estanque entre mente e corpo, o que fez de sua obra a maior tradução visual do pensamento do marido Oswald de Andrade e seu "Manifesto Antropófago".

Mesmo selvagens na superfície, os quadros de Tarsila não negam uma matriz europeia. Bem à moda antropofágica, figuras como o "Abaporu", espécie de porta-estandarte da filosofia oswaldiana, reinventam o repertório gestual de telas clássicas.

Seu homem nu de pernas descomunais descansa a cabeça sobre o punho no mesmo gesto de abandono, preguiça e tristeza de "Melancolia", autorretrato do alemão Albrecht Dürer do século 16, e da jovem nua no centro de "Almoço na Relva", a obra-prima de Manet, do século 19.

Nem mesmo a aparente volúpia abrutalhada de "A Negra" escapa a essas raízes.

Na visão de Stephanie dAlessandro, também à frente da exposição, o retrato da mucama, capaz de ofender a sensibilidade aflorada dos americanos em tempos de debate racial acirrado, canaliza a pose dos banhistas lânguidos e erotizados de Cézanne.

Retrato de Tarsila do Amaral (mostra do MoMA)
A artista, em fotografia de meados da década de 1920 - Divulgação

Mas, se Tarsila foi uma espécie de herdeira intranquila e rebelde da tradição europeia, ela também foi o ponto de partida para a outra ponta da modernidade brasileira, que ganhou corpo umas quatro décadas depois do auge de sua fase antropofágica.

"Ela foi a mãe da arte moderna no Brasil", diz a curadora. "É a artista que todos foram investigar mais tarde porque descobriu uma nova linguagem que vai além de um meio-termo entre a arte da Europa e visões do Brasil."

Os contornos e as cores resplandecentes de suas pinturas mais carnavalescas, de corpos transbordantes e paisagens quase lisérgicas, de fato ressurgem nos trabalhos de neoconcretistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark, outros dois brasileiros alvos de mostras recentes no MoMA, e na tropicália de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mutantes.

"Seus quadros falam de uma realidade que transborda dos limites da representação", afirma Pérez-Oramas.

"Tarsila misturou arte moderna com aquilo que a burguesia brasileira de sua época achava desprezível. E isso começou com A Negra. No centro da modernidade brasileira, há um sujeito subordinado, que é negro e mulher. Ela seria a mãe de todos nós."