Na Amazônia, Projeto Fitzcarraldo leva o cinema aos ribeirinhos

Publicado em 08/10/2017 por Carta Capital

Vocês, ali, nas grandes cidades, sofreram até um ponto pelo desaparecimento do governo Lula. Mas aqui, no Arapiuns, neste mundo remoto, afastado de tudo, fomos esquecidos de novo." Essas palavras são do "Prefeito", como é chamado um caboclo idoso de Cachoeira do Aruã, a dois dias de gaiola (típico barco amazônico de madeira com redes) desde Santarém (PA).

De prefeito não tem nada, mas é respeitado por toda a comunidade, desbaratada pela prepotência dos madeireiros e pelas recentes consequências nefastas de uma estrada de chão que a liga às minas de Juruti e ao Rio Amazonas.

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O Gaia singra o Rio Arapiuns, depois de deixar o Tapajós; abaixo, o "rio-mar", que chega a ter 30 quilômetros de largura. E a noite de cinema em Jamaraquá, parte da reserva florestal inspecionada pelo ICMbio (Foto: Oliviero Fluviano)

Chegamos com o Gaia nesse inferno-paraíso quase ao final dos 15 dias em que levamos o cinema ao povo ribeirinho desse rio encantado, que desemboca no Tapajós, com suas águas transparentes e suas praias caribenhas. As corredeiras põem fim ao Arapiuns navegável.

Duas ou três voltas antes de chegar a Cachoeira do Aruã, o rio tem as margens totalmente destruídas por três madeireiras de Belém: botaram abaixo toda a floresta virgem! Duas grandes balsas cheias de troncos enormes estavam ancoradas um quilômetro antes da vila. Onde antes, me lembro, se viam maravilhosos ipês-amarelos floridos, agora só existia um mar de lama. Uma desgraça!

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Iniciamos confiantes o Projeto Fitzcarraldo, apoiado pela Bauducco e pela Lei Rouanet, na comunidade de Vila Anã. De Alter do Chão aportamos no primeiro vilarejo do Arapiuns, depois de quatro horas de travessia do Tapajós (que, naquele ponto, mede 30 quilômetros de largura) e após uma piracaia (peixe grelhado na areia) de tambaqui e filhote, na fabulosa Praia de Icuxi. A areia muito clara e porosa emite um sonido agudo se esfregada com os pés.

Uma equipe da tevê chinesa, que esteve conosco na primeira semana da viagem, soltou um drone que seguia o Gaia, ora de perto, ora a 500 metros de altura, obtendo filmagens fantásticas. Ancoramos no cais de Vila Anã, tomado por crianças que brincavam atirando-se no rio. Algumas chegaram até a subir no Gaia, mas, assustadas com o drone, se escondiam atrás do corrimão lateral quando este retornava à base.

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O Gaia vai partir da Vila Anã: 15 aldeias, 15 dias e noites

O programa do Projeto Fitzcarraldo consiste em levar os filmes com o Gaia para a meninada de 15 comunidades isoladas, de ambas as margens do Arapiuns. A cada dia estávamos em uma aldeia diferente. Montávamos a sala de cinema ao ar livre, no barracão comunitário ou na escola, com o telão, os amplificadores, o projetor, o gerador de eletricidade... Sim, porque todas as comunidades, exceto uma, não têm luz.

Entregávamos ao presidente local, ou ao cacique, no caso de terras indígenas, a t-shirt do projeto e vários presentes para a comunidade, especialmente livros. Nem mesmo escurecia, mostrávamos o filme para a criançada, que, literalmente, ficava hipnotizada: nunca entraram num cinema na vida deles!

O favorito era o desenho animado Rio 2, com a história de uma arara que luta contra o desmatamento da Amazônia. Houve noites com 170 crianças e outros tantos adultos que assistiam à película sem piscar, com as mãos num saquinho de pipoca distribuído pela organização. Depois da projeção, corria uma rifa entre os presentes: o prêmio era um panetone gigante de 4 quilos. Algumas criancinhas, após ganhar esse prêmio, nem conseguiam carregá-lo.

Em troca, em muitas aldeias, o povo oferecia um espetáculo encenado pelos jovens da comunidade. Arimum, São Miguel, Tucumã, Curi e Mentai mostraram danças empolgantes de carimbó, o ritmo endiabrado típico do Pará, bailado com saias coloridas e esvoaçantes.

A cacique de Lago da Praia, Ligiane, foi a única líder comunitária a não aceitar que o Projeto Fitzcarraldo atracasse em sua aldeia, definida como indígena pelo ICMbio. Mas, afinal, consegui convencê-la (sem vencer sua desconfiança) ao oferecer-lhe os presentes da Bauducco.

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A biblioteca sobre palafitas de Bom Futuro (Foto: Oliviero Pluviano)


Aquela que fora a comunidade mais titubeante acabou apresentando o espetáculo mais sensacional, com um ritual em nheengatu (a língua geral do Amazonas, de origem tupi) de arrepiar. As crianças, enfeitadas com cocares na cabeça, instalaram-se na arena comunitária a céu aberto. Ligiane apareceu com uma coroa de penas da etnia jaraqui.

Em círculo dançamos com eles e tomamos cachiri (bebida ligeiramente alcoólica obtida da fermentação da mandioca) em uma única cuia (tigela obtida de um fruto amazônico), na qual todos bebericávamos.

No vilarejo de Coroca, fomos levados de jangada até um grande lago arredondado. Ao chamado do rapaz que nos acompanhava, emergiram do nada, de todas as partes, centenas de tracajás (tartarugas de rio).

Em Arimum, ao pôr do sol, escutamos belas cantigas religiosas que provinham da igrejinha de São Bento, entre o perfume intenso de duas árvores de pitomba em flor e o fedor pungente da carne de jacaré colocada para secar ao sol.

Vila Gorete é uma grande comunidade, a única com rede elétrica. Tem duas igrejas emparelhadas às margens do rio, separadas por uma réplica do Cristo Redentor do Corcovado, no Rio de Janeiro. Possui certa vocação esportiva, com inúmeros campos de futebol e galpões dedicados a equipes cariocas e paulistas.

Quando chegamos, estavam disputando dois jogos, um de meninos e outro de meninas, com torcida ao som de gritos e foguetes. O barracão do Vasco da Gama, onde montamos o cinema, estava decorado com bandeirolas de festas juninas. As pessoas lotaram o espaço com horas de antecedência.

Mas, bem no meio da projeção, tivemos de correr para pegar nosso gerador porque, de repente, tudo se apagou: a luz elétrica foi embora, deixando a vila inteira às escuras! Depois soubemos que esses apagões são muito frequentes.

Em Atodi, após oito dias sem telefone, encontramos um Wi-Fi. Diante da Pousada Encanto do Arapiuns (onde se dorme em redes), de um ângulo peculiar entre duas árvores, de costas para o rio, o celular pegou o sinal do WhatsApp aos soluços, por escassos 15 minutos, no início da manhã...

À noite, os jovens de Atodi representaram a Dança do Tipiti, aquele tubo de folhas de palmeira entrelaçadas que serve para espremer a farinha de mandioca recém-ralada. Enquanto apresentávamos um filme mudo, O Garoto, de Charles Chaplin, que as crianças adoraram, um grande sapo-cururu atravessava tranquilo o galpão.

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A dança do Tipiti, em Atodi, tem função culinária (Foto: Oliviero Pluviano)

Na noite em que o Gaia ficou com a proa na areia (é o sistema comum de ancorar) na Praia de São Francisco, o rio estava completamente parado, com um céu incrivelmente estrelado. A Via Láctea mostrou-se em todo seu esplendor, com ramificações nunca vistas em São Paulo ou no Rio. Acordei às 3 da madrugada com o grito contínuo das guaribas. Na água, uma superfície imóvel de astros. De repente, o rio foi rasgado por uma estrela cadente. Pura magia!

Bom Futuro é a aldeia mais bonita do Arapiuns. Há muitas casas de palha e as de tijolos são perfeitamente pintadas de branco e azul. As moradias surgem em um pequeno promontório verde, onde vimos o único campo de futebol coberto de grama.

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Os Fitzcarraldos Dinho, capitão do Gaia, o presidente Sarmento, de São Pedro, e o repórter-mecenas (Foto: Oliviero Pluviano)

Nessa região, os gramados, bem no centro da aldeia, são os lugares mais importantes do assentamento: mais do que a escola, mais do que a igreja! Numa ladeira suave que desce até o grande rio, ergue-se um belíssimo casebre de madeira sobre palafitas, que, para minha surpresa, abriga a biblioteca da comunidade.

São Pedro é o centro mais populoso do Arapiuns (1,5 mil habitantes). Lá funciona a Rádio Floresta, da Rede Mocoronga, e tem um presidente muito bacana. Sarmento fez sua carreira militar no Haiti, em Angola e na Embaixada do Brasil em Tóquio, antes de retornar, aposentado, para seu vilarejo natal.

Graças a ele, o cinema teve aqui a melhor apresentação da jornada, com uma meia-lua deslumbrante e as crianças sentadas nos degraus laterais do Folclódromo, um estádio rudimentar que hospeda festas populares.

Naquela noite, comemoramos com o comandante do Gaia, o Dinho, esse dia especial do Projeto Fitzcarraldo, tomando uma caipirinha de limão-tanja e gengibre preparada pelo nosso marinheiro Luís, acompanhada por um delicioso creme de cupuaçu da cozinheira Lucineide. No total, durante a viagem, mais de 1,1 mil crianças amazônicas assistiram às projeções dos filmes.

Mas o abandono ao qual voltaram essas comunidades esquecidas até por Deus nos reservava ainda uma surpresa: uma história trágica, quase fatal, que nos abalou. Chegamos pela manhã na última comunidade do roteiro. Mariane, uma garota de 16 anos, foi picada por uma terrível cobra surucucu em Vila Nova do Maró, a 1h40 de rabeta de Mentai (aquelas canoas movidas por motor com um eixo longo que termina em uma hélice).

No posto de saúde não havia mais antídoto e a "ambulancha" (um barco rápido para emergências) estava longe dali, atendendo um esfaqueamento. O que fazer? Com a mãe desesperada, nos desdobramos: só restava nossa lancha de apoio, para a qual Alter do Chão estava a 5 ou 6 horas de distância. Não tínhamos gasolina suficiente.

A duras penas, conseguimos obtê-la aqui e acolá no vilarejo. Demos uma blusa do Projeto à menina para protegê-la do frio (estava com febre alta). Já era noite quando Luís partiu com Mariane, sua mãe e uma enfermeira (que demorou quase uma hora para tomar banho!!!), embrenhando-se na escuridão.

Os jovens de Mentai nos consolaram naquela última noite, dançando um carimbó sublime. Mariane ainda estava viva quando chegou em Alter do Chão, onde uma ambulância a esperava para levá-la de urgência até o hospital de Santarém. No final, ela foi salva.