Obra contra enchentes na Grande Tijuca está parada

Publicado em 11/01/2018 por O Globo

RIO - Para muitos cariocas, o barulho de trovões soa como um aviso: é hora de evitar a região da Praça da Bandeira, entre outras áreas que costumam ficar alagadas durante temporais. A preocupação de parte da população da cidade seria menor se o desvio do Rio Joana estivesse concluído - de acordo com o cronograma original, a obra deveria ter terminado antes da Olimpíada de 2016. A intervenção finalizaria o Programa de Combate às Enchentes da Grande Tijuca, um plano de R$ 460 milhões que poderia reduzir os transtornos provocados por fortes chuvas no Centro e na Zona Norte.

A obra de desvio do Joana tem um histórico de atrasos e aumento de custos. Em 2011, quando foi lançada sua licitação, estava previsto um gasto de R$ 143 milhões (R$ 193,2 milhões, em valores atualizados) na construção de um túnel subterrâneo que levaria as águas do rio até a Baía de Guanabara sem passar pela Praça da Bandeira. Desde então, a prefeitura desembolsou R$ 230 milhões, 19% a mais que o estimado. O projeto tem trocado de mãos: passou por três empreiteiras, e o município já procura uma quarta para tentar finalizá-lo, na melhor das hipóteses, no fim deste ano.

RESCISÕES EM SÉRIE

O atraso começou em 2015, quando a Mendes Júnior, que fazia a obra desde 2012, rescindiu contrato com a prefeitura. Na época, a empresa estava envolvida nas investigações da Operação Lava-Jato e enfrentava dificuldades financeiras. Com sua saída, foi chamado por R$ 35 milhões, de forma emergencial, o consórcio Jdantas Fábio Bruno, para dar prosseguimento aos trabalhos até uma nova licitação. Depois, o consórcio Planova-Rual assumiu o serviço por R$ 120,4 milhões. Deste total, foram pagos R$ 80 milhões. Agora, o grupo também deixará o serviço.

Quando o Planova-Rual assumiu o projeto, em janeiro de 2016, a previsão era que o desvio ficaria pronto em 360 dias. No entanto, foram elaborados quatro termos aditivos que modificaram o cronograma e o custo da intervenção. Em 2017, o consórcio também pediu a suspensão do contrato. Segundo um executivo, o canteiro de obras está sem atividades desde setembro do ano retrasado. O grupo não quis explicar o motivo de sua saída. Em nota, a Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente afirmou que a rescisão foi solicitada por "problemas internos e financeiros."

O titular da pasta, Jorge Felippe Neto, negou ontem que a obra do Rio Joana esteja parada. Ele afirmou que a Fundação Rio-Águas vem fazendo o monitoramento e a manutenção do projeto, por meio de serviços de limpeza e operação. "Portanto, não há uma efetiva paralisação", justificou. De acordo com o secretário, o Planova-Rual queria mais dinheiro da prefeitura para completar o trecho final do túnel.

- São 300 metros críticos, muito difíceis de serem trabalhados no que diz respeito à logística. Passa debaixo da Radial Oeste e de trilhos da Supervia e do metrô. O consórcio simplesmente desistiu de concluir o serviço, então estamos chamando a terceira colocada no certame para terminá-lo - informou Jorge Felippe Neto.

A mudança no curso do Rio Joana
Transposição do Rio Joana
Curso atual
Baía de
Guanabara
Manguinhos
São cristóvão
Vila
Isabel
Quinta da
Boa Vista
Praça da
Bandeira
Estádio do
maracanã
Estácio
A mudança no curso do
Rio Joana
Transposição do Rio Joana
Curso atual
Baía de
Guanabara
Manguinhos
São cristóvão
Vila
Isabel
Quinta da
Boa Vista
Praça da
Bandeira
Estádio do
Maracanã
Estácio

Ainda segundo o secretário de Conservação e Meio Ambiente, quem assumirá a etapa final do desvio do Rio Joana será um consórcio liderado pela empresa Fábio Bruno Construções, que participou de obras emergenciais do projeto após a saída da Mendes Júnior.

Também ontem, a prefeitura destacou que o projeto de desvio do rio está 80% concluído. Mas, em março do ano passado, a Secretaria de Conservação e Meio Ambiente já havia informado que a obra se encontrava 80% pronta.

- Desde que assumimos, foram feitos 150 metros do túnel. As obras serão retomadas em 30 dias, no máximo - disse Jorge Fellipe Neto, acrescentando que o novo contrato custará R$ 45,5 milhões.

Caso o valor previsto pela prefeitura seja efetivamente desembolsado, a obra de desvio do Rio Joana sairá por R$ 274,5 milhões, 41% a mais que os R$ 193 milhões estimados originalmente.

Obras contra enchentes na Grande Tijuca está parada - Custódio Coimbra / Agência O Globo

PROJETO NÃO RESOLVE TUDO, DIZ ESPECIALISTA

Coordenador do curso de especialização em engenharia sanitária e ambiental da Uerj, Adacto Ottoni disse nesta quarta-feira que a obra de desvio do Rio Joana não pode ser considerada de alta complexidade. Segundo ele, caso não tenham ocorrido erros na execução do projeto, só problemas financeiros explicam os atrasos.

- Não tenho detalhes do projeto, mas é basicamente um túnel enorme. A complexidade é igual à de qualquer outra obra do tipo. Antes do início dos trabalhos, são feitos estudos técnicos, sondagens no solo. Um bom projeto resolve tudo. É lamentável a obra continuar inacabada - afirmou Ottoni.

RISCO PARA SÃO CRISTÓVÃO

Quando o projeto for finalizado, o Rio Joana terá o maior túnel de drenagem de águas de chuvas da cidade, com 2,5 quilômetros de comprimento. Atualmente, ele passa pela Tijuca e se encontra com o Rio Maracanã, seguindo pela Praça da Bandeira até o Canal do Mangue, que desemboca na Baía de Guanabara. O encontro dos rios é o que provoca enchentes, disse Ottoni. Segundo ele, o desvio não pode ser encarado como uma solução definitiva.

- Quando a maré estiver baixa ou média, vai resolver. Mas quando estiver alta, o túnel deverá ser inundado pelas águas da Baía de Guanabara. Ou seja, poderemos ter problemas em São Cristóvão - alertou o especialista.