ONG divulga alerta aos gays sobre eventuais problemas na Rússia

Publicado em 03/12/2017 por Folha de S. Paulo Online

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Uma organização de combate à discriminação que fez parceria com a Fifa para ajudar a controlar o comportamento de torcedores na Copa do Mundo divulgou alertas aos torcedores gay e transgêneros e a pessoas de certas raças e etnias sobre o torneio, o que expõe a preocupação quanto a ameaças que eles podem enfrentar na Rússia.

Em discurso antes da publicação do guia que sua organização preparou para espectadores que devem ir à Rússia por causa do evento, Piara Powar, diretor executivo da Football Against Racism in Europe (Fare, ou Futebol Contra o Racismo na Europa, em tradução livre), alertou que torcedores terão de ser cautelosos porque em certas áreas do país a comunidade gay ou pessoas de pele escura não são bem-vindas.

"Se houver torcedores gays andando pela rua de mãos dadas, eles enfrentarão perigo ao fazê-lo?", indagou Powar. "Isso depende de em que cidade estejam, e do horário em que isso aconteça."

Os alertas são semelhantes às preocupações expressas antes da Olimpíada de Inverno de Sochi-2014, que ocorreram um ano antes de a Rússia aprovar lei contra a chamada "propaganda gay".

A lei essencialmente proíbe menções públicas à homossexualidade. O mais alto tribunal europeu de direitos humanos declarou que a lei é ilegal, em junho, mas a Rússia prometeu recorrer e disse que não honraria a decisão.

Porém, só o fato de já acontecer um debate sobre a segurança dos torcedores expõe as preocupações quanto à homofobia e racismo na Rússia. Ataques a gays não são incomuns, e esforços para adotar o multiculturalismo resultaram em incidentes embaraçosos: antes de um dos jogos de Camarões na Copa das Confederações deste ano, um grupo de torcedores desfilou por Sochi com rostos pintados de preto e bananas penduradas no pescoço.

Embora autoridades russas trabalhem para reprimir o comportamento violento antes da Copa, o medo de discriminação ou ataques continua a despertar cautela de parte de torcedores.

Powar disse que algumas organizações de torcedores britânicas e alemãs pediram que a Fifa esclarecesse se poderão carregar bandeiras do movimento do orgulho gay aos estádios, mas ainda não receberam resposta.

Federico Addiechi, diretor de sustentabilidade e diversidade da Fifa, a divisão encarregada de lidar com questões de direitos humanos, disse que ela havia recebido garantias do comitê organizador e do governo russo de que "todo mundo se sentirá seguro, confortável e bem-vindo".

"Todos devem se sentir bem-vindos na Copa da Rússia, como foi o caso em Copas do Mundo anteriores, nas quais todos foram aceitos e bem acolhidos", disse Addiechi, depois de participar de uma mesa redonda em uma conferência na Holanda.

Ele afirmou que a Fifa adicionou cláusulas de direitos humanos ao seu estatuto, as primeiras nos 113 anos de história da organização.

"Se houver quaisquer casos de abuso, ou mesmo a possibilidade de que ativistas dos direitos humanos ou jornalistas se vejam forçados a situações difíceis, então, de acordo
com os nossos estatutos e normas de direitos humanos, a Fifa intervirá", complementou Addiechi.

O potencial de que as coisas deem errado preocupa Minky Worden, diretora de iniciativas na organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch.
"Há um problema profundo de homofobia na Rússia", disse ela. "Os torcedores precisam se sentir seguros, e não é possível que uma pessoa se sinta segura em um país que tem más leis e a discrimina."

A Fare terá monitores de torcida presentes nos estádios em todos os jogos da Copa, encarregados de detectar manifestações que violem os regulamentos no que concerne quanto a racismo, extremismo político e homofobia.

Entre gritos de torcida que patrulharão está o de "puto", que se tornou comum entre torcedores mexicanos e de países da América Latina.

A federação de futebol do México reverteu por meio de recurso uma multa que a Fifa lhe impôs por causa disso.

Mas a punição foi apenas uma entre as quase uma dúzia de medidas disciplinares relacionadas ao uso do termo nos últimos anos.

As punições e uma campanha de relações públicas com participação de futebolistas mexicanos não tiveram grande efeito contra a prática.
Addiechi alertou os torcedores que pretendam usar esse ou outros gritos de guerra ofensivos de que os árbitros poderiam agir quanto a isso durante os jogos, o que nos piores casos poderia resultar em suspensão da partida.

A Fifa ameaçou suspender jogos em que isso acontecesse na Copa das Confederações disputada na Rússia este ano, mas ainda que o grito de guerra tenha sido usado na primeira partida do México, fez só uma advertência.

Sob regulamentos que estarão de novo em vigor na Copa, o árbitro pode suspender uma partida à espera de que um apelo aos torcedores pelo sistema de alto-falantes do estádio os leve a abandonar o comportamento ofensivo.

Se as ofensas persistirem, os jogadores deixarão o campo e voltarão aos vestiários, enquanto um segundo apelo é lido. Caso haja uma terceira paralisação, a partida será cancelada, disse Addiechi.

Ele acrescentou que "essas coisas não serão toleradas".

Tradução de PAULO MIGLIACCI