ONU debate com empresários avanço da economia limpa

Publicado em 04/12/2017 por Valor Online

Evidências científicas demonstram que mais de 60% dos ecossistemas estão esgotados. O uso dos recursos naturais deve crescer entre três e seis vezes em 2050 em relação aos níveis atuais, frente a uma população mundial de mais de nove bilhões já em 2030. "O problema é claro: estamos indo rumo a pontos de inflexão. E para além deles a Terra não funcionará mais normalmente", resumiu Jian Liu, cientista-chefe da ONU Meio Ambiente. "Temos de priorizar o meio ambiente em todas as decisões políticas. O tema tem de estar no topo da agenda". O tom de abertura do fórum inédito que juntou no fim de semana cientistas, ambientalistas, diplomatas e empresários na sede do escritório das Nações Unidas em Nairóbi, no Quênia, foi da urgência de ações concretas rumo à economias mais limpas. Mas também sobre as possibilidades de negócios que já estão abertas. "O Antropoceno, uma nova era marcada pelo profundo impacto da humanidade no planeta, está sobre nós", diz material da ONU Meio Ambiente - nome fantasia dado ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que fica na capital queniana. "Para traçar um caminho mais verde e sustentável, o mundo tem de abraçar novas estratégias, tecnologias, políticas públicas e ações", segue o texto. O formato do "Fórum Científico, Político e de Negócios em Meio Ambiente" foi pensado para ser uma interface entre esses setores, acelerar as mudanças rumo à economia circular e conseguir alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Ibrahim Thiaw, diretor-executivo adjunto da ONU Meio Ambiente, abriu o fórum listando exemplos da parceria. No Quênia, a Philips vem dando acesso à eletricidade a populações carentes erguendo centros comunitários abastecidos com painéis solares. A IBM, por sua vez, está envolvida em um projeto de monitoramento de água em Bangalore, na Índia e investe em rede de dados globais sobre o monitoramento do ar. Satélites da Nasa têm sido instrumentos fundamentais de observação apenas do desmatamento mas também de enchentes, poluição e erosão. "No futuro precisaremos de mais cidades e infraestutura. Só na África, a população aumentará do atual 1,2 bilhão para 4 bilhões no fim do século", seguiu Thiaw. "Quanta sustentabilidade vamos colocar nesta infraestrutura?". O finlandês Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (WMO, em inglês), disse que embora o Acordo de Paris tenha sido "um bom começo", temos de "ser honestos e reconhecer que estamos indo para um futuro com 3 a 5 graus de aumento da temperatura". Ele seguiu: "Precisamos aumentar o nível de ambição, e as soluções do setor privado têm de ser muito mais rápidas". A intenção do Fórum é estimular as oportunidades de investimentos verdes conduzidos pela ciência e tecnologia, o que atraiu mais de 650 participantes de todo o mundo no fim de semana discutindo modelos de negócios que gerem lucros, empregos e sejam ecologicamente limpos. A experiência da Philips, por exemplo, ao iluminar Los Angeles com lâmpadas de led, não só tornou a energia mais limpa, eficiente e menos emissora, como teve efeitos colaterais. A criminalidade foi reduzida em 21%, e os acidentes de trânsito, em 30%, citou Harry Verhaar, diretor de Assuntos de Governo e Públicos Globais da Philips Lighting. A conexão entre ciência e economia ficou evidente na fala de Jiang Wu, vice-presidente da Universidade Tongji, de Xangai, que tem 36 mil alunos. "Na China, universidades são os think tanks para os governos", disse. "E é por isso que a China é tão bem-sucedida". Hoje a ONU Ambiente abre a 3ª UNEA, sigla que identifica a maior conferência internacional de assuntos ambientais. São esperados mais de 2 mil delegados, empresários, ambientalistas, cientistas e funcionários de outras agências da ONU. É a primeira conferência dirigida pelo norueguês Erik Solheim, que ajudou a desenhar o Fundo Amazônia. O tema é o combate à poluição em todas as suas frentes - no mar, na terra e no ar. A jornalista viajou para Nairóbi a convite da ONU Meio Ambiente