O que fazer para ter investimentos sustentáveis?

Publicado em 13/11/2017 por Valor Online

O que posso fazer para que meus investimentos sejam sustentáveis do ponto de vista ambiental e social? Michela Aimar, CFP, responde: Prezado leitor, sua pergunta é importante porque remete a uma tendência global de crescimento do interesse nos investimentos sustentáveis. É fundamental esclarecer que não estamos falando em filantropia e sim em aplicações que, além de ter um retorno financeiro, levem em consideração o impacto ASG (Ambiental, Social e de Governança). Cada vez mais os indivíduos se atentam de que atrás dos números de rentabilidade dos investimentos está a economia real e seus impactos nas pessoas e na natureza - as externalidades negativas dos economistas. Pesquisas globais entre investidores individuais mostram que esta preocupação é muito forte nas novas gerações e mais acentuada entre as mulheres. Porém, o interesse no impacto social e ambiental nem sempre reflete em decisões de investimento. A principal razão apontada é a ideia de que seja necessário renunciar à rentabilidade para permitir a sustentabilidade. Esse conceito vem sendo desconstruído na medida em que as análises históricas permitem verificar que, no longo prazo, investimentos sustentáveis têm produzido retornos maiores e menos voláteis. Outro obstáculo é a complexidade da avaliação ASG das empresas com base nas informações limitadas que os investidores individuais recebem. A criação do ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial) pela bolsa brasileira tem representado um grande passo no sentido da transparência. O índice inclui as ações das empresas com as melhores práticas em sustentabilidade, ponderadas pelo valor de mercado. Entre os ativos de crédito, merecem destaques os títulos verdes, ou "green bonds", que exigem que os recursos captados sejam aplicados em projetos ambientalmente sustentáveis. Depois de realizarem emissões de green bonds de empresas brasileiras em moeda estrangeira, em 2017 houve emissões em reais, em forma de Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e de debêntures incentivadas de projetos de energia renovável. Até hoje as emissões foram restritas a investidores qualificados, mas o mercado tem muito potencial de crescimento. Se for acessar o mercado financeiro por meio de fundos de investimento, o aplicador deverá pesquisar para entender os critérios ASG utilizados pelos gestores. Em 2016, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) executou uma pesquisa entre 69 instituições de diferentes portes, que mostrou que 70% dos respondentes utilizam algum critério ASG no processo de investimento. Porém, o nível de engajamento das gestoras varia muito. Num extremo da oferta estão os fundos passivos, que replicam a carteira do ISE. No outro extremo, há a chamada "integração ASG", ou seja, a inclusão dos impactos ASG na avaliação de todos os ativos das carteiras de todos os fundos, não somente os dedicados à sustentabilidade. Existem também fundos de private equity e venture capital com foco em negócios de impacto e plataformas de crowdfunding têm oferecido a oportunidade de investir diretamente em startups de impacto. Atente-se que esse tipo de investimento especulativo deve representar uma porção pequena do seu patrimônio. Converse com um planejador financeiro sobre seu interesse para que possa aconselhar a melhor alocação do seu patrimônio, mas também indique sua preferência para os corretores na hora de fazer investimentos em ações ou debêntures e para seu gerente bancário quando for pedir assessoria sobre fundos. Somente quando houver maior demanda por parte dos investidores o mercado financeiro evoluirá de vez nesse assunto. Michela Aimar é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: michela.aimar@eusustentavel.com As respostas refletem as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico ou da Planejar. O jornal e a Planejar não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para: consultóriofinanceiro@planejar.org.br