Sigma vai investir R$ 230 milhões para produzir lítio

Publicado em 10/01/2018 por Valor Online

Resende (à esq.), Ana Cabral e Carneiro, experientes no setor, tocam o negócio, que deve iniciar produção em 2019 A Sigma Mineração, subsidiária da Sigma Lithium Resources, companhia com sede no Canadá, mas de origem brasileira, quer levantar R$ 230 milhões neste ano para investir em um projeto de lítio no Vale do Jequitinhonha, de Minas Gerais. O objetivo é explorar uma reserva considerável e se beneficiar do grande consumo esperado da matéria-prima para as próximas décadas, principalmente por conta de carros elétricos. A extração comercial é prevista para começar no 1º trimestre de 2019. O ponto de partida deve ser a abertura do capital. A mineradora pretende realizar uma oferta pública inicial de ações na bolsa de Toronto e conseguir cerca de um terço dos recursos necessários para investir até março. Mais 33% provavelmente virão de endividamento e o restante, de investimentos estrangeiros. Atualmente, a empresa é controlada por um fundo de participações da A10 Investimentos, uma gestora de recursos que tem 80% do capital da Sigma. Os outros 20% das ações pertencem aos executivos e credores. A equipe montada para colocar o projeto nos trilhos tem larga experiência no setor. Itamar Resende, presidente da companhia, é engenheiro metalúrgico e trabalha com mineração há pelo menos duas décadas. Ana Cabral-Gardner, representante da A10 no conselho, cuidou da privatização da Vale, à época no Merrill Lynch. E Tadeu Carneiro, também conselheiro, é ex-presidente da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), de nióbio. Para Resende, um grande desafio será levar a cabo essa janela curta para o pontapé inicial. Faltam, além do capital, licenças para a exploração da matéria-prima em território mineiro. "Mas vemos como principal desafio hoje a importação da tecnologia de separação por meio denso", disse, em entrevista ao Valor. "Esse processo, embora consolidado no exterior, ainda não tem muita tradição no Brasil." Objetivo é abrir capital e fazer uma oferta pública inicial de ações em Toronto para captar 33% dos recursos A própria exploração do metal não é tradicional no país. A expectativa da Sigma é terminar o ano que vem já em um ritmo de produção de 240 mil toneladas anuais de concentrado, um produto que deve ter uma concentração média de 6% a 8% do óxido de lítio. As reservas mapeadas do material até esse projeto eram de 50 mil toneladas, apenas 1,5% do total no mundo, desconsiderando os dados da Bolívia, que não possui dados suficientes provados. Ou seja, em apenas um ano a expectativa é que a Sigma produza quase um terço de todas as reservas lavráveis até então. "Somos parte de uma corrida mundial [pelo lítio] e se abre uma janela de oportunidades", opina Carneiro. "Nossa tese é que a exploração de uma área assim abre espaço para a criação de pequenos centros produtores regionais, que avancem na cadeia", explica Ana. Até recentemente, a maior parte do lítio produzido no mundo era utilizado na fabricação de vidros e cerâmicas. Com o advento dos veículos elétricos e a busca por um tipo de bateria que pudesse alimentar esses automóveis, contudo, esse segmento ganhou corpo e hoje é o destino mais importante do metal. Nos Estados Unidos, a montadora Tesla, além de já produzir os carros, levantou uma unidade para fabricar as baterias, avançando na cadeia. A intenção da Sigma não é fazer o mesmo, mas abrir espaço para que outras empresas preencham esse vácuo. "Fizemos reuniões com o poder público, o Ministério Publico e até as Forças Armadas. Queremos mostrar o empreendimento, chamar a comunidade local para entender o projeto", explica Carneiro. "O apoio foi total, eles compraram a ideia." Um dos motivos para a receptividade é a preocupação da companhia com a exploração mineral sustentável. Para os executivos da Sigma, é preciso que o Brasil reconheça sua vocação minerária e aprenda a explorar sem agredir o meio ambiente. O outro é a criação local de empregos: 200 postos de trabalho e mais 600 indiretos.