Tarsila do Amaral ganha exposição no MoMA

Publicado em 12/02/2018 por Jornal do Comércio - RS

No Brasil, as imagens que a paulista Tarsila do Amaral (1886-1973) criou ilustram até jogos de quebra-cabeça em lojas de brinquedo e livrarias, mas nos Estados Unidos seu nome ainda soa desconhecido. Com atraso de quase um século depois de ter pintado Abaporu, considerada a obra de arte brasileira mais valiosa, isso talvez mude um pouco a partir da abertura da exposição Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil no Museum of Modern Art (MoMA) em Nova Iorque, ocorrida ontem.
A mostra, que se concentra no trabalho produzido por ela na década de 1920, é a primeira individual da artista apresentada por uma grande instituição cultural dos Estados Unidos (a mesma seleção já tinha sido apresentada de outubro de 2017 a janeiro último no Instituto de Arte de Chicago). Mesmo para o MoMA, Tarsila é novidade. Um dos últimos esboços para a tela Figura só, de 1930, recém-doado ao museu, é o primeiro trabalho dela incluído na sua coleção.
"A exposição realizada pelo MoMA é um marco na história da obra da Tarsila. Tenho certeza de que agora o mundo vai conhecê-la!", afirma Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta homônima da paulista, que administra o espólio da família.
A data da estreia de Tarsila em Nova Iorque coincide com um marco histórico para a arte brasileira. Em 11 de fevereiro de 1922, foi aberta no Teatro Municipal de São Paulo a Semana de Arte Moderna, na qual artistas e intelectuais apresentaram novas formas de expressão libertas da estética do século XIX e abriram caminhos para a invenção de uma arte nacional independente e moderna.
Tarsila não participou pessoalmente da manifestação porque estava na Europa. Mas suas pinturas estiveram na gênese e no desenvolvimento da produção característica do movimento cultural. "A figura de Tarsila é inextricavelmente ligada ao projeto moderno brasileiro", diz o historiador Luis Pérez-Oramas, que organizou a Bienal de São Paulo de 2012. Ele é responsável pela curadoria da individual no MoMA em parceria com Stephanie DAlessandro, ex-curadora de Arte Moderna Internacional do Instituto de Arte de Chicago. 
Cronológica e com abordagem temática, Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil exibe no MoMA cerca de 130 obras, incluindo pinturas, desenhos, cadernos, fotografias e documentos. A negra (1923), Abaporu (1928) e Antropofagia (1929), três das principais obras da pintora paulista, formam o núcleo da exposição. Em série, estão expostos os três trabalhos quase nunca reunidos que viraram os alicerces da iconografia brasileira construída pela artista. Também estão lá algumas de suas paisagens mais surreais e desconcertantes, como Sol poente, Floresta e Cartão-Postal, todos delírios visuais da mesma década de 1920 em que árvores e flores ganham contornos roliços em degradês technicolor.
Tarsila, que estudou em Paris com Fernand Léger e ainda viu o auge do cubismo e do surrealismo, fez de sua obra a maior tradução visual do pensamento do marido Oswald de Andrade e seu Manifesto Antropófago. Mesmo selvagens na superfície, os quadros de Tarsila não negam uma matriz europeia. Bem à moda antropofágica, figuras como o Abaporu reinventam o repertório gestual de telas clássicas.
Nem mesmo a aparente volúpia abrutalhada de A negra escapa a essas raízes. Na visão de Stephanie, o retrato da mucama, capaz de ofender a sensibilidade aflorada dos americanos em tempos de debate racial acirrado, canaliza a pose dos banhistas lânguidos e erotizados de Cézanne. Mas, se Tarsila foi uma espécie de herdeira rebelde da tradição europeia, também foi partida para a outra ponta da modernidade brasileira, que ganhou corpo umas quatro décadas depois do auge de sua fase "antropofágica". "É a artista que todos foram investigar mais tarde porque descobriu uma nova linguagem que vai além de um meio-termo entre a arte da Europa e visões do Brasil", diz a curadora.
Os contornos e as cores resplandecentes de suas pinturas mais carnavalescas, de corpos transbordantes e paisagens quase lisérgicas, de fato, ressurgem nos trabalhos de neoconcretistas, como Hélio Oiticica e Lygia Clark, e na Tropicália. "Seus quadros falam de uma realidade que transborda dos limites da representação. Tarsila misturou arte moderna com aquilo que a burguesia de sua época achava desprezível. E isso começou com A negra. No centro da modernidade brasileira, há um sujeito subordinado, que é negro e mulher. Ela seria a mãe de todos nós", afirma Pérez-Oramas.