Agricultura orgânica pode alimentar o mundo e preservar o meio ambiente

Publicado em 24/06/2019 por Século Diário

Nutricionista, Mestre em Agroecossistema e Doutora em Sociologia Política, Elaine de Azevedo, professora do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), vem se dedicando a pesquisas nas áreas de sociologia da alimentação, saúde e meio ambiente e segurança alimentar e nutricional.
Autora do livro Alimentos Orgânicos (Editora Senac), ela conversou com Século Diário sobre as perspectivas do atual governo com a liberação de novos agrotóxicos, os malefícios dos usos desses produtos e as estratégias para fortalecer a produção e consumos de alimentos orgânicos.
- O que representa o governo  de Jair Bolsonaro em relação à questão da agricultura, saúde e produção e consumo de alimentos? Que medidas adotadas em seus primeiros meses de governo indicam a posição do mesmo?
Bem, na verdade, o governo está cumprindo a pauta que prometeu. Ninguém devia estar surpreso. Seu foco sempre foi fortalecer o agronegócio, manter os vínculos com as bancadas ruralista e do boi, ampliar fronteiras agrícolas em direção à Amazônia, ao cerrado e invadir terras indígenas e quilombolas. É isso que ele está fazendo.
Mas ainda nos surpreende a rapidez das mudanças e a conivência e o silêncio dos seus eleitores com tanta destruição - que, ironicamente, também os afeta. As ações rancorosas do presidente e de seus ministros contra as políticas ambiental e de bem-estar social das minorias que produzem comida e contra os programas de promoção da segurança alimentar e nutricional duramente construídos nos últimos anos, representam um total descompromisso com a saúde pública da população brasileira, já que a relação agrotóxicos e diversas doenças como câncer, autismo, depressão, infertilidade, entre outras, como já falado, está comprovada em diferentes pesquisas.
A política de Bolsonaro representa seu descaso com o meio ambiente, com as águas, com a fauna, com a flora – com as abelhas que estão morrendo - já que a monocultura e o agronegócio que ele apoia não se preocupam com a vida. Tudo isso compromete o futuro do planeta, porque o veneno não tem fronteiras.
E, por fim, suas pauta política traduz sua falta de respeito e compromisso com aqueles que realmente produzem comida na nossa mesa. A ONU [Organização das Nações Unidas] instituiu 2019-2028 como o Decênio Internacional da Agricultura Familiar, uma estratégia para contribuir com o fim da fome e da pobreza e para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e nós vamos na contramão desse formato. Uma lástima.
Concretamente, o que o governo tem feito para mostrar seus reais interesses: liberou 197 tipos de venenos, alguns proibidos em diferentes países, mais de um por dia desde o primeiro dia de governo. Tem promovido o desmantelamento de políticas e programas que apoiam a agricultura familiar; tentou extinguir o Conselho de Segurança Alimentar, o Consea. Essa ação foi barrada pelo Congresso, mas a MP [Medida Provisória] assinada no primeiro dia da posse de Bolsonaro evidencia o perfil desse governo, pois o Consea implica em manutenção de diferentes ações essenciais e comprovadamente efetivas para o combate à fome e para a garantia da segurança alimentar: o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos], o Programa Cisternas, o Bolsa Família, os alimentos da agricultura familiar na alimentação escolar. O Conselho está mantido, mas sob quais condições? O futuro é preocupante.
- Diversas pesquisas e acontecimentos demonstram os efeitos negativos dos agrotóxicos para a saúde humana e para o meio ambiente. Quem ganha com os agrotóxicos?
Ganha quem tem interesses financeiros em manter o agronegócio e a produção de patentes e insumos agropecuários. Ganham trabalhadores e pesquisadores de empresas de insumos agrícolas. Ganham os grandes produtores que plantam à base de monocultura e veneno. Ganham os parlamentares defensores da lei pro-agrotóxicos, membros da bancada ruralista e da Frente Parlamentar Agropecuária – que venderam para as multinacionais seu projeto de lei do veneno que flexibiliza ainda mais o uso de agrotóxicos no país.
Mas quem ganha, mesmo, são as multinacionais que vendem os venenos e compram os parlamentares. Elas são os atores mais satisfeitos com a flexibilização do agrotóxico no Brasil. Parte do bolo envenenado é divido por políticos descomprometidos com a saúde pública.
Agora quem perde? Naturalmente, cada estrato social é afetado em intensidades diferentes, mas se alguns ganham muito, também é fato que muitos perdem muito. Todos nós, seres vivos, somos atingidos em algum grau. Tal fato é uma insensatez humana inexplicável, uma vez que não há dinheiro que consiga eliminar o veneno uma vez produzido, resgatar a natureza destruída ou curar o câncer e o autismo  - e essas doenças afetam a todos, sem exceção.
- Quais os principais mitos difundidos em defesa de seu uso?
O mito mais difundido é que o agronegócio é que produz comida e, para isso, precisamos de agrotóxicos.  Mas agronegócio não produz comida; produz commodities, PIB [Produto Interno Bruto], promove exportação e cria laços mercadológicos. É, enfim, uma dinâmica de caráter econômico; não produz comida (e saúde ao mesmo tempo) e muito menos segurança e soberania alimentar. No Brasil, são os agricultores familiares junto com assentados, campesinos, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, agrofloresteiros e pescadores que produzem 70% do que comemos com apenas 25% do orçamento destinado à agricultura no Brasil - orçamento esse que deve diminuir ainda mais com o desmantelamento das políticas de apoio à agricultura familiar do atual governo.
É possível produzir comida - leia-se alimentos em policultivo (não commodities em monocultura) – sem venenos. A agricultura orgânica pode tanto alimentar o mundo como preservar o meio ambiente e promover saúde com alimentos mais nutritivos e sem venenos, ao mesmo tempo. Entretanto, algumas mudanças na dieta serão necessárias e é preciso começar a pensar sobre elas.  
Um estudo da Washington University modelou 500 cenários de produção de alimentos para analisar se é possível alimentar uma população mundial estimada de 9,6 bilhões de pessoas em 2050, sem venenos e sem expandir a área de terras utilizadas.
O estudo mostra que a produtividade vegetal orgânica é, em média, somente 10-20% menor que a convencional (para algumas espécies cultivadas é igual e, para outras - pode ser maior - normalmente para as espécies nativas). E os pesquisadores mostram que a agricultura orgânica pode produzir comida para toda a população mundial se as pessoas assumirem dietas baseadas em plantas, ou seja, com menor consumo de carne. Isso porque grande parte dos grãos e áreas de produção vegetal hoje são destinadas à pecuária e a outros tipos de criação extensiva e intensiva de animais.
Além disso, a produção animal orgânica não admite o confinamento e não objetiva a alta produtividade em proteína animal. De maneira geral, os indivíduos urbanos e sedentários, vivendo, na sua maior parte, em climas temperados, mediterrâneos, equatoriais e tropicais, não precisam da quantidade de carne que estão ingerindo. A ciência da Nutrição precisa pensar sobre isso, porque uma dieta com alto teor de proteína animal tem causado doenças metabólicas e alguns tipos de câncer aos “privilegiados” que têm acesso a ela.
É importante ressaltar também que a agricultura orgânica no Brasil é essencialmente formada por agricultores familiares que já contribuem para a produção de boa parte dos alimentos que estão na nossa mesa – alimentos,saúde, dignidade social e meio ambiente preservado, tudo ao mesmo tempo.
Outro mito é que o agrotóxico não causa danos. Não temos pesquisas conclusivas acerca dos efeitos sobre a saúde de todas as drogas veterinárias, dos fertilizantes e aditivos químicos sintéticos, dos transgênicos, dos alimentos irradiados - não porque não causam mal, mas porque não são prioridades de pesquisa científica.
Mas temos pesquisas sérias e inquestionáveis, realizadas por pesquisadores independentes e veiculadas por instituições de renome como o Instituto Nacional de Câncer, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, a Organização Mundial da Saúde, a FAO (Food and Agriculture Organization), a Fiocruz que divulgam a relação entre agrotóxicos e diversos tipos de doenças.  Isso só já devia bastar para banir os agrotóxicos da agricultura. Mas os interesses econômicos prevalecem sobre a importância da vida.
Além disso, a questão da toxicidade dos contaminantes da agricultura é preocupante, pois não há informações suficientes e seguras sobre o poder cumulativo dessas incontáveis substâncias. Não conhecemos bem o efeito combinado, nem a capacidade desses contaminantes de sofrer mudanças no seu nível de toxicidade após a ingestão. Também não sabemos muito sobre o processo de interação dos inúmeros contaminantes dentro do organismo. Ou seja, consumimos diariamente diversos contaminantes cujos efeitos são desconhecidos numa análise conjunta. Portanto, não é possível estabelecer inter-relações precisas e imediatas entre as consequências do consumo dessas substâncias em longo prazo e as diferentes enfermidades. Por fim, essas substâncias são, muitas vezes, ofertadas em doses acima das recomendadas e sem controle adequado por parte dos sistemas de vigilância, que, no Brasil,  são muito ineficientes. Por isso, o único jeito é prevenir e evitar ao máximo.
- Se estamos em um desmonte das políticas para agricultura orgânica e familiar, que iniciativas e estratégias a sociedade civil pode adotar para fortalecer a produção e acesso aos alimentos agroecológicos e orgânicos?
Primeiro de tudo, quem tem acesso deve comprar do agricultor familiar orgânico, dos assentados, dos indígenas, das comunidades quilombolas, dos agrofloresteiros e pescadores locais. É a nossa ação política mais importante como consumidores. Devemos, sempre que possível, boicotar produtos transgênicos, alimentos ultraprocessados e envenenados, provenientes de monoculturas e comprar direto dos atores sociais que precisam de apoio para se manter na produção  – nas feiras, cestas, Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA's), nos mercados de pesca.
Mas não podemos nos conformar. Nenhum direito político nos foi oferecido. Todo direito foi sempre duramente conquistado e o direito humano a uma alimentação saudável, a comida de verdade para todos, deve ser pauta de cada brasileiro que deseja viver com saúde e dignidade.
Então, como cidadãos, temos que aprender a votar em políticos que têm como pauta a segurança e a soberania alimentar. Como cidadãos, devemos exigir políticas de bem-estar social que fortaleçam os agricultores familiares e a todos que produzem comida; pedir apoio para a criação de abatedouros itinerantes que cheguem até os agricultores mais remotos. Exigir mais feiras, espaços venda e canais de comercialização alternativos para alimentos de origem familiar orgânica nos espaços urbanos.
Vitória – e toda cidade brasileira - precisa de um mercado para que os agricultores familiares orgânicos, pescadores, quilombolas, ribeirinhos, indígenas deixem seus produtos com dignidade. Um espaço aberto todos os dias da semana por pessoas que vendam seus produtos e repassem o valor integral aos produtores de forma a não sobrecarregar o agricultor que precisa produzir. Ele não pode ser sobrecarregado na sua nobre tarefa de produzir comida, já que no atual formato, ele ainda tem que vender, administrar e transportar alimentos.
Precisamos exigir subsídios financeiros e financiamentos justos aos agricultores familiares locais. Queremos políticas de inserção do produto de origem familiar orgânica no mercado institucional (escolas, restaurantes universitários, prisões, hospitais públicos) e apoio à agricultura urbana e a hortas comunitárias em todo terreno disponível - nas cidades e no campo.
O Estado precisa ajudar a promover o empreendedorismo agrícola, oferecer ao agricultor familiar orgânico uma gama de serviços educacionais, técnicos, de assistência e extensão, certificação de seguridade sanitária alimentar e capacitação, através de convênios com projetos de extensão propostos por universidades e instituições públicas locais.
Enfim, há muito o que exigir do Estado em troca de saúde, comida de verdade, barata e para todos os brasileiros. Esse é outro mito. Que comida com veneno é barata e o orgânico é inacessível. Orgânico não deve ser mais caro, mas precisa de vontade política para que o agricultor familiar seja apoiado na produção e possa disponibilizar alimento orgânico a todos nós. Quando o governo assumir tais ações e priorizar o desenvolvimento socioambiental do Brasil em vez do econômico, o orgânico vai estar em todas as  mesas, a um preço acessível. Essa é nossa luta.
E, por fim, os países que abrigam as empresas que produzem venenos proibidos lá e vendem cá devem também se responsabilizar. São os acionistas e os consumidores europeus, aqueles com maior poder para boicotar suas próprias empresas, como a Syngenta na Suíça e a Bayer na Alemanha,  que devem se mobilizar e assumir uma atitude ética ambiental pouco praticada no capitalismo colonizador. Precisamos pensar sobre isso e espalhar essas ideias de corresponsabilização se ainda queremos vida nesse planeta.
- O contexto atual parece impelir ainda mais para a necessidade de um "ativismo alimentar". Uma estratégia recente que ganhou visibilidade foi o Banquetaço. O que esta e outras iniciativas ensinam?
O ativismo alimentar e suas diferentes manifestações são exemplos de novos repertórios de ação política orientados por uma causa específica – nesse caso, apoiar a comida de verdade; o agricultor familiar e a segurança e a soberania alimentar.  Esse tipo de ação política desloca o poder de mudar e fortalecer o que se deseja para as mãos do cidadão. As políticas formais devem continuar a existir, mas tais estratégias mostram que temos poder para fazer mudanças e que essas mudanças devem promover a participação popular e de um grupo coeso e plural - ativistas, consumidores, ambientalistas, agricultores, estudantes. Tais formatos políticos são  inclusivos e positivados, ou seja, são movimentos políticos pacíficos e afetivos que não podem ser criminalizados. Além disso, esses movimentos estimulam a comensalidade; a potência de comer juntos e juntos lutar por um direito humano básico que nos mantenha saudáveis e unidos.
- Em artigo você fala sobre Locavorismo. O que é isso e quais seus benefícios?
É um movimento que se estabeleceu no hemisfério norte – especialmente EUA e Canadá - e que evidencia a produção e o consumo de alimentos produzidos localmente, por agricultores familiares. É um tipo de ativismo alimentar que foca na valorização dos patrimônios alimentares locais e nos produtos  sazonais, frescos e rastreáveis. Preocupa-se com a economia de combustível e com os gastos com transporte de alimentos, além de ser um estímulo ao capital social do agricultor e à economia local, já que o dinheiro gasto localmente gera mais renda para a comunidade. É um tipo de declaração de independência das grandes redes varejistas e promove a autonomia do locavore, o consumidor que compra alimentos locais. No Brasil, as diretrizes e os princípios da Agricultura Familiar Orgânica e da Agroecologia parecem cobrir as demandas e os anseios do Locavorismo, mas é sempre bom ver outros formatos de ativismo alimentar surgindo pelo mundo. E sempre podemos trazer algum aprendizado desses movimentos para colocar em prática.
- Que bons exemplos e práticas conhece no Espírito Santo relacionados aos alimentos orgânicos?
São 1.300 produtores em todo o Estado que produzem orgânicos e mais de 300 em transição agroecológica. Todos essas iniciativas são excelentes exemplos de como produzir comida saudável junto com dignidade social, meio ambiente preservado e coragem para resistir a um sistema agroalimentar perverso, que é insustentável e incompatível com a vida e com a felicidade. Minha reverência a todos esses heróis capixabas.