A Amazônia desequilibrada

Publicado em 06/12/2018 por Lúcio Flávio Pinto

A indicação de Carlos von Doellinger para ser o novo presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) no governo Bolsonaro me fez voltar mais de quatro décadas atrás. O marco é 1975. Foi nesse ano que o governo federal, comandado pelo prussiano general Ernesto Geisel, lançou o mais importante e consistente plano de desenvolvimento destinado à Amazônia, o II PDA, que teria vigência quinquenal, entre 1975 e 1979.
O instrumento principal do plano era o Polamazônia, um programa através do qual o governo intensificaria o investimento em 15 polos selecionados na região por sua maior capacidade de retorno, em função dos seus recursos agrícolas, pecuários e (sobretudo) minerais.
O governo tinha pressa em gerar renda, especialmente em moeda estrangeira, pela exportação de bens de aceitação no mercado internacional, já indicados em levantamentos científicos de recursos naturais, em especial o sofisticado Projeto Radam (Radar da Amazônia), com o uso da melhor tecnologia da época, incluindo imagens de satélite.
O governo forneceria infraestrutura, principalmente energia (começaria a construir a quarta maior hidrelétrica do mundo, de Tucuruí, no rio Tocantins, no Pará, justamente em 1975), a grandes empresas, incentivando-as a desenvolver empreendimentos de grande escala, intensivos em capital e tecnologia para ter competitividade internacional. O mais bem sucedido deles foi a mineração em Carajás, onde se localiza a maior concentração de minério de ferro de alto teor e outras substâncias do planeta, escoadas pela maior ferrovia de carga do mundo.
A concentração de capital e infraestrutura em pontos privilegiados do vasto território amazônico haveria de gerar efeitos negativos ao conjunto e desfavorecer os que não fossem alcançados pelos investimentos prioritários, voltados para a exportação, que tornaram o Pará o terceiro mais importante Estado da federação no comércio exterior brasileiro.
Os formuladores desse modelo sabiam bem disso. Tanto que não se viram constrangidos em proclamar que se tratava de um modelo de desenvolvimento desequilibrado. Acrescentavam a ele, porém, um aditivo: modelo de desenvolvimento desequilibrado corrigido. O desequilíbrio era natural. A correção seria feita por um ato de vontade.
O Brasil desse período, do “milagre econômico”, que fazia o PIB crescer a taxa em torno de 10% ao ano, era obrigado a aceitar (ou estava convencido pela retórica oficial) de que o bolo deveria primeiro crescer para depois ser dividido. Quem assinava o compromisso eram os tecnocratas, convocados pelos militares, em geral desfavorecidos na sua formação pelo desconhecimento dos meandros econômicos, a dar um jeito nessas contradições e paradoxos.
O bunker em 1975 estava no Ipea, sob a proteção do economista piauiense João Paulo dos Reis Velloso, que hoje anima debates sobre os rumos do Brasil em um instituto privado, e a cuja presidência deverá chegar von Doellinger, um dos tecnocratas do regime militar que sobreviveu em sua carreira universitária (na Universidade Federal do Rio de Janeiro) e no próprio Ipea. Ele poderá verificar que não faltou desequilíbrio na Amazônia com o modelo de quatro décadas atrás. Mas faltou correção – e muita. Efeito incorrigível ou ainda há o que fazer a respeito? Como diria Hamlet, pela pena de Shakespeare, esta é a questão.