Análise: Ordem de prisão contra Cristina Kirchner impõe dilema a Macri

Publicado em 07/12/2017 por O Globo

BUENOS AIRES - Em março passado, ele foi o primeiro juiz em determinar que um dos processos contra a ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015) passasse para a etapa de julgamento oral. Também foi o magistrado que atreveu-se a congelar contas de Cristina e seus filhos e até mesmo dinheiro guardado em cofres bancários. Nos últimos dois anos, o juiz Claudio Bonadio deixou clara sua decisão de avançar contra a ex-chefe de Estado e sua família e por isso não surpreendeu que tenha sido ele quem pediu a suspensão da imunidade parlamentar de Cristina, seu indiciamento e prisão no caso pelo suposto acobertamento de funcionários iranianos acusados de terem participado do atentado à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 1994.

Trata-se da denúncia apresentada pelo procurador Alberto Nisman poucos dias antes de ser encontrado morto no banheiro de seu apartamento do bairro portenho de Porto Madero. Um caso delicado, que acabou virando uma enorme dor de cabeça para a ex-presidente.

O governo de Cristina Kirchner é suspeito de ter mandado assassinar Nisman. Em setembro passado, mais de dois anos e oito meses após o misterioso falecimento do procurador, a Justiça argentina divulgou um novo relatório sobre o caso, elaborado por 24 peritos da Gendarmeria (força de segurança nacional) e no qual afirma-se que Nisman foi assassinado por duas pessoas. A hipótese de suicídio, levantada no começo das investigações e defendida publicamente pela própria Cristina, foi definitivamente descartada.

Com a hipótese de assassinato confirmada, Bonadio fechou ainda mais o cerco sobre a ex-presidente e seus ex-colaboradores. O juiz também ordenou a prisão do ex-chanceler Héctor Timerman (que por motivos de saúde será domiciliar), do ex-secretário Legal e Técnico Carlos Zannini (um dos homens mais fortes de todos os governos kirchneristas) e de dois dirigentes sociais dos chamados movimentos piqueteiros, fortemente vinculados à comunidade iraniana na Argentina.

O caso iniciado pela acusação de Nisman e agora em mãos de Bonadio reativou-se com a descoberta de uma comunicação entre Timerman e representantes da comunidade judaica argentina, na qual o ex-ministro, segundo informações divulgadas pela imprensa local, reconhece que o governo Kirchner sabia da responsabilidade do Irã no atentado que matou 85 pessoas.

Na semana em que retornou ao Congresso como senadora pela província de Buenos Aires, Cristina enfrenta agora um pedido de detenção que obrigará o novo Congresso argentino, eleito em outubro passado, a definir seu futuro. O caso em mãos de Bonadio implica uma acusação de traição à Pátria, que tem condenação máxima de 25 anos de prisão. Com a resolução desta quinta, o juiz avançou sobre a ex-presidente mas, também, instalou um dilema para o governo Macri. O que farão os congressistas da aliança governista Mudemos no Parlamento? Darão sinal verde ao pedido de suspensão da imunidade de Cristina? A pergunta não tem, ainda, uma resposta clara.