As crises econômicas podem ser más conselheiras

Publicado em 14/11/2017 por O Fluminense

As crises econômicas costumam produzir um ambiente social contaminado por uma sensação de insegurança em relação ao futuro. E diante de um cenário de incertezas, podemos ser facilmente seduzidos por soluções políticas ilusórias. Nestes momentos sempre surgem os oportunistas de ocasião, que assumem conscientemente o papel de "Salvadores da Pátria", com o claro propósito de explorar as nossas fraquezas humanas.

Nos anos 80 do século passado o Brasil e a América Latina vivenciaram uma profunda crise econômica, decorrência imediata de uma forte retração da atividade produtiva na região. Estes anos marcaram a nossa História e ficariam conhecidos como a "Década Perdida". Mas apesar das nossas dificuldades econômicas, na segunda metade da década de 1980 a sociedade brasileira experimentava uma onda de relativo otimismo, pois as eleições presidenciais de 1989 coroaria o retorno do país à normalidade democrática. Muitos acreditavam que a escolha do novo presidente deveria recair sobre uma das lideranças políticas que resistiram e combateram a Ditadura Militar implantada com o Golpe de 1964, mas o resultado daquela eleição acabou frustando às expectativas de grande parte da população.

As eleições de 1989 foram realizadas durante o governo José Sarney (PMDB) que administrou o país de 15 de março de 1985 a 15 de março de 1990. Eleito indiretamente por um Colégio Eleitoral no final da Ditadura Militar, o governo Sarney ocorreu ao longo de uma das priores crises econômicas do país, e no final de seu mandato as pesquisas de opinião apontavam que sua gestão era aprovada por apenas 7% da população. A conjugação de crise econômica e de um governo impopular não foram os únicos fatores que influíram no resultado eleitoral de 1989, mas acreditamos que estes dois elementos concorreram decisivamente para a tomada de decisão dos eleitores.

Na referida eleição presidencial foram habilitados 22 candidatos, mas no 1º Turno eleitoral 15 postulantes ao cargo tiveram um desempenho inexpressivo, e cada um deles recebeu o apoio de menos de 1% do eleitorado. O resultado das urnas do 1º Turno também afastaram da disputa as candidaturas de importantes lideranças políticas que se destacavam no cenário nacional, tais como: Leonel Brizola (PDT), Mario Covas (PSDB), Paulo Maluf (PDS) e Guilherme Afif Domingos (PL). Nem mesmo a candidatura de Ulysses Guimarães (PMDB) foi poupada. Embora o PMDB fosse a maior máquina partidária do país, o candidato Ulysses Guimarães obteve apenas 4,73% dos votos. As duas candidaturas que disputaram o 2º Turno (Collor e Lula) não representavam uma continuidade do governo Sarney, e no tocante à superação da crise econômica possuíam projetos bem distintos. No entanto, Fernando Collor de Mello obteve a preferência dos eleitores nos dois turnos, e foi eleito presidente com 53,03% dos votos, enquanto o seu adversário (Lula) alcançou 46,97% dos votos válidos.

Fernando Collor de Mello concorreu por uma pequena legenda partidária (PRN), e não possuía uma trajetória de vida pública que o colocasse entre as principais lideranças políticas do Brasil. No entanto, com o apoio de grande parte da mídia, principalmente no 2º Turno, conseguiu difundir a imagem de uma "nova liderança" que poderia conduzir o Brasil, e ao mesmo tempo levar o país a superar a crise econômica daquela época. Utilizando discursos sempre marcados por ideais de autoridade, austeridade e modernidade, o "Caçador de Marajás", como Collor ficou conhecido, acabou seduzindo parte dos eleitores. As eleições de 1989 foram realizadas em meio a uma grave crise econômica que submetia a população a grandes sacrifícios. Ao buscarem soluções imediatistas para os seus sofrimentos, a maioria dos eleitores depositaram todas as suas esperanças em Fernando Collor de Mello. Mas a sociedade brasileira acabou percebendo que Collor não passava de um "vendedor de ilusões", e com a descoberta de desvios de conduta durante o exercício do poder o presidente foi afastado definitivamente do cargo.

O atual momento histórico possui as suas especificidades, mas guarda algumas semelhanças com o quadro eleitoral de 1989.

O governo Michel Temer nasceu com um vício de legitimidade, uma vez que uma parcela da população nunca reconheceu o impeachment da presidente Dilma Rousseff como um processo regular. Por outro lado, o projeto político que vem sendo implantado pelo atual governo não foi aprovado pelas urnas, criando um sentimento de que as mudanças adotadas estão sendo impostas à sociedade através de uma maioria parlamentar construída sob bases pouco republicanas. A crise econômica continua sacrificando a população, e não dá sinais de que será superada num curto espaço de tempo. Por último, o governo Michel Temer alcança altos índices de rejeição, e conseguiu a proeza de ser a administração mais impopular após a redemocratização do país, sendo aprovada apenas por 3% da população.

O quadro acima descrito não deverá sofrer grandes alterações até as eleições de 2018, e estes fatores acabarão influenciando os eleitores. As peças do tabuleiro eleitoral já começaram a ser mexidas, e as candidaturas no campo oposicionistas estão sendo construídas. Lula desponta como franco favorito em todas as pesquisas, e Ciro Gomes (PDT) vem buscando ampliar sua base de alianças, tentando se colocar como uma alternativa para a hipóteses da candidatura de Lula ser inviabilizada por uma decisão judicial.

O Deputado Federal Jair Bolsonaro pode ser considerado um outsider. Sua candidatura guarda semelhanças com a candidatura de Collor em 1989, mas adota um discurso político muito mais estreito, e este fator dificulta a ampliação da sua aceitação popular. Ainda é cedo para sabermos se terá fôlego para manter-se na disputa.

A grande incógnita está no campo governista, onde ainda há uma completa indefinição. Não resta dúvida de que as forças políticas que dão sustentação ao governo Michel Temer pretendem se perpetuar no poder, mas dificilmente conseguirão viabilizar uma candidatura que se apresente a sociedade como a continuidade do atual projeto de governo. Mas qual será a estratégia que os governistas irão adotar? O PSDB está buscando uma primeira alternativa. A proposta de afastamento de seus quadros do governo Temer tem o objetivo de tentar construir uma candidatura despida da marca governista, mas que certamente dará seguimento ao mesmo projeto. Mas conseguirão operar esta obra ilusionista, e convencer o eleitor de que não possuem nenhuma responsabilidade com os resultados do governo Temer?

Ainda teremos uma longa caminhada até as eleições de 2018, e estas serão um importante teste para a nossa democracia. Novamente iremos realizar uma eleição num cenário de grandes dificuldades em que a população está sendo submetida a enormes sacrifícios. As crises econômicas podem ser más conselheiras, mas acreditamos que a população brasileira terá maturidade política suficiente para não se deixar seduzir por ilusórias candidaturas de "Salvadores da Pátria".