As duas almas do movimento vegano

Publicado em 31/01/2020 por Outras Palavras

Uma vertente consumista, já abraçada por grandes corporações, nada diz sobre a desigualdade e exploração. Mas o veganismo ético propõe novas relações com a natureza e entre os seres humanos. O primeiro contradiz e sabota o segundo
bigvegan.jpg

Por Benjamin Selwyn, no Le Monde Diplomatique, edição inglesa | Tradução: Antonio Martins| Imagem: Hartmut Kievert

O Veganuary, janeiro vegano, de 2020 foi, em diversos países do mundo, o maior de todos os tempos. No Reino Unido, por exemplo, mais de 250 mil pessoas haviam prometido ser veganas em janeiro de 2019. Neste ano, os números são ainda maiores. Não é tendência passageira. Mais de 800 mil pessoas deixaram de comer produtos animais no país, no ano passado, e uma parcela ainda maior da população – em torno de 6%, ou 3,5 milhões de pessoas – identificam a si mesmas como veganas.
Esta mudança de dieta reflete uma preocupação cada vez mais popular sobre a necessidade de sistemas alimentares que melhorem a saúde humana e o bem-estar animal, sem destruir o planeta. É particularmente difundida entre os jovens, que tendem a ser mais politicamente ativos e preocupados com a crise climática global que as gerações anteriores.
Embora o veganismo seja frequentemente apresentado, na mídia mainstream como mais um comportamento de moda, a realidade é que ele compreende duas abordagens distintas sobre nosso lugar no mundo.
Por um lado, ele é big business – como mostram o hambúrguer vegano “rebelde” do Burger King e a rápida expansão de substitutos de carne nas redes de varejo. O veganismo consumista apela ao individualismo e a uma fé no poder dos mercados capitalistas. Segundo esta perspectiva, se um número suficiente de pessoas mudar para dietas baseadas em vegetais, os mecanismos de mercado produzirão saídas ambientalmente saudáveis.
Por outro lado, uma política vegana mais radical está chegando às manchetes. É o que mostra a vitória judicial de Jordi Casamitjana, trabalhador inglês demitido da Liga Contra os Esportes Cruéis após revelar que a empresa investia em fundos de aposentadoria envolvidos em testes com animais.
Casamitjana argumentou ter sido discriminado em seu local de trabalho devido a sua postura de ética vegana. Como vegano, ele mantém uma dieta baseada em vegetais. No entanto como ético vegano, ele também busca evitar contato com qualquer produto derivado da exploração animal, ou capaz de provocá-la. O tribunal julgou que o veganismo ético é uma postura filosófica protegida por lei contra discriminação.
Outro exemplo é a petição massiva para que a Sociedade Vegana classifique o óleo de palma [ou óleo dendê] como um produto não vegano. Segundo o Greenpeace, a produção do óleo da palma na Asia destruiu, nos últimos três anos, uma área de floresta tropical quase duas vezes maior que Singapura, colocando o orangotango e outras espécies à baira da extinção
A produção de óleo de palma é talvez o aspecto mais visível de como mesmo produtos não relacionados à carne podem ter efeito devastador sobre os animais.
O agronegócio – produção em monocultivo, baseada no uso intenso de pesticidas, herbicidas e fertilzsntes – está extinguindo as populações de insetos numa escala inédita. Isso, por sua vez, atinge redes alimentares mais amplas, contribuindo para a queda abrupta das populações de pássaros.
O que há em comum entre o caso judicial de Casamitjana e a petição contra o óleo de palma é a noção política do veganismo. O primeiro caso indica a necessidade de proteger a ética vegana, limitando o poder das corporações para empregar e demitir. O segundo mostra que uma sociedade vegana exige regular as forças de mercado envolvidas na produção e consumo de alimentos e outros produtos.
A Sociedade Vegana, fundada no Reino Unido em 1944, buscava estabelecer uma filosofia e modo de vida que excluíam, tanto quanto possível, todas as formas de exploração e crueldade com os animais. Os primeiros veganos apresentavam esta filosofia como “um modo de vida preocupado em viver sem ferir outros seres… o que evita explorar nossos semelhantes humanos, a população animal ou o solo, do qual dependemos para nossa própria existência”.
Um abismo ideológico separa o veganismo consumista mainstream, que nada tem a dizer sobre a exploração de “nossos semelhantes humanos” das bases mais políticas do veganismo ético. Em diversos sentidos, o primeiro contradiz e potencialmente sabota o segundo.
Os impactos do veganismo consumista no sistema global de produção de alimentos serão similares a processos anteriores de ampliação dos mercados – a captura de terras camponesas, a devastação ambiental e a exploração do trabalho. O caso emblemático é o atual boom do avocado: a crescente demanda pela fruta de moda está acelerando o deflorestamento e a contaminação do solo no México e Chile.
A exploração do trabalho por meio de salários de miséria desestrutura muitos sistemas agrícolas. Nos EUA, por exemplo, cerca de um terço dos agricultores, muitos dos quais são migrantes sem direitos civis efetivos, recebem renda abaixo da linha nacional de pobreza. O trabalho forçado é comum, no setor de vegetais e frutas do sul da Europa, que supre muitos supermercados na zona rica do Velho Continente.
A adoção de linhas de produtos sem carne pelas redes de fast food como o Burger King é orientada pela intenção de maximizar lucros, não pela busca de bem-estar animal. Tais estratégias procuram atrair novos consumidores a comprar um mix de produtos inovadores e mais tradicionais. Como notou José Cil, o exegutivo-chefe da controladora do Burger King, “Não vemos os clientes trocar o hambúrguer original pelo vegano. Vemos que estamos atraindo novos consumidores”.
O resultado geral é fortalecer, e não alterar fundamentalmente, o modelo de negócios atual. No caso de setor de fast food, significa manter as vendas de produtos baseados em carne.
O veganismo ético, ao contrário, baseia-se em notáveis fundamentos filosóficos anti mercado. Ele aponta para uma compreensão mais holística do mundo, enraizada na aversão à exploração. No contexto atual, tem muito em comum com outros protestos políticos, como as greves globais pela clima e o Extintion Rebellion.
A produção e o consumo de alimentos saudáveis e ambientalmente sustentáveis, livres de exploração humana e animal, exige mais que mudanças de dieta. Requer nada menos que uma transformação fundamental no modo como os humanos relacionarem-se entre si e com a natureza..
Enquanto o veganismo orientado pelo consumo contribui para a contínua expansão de um mercado devastador, o veganismo ético acentua como a construção de um mundo mais justo exige restringir a operação dos mercados capitalistas. As duas almas do veganismo são antagônicas: a variante consumista promete sabotar os objetivos do veganismo ético.
Muito do entusiasmo em torno do Veganuary reflete os desejos das grandes corporações por novas oportunidades de lucro. Mas o potencial político do veganismo ético está se tornando cada vez mais visível. Se ele florescer e puder influenciar nosso pensamento sobre as políticas necessárias para melhorar as condições de vida dos humanos, dos animais e do mundo natural, então grandes mudanças estarão à vista.

BENJAMIN SELWYN
Professor de Desenvolvimento Internacional na Universidade de Sussex, Reino Unido, onde ministra, entre outros, um curso sobre Política Global de Alimentos. Seu novo livro terá como título "Green Food, Green Planet"