Eduardo Salazar: "Nosso propósito é formar cidadãos com sensibilidade"

Publicado em 16/04/2018 por A Tarde - BA

O maestro venezuelano Eduardo Salazar está integrando a equipe do Neojiba - Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE
O maestro venezuelano Eduardo Salazar está integrando a equipe do Neojiba

À frente de um ensaio dos Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia, o Neojiba, Eduardo Salazar alterna broncas e sorrisos como se harmonizasse notas em seu violino. "Aqui não tenho nada a dizer, a não ser que abram os olhos", ralha com o grupo, para em seguida repetir com um risinho: "Mejor, mejor". Venezuelano, o violinista e maestro está vivendo em Salvador. Conta que já pensava na mudança há alguns anos, mas o agravamento das crises econômica e política no seu país hão de ter pesado na escolha. Quando menino, Eduardo sonhava ser jogador de beisebol, mas acabou tornando-se uma das revelações do Sistema Nacional de Orquestras e Coros Juvenis e Infantis da Venezuela, mais conhecido como El Sistema. Criada em 1975 pelo maestro José Antonio Abreu, a instituição apoia cerca de 900 mil crianças e jovens e inspirou programas similares ao redor do mundo, como o Neojiba. A missão de um e outro é clara e grandiosa: "Construir uma sociedade melhor". 

Quando o senhor conheceu o Neojiba pela primeira vez? Com que impressão saiu daqui?

Estamos trabalhando juntos desde 2009. Para mim, pessoalmente, foi como um amor à primeira vista. É um programa maravilhoso, que está liderado por um grande maestro, Ricardo Castro.  É uma pessoa que está entregando a sua vida a este projeto, manhã, tarde e noite, então, o êxito está garantido. Evidentemente, com todo o apoio do Estado e o apoio do povo, da cidade, que apoiam o programa. 

O Neojiba é inspirado no programa El Sistema, da Venezuela. Que tipo de nuances, de mudanças, você percebeu no programa brasileiro?

Tem muitas semelhanças, mas o êxito verdadeiro do Neojiba é que está sendo adaptado à região, porque se se copia, é impossível que tenha sucesso como está tendo. Cada lugar tem seu encanto, suas características. Mas o mais importante é que a essência social, a essência de crescer juntos estão preservadas. Estava agora no ensaio com jovens da primeira geração do Neojiba. Isso é um triunfo, porque mostra o resultado do trabalho. Eles são os multiplicadores. A base fundamental do programa Neojiba é a multiplicação. Então, essa já é uma grande conquista dos primeiros dez anos. 

Mas que diferenças você viu aqui que não existem no projeto venezuelano?

Há uma forma de tocar, a alegria... O povo baiano é um povo com uma alegria contínua, perpétua. E isso acaba sendo levado à música. A música clássica passa a ter um toque, uma particularidade única daqui. No Neojiba, estão trabalhando em diferentes áreas. O projeto de corais avançou muito, a iniciação musical, as orquestras de música folclórica... Tem orquestras de violão [cordas dedilhadas], também. Nós temos lá as orquestras de cuatros, com harpa [venezuelana], cuatro e maracas, que são instrumentos típicos da região.  E aqui temos com instrumentos típicos da Bahia, o que é importantíssimo. 

As apresentações do Neojiba e também do El Sistema são mais descontraídas que a imagem que temos dos concertos de música clássica. Como conciliar essa leveza mostrada ali com o rigor dos ensaios, com a qualidade musical que se propõe?

A essência mesma do projeto é que tudo tem que ser feito com qualidade. Porque nós não estamos apenas formando músicos. Nossa função é formar indivíduos de bem, que não necessariamente serão músicos. Aí nós temos jovens que talvez se tornem advogados, engenheiros, médicos, mas se partem da excelência de que têm que cuidar dessa nota, que têm que passar o arco [do violino] bem, a afinação, zelar pelo trabalho em equipe... Saber que se eu toco uma nota mal, estou dando trabalho a meu companheiro. Então, tudo isso, essa solidariedade, esse companheirismo, essa lealdade, essa união é uma escola de vida. A essência da qualidade do trabalho artístico, musical, é algo que eles levam depois para a sociedade. Imagine então o país que vamos ter. Um país em que o engenheiro se responsabiliza de que o asfalto tem que ficar perfeito, lisinho; que o responsável pela limpeza da praia saiba que não pode deixar nenhum lixo; que o médico seja solidário, que esteja tratando de salvar a maior quantidade de vidas. E assim em todas as áreas que se baseiem no companheirismo, na solidariedade, na excelência do trabalho. Aqui, o importante é isso. Claro que exigimos muito dos jovens que estão aqui, porque se eles vêm simplesmente para se divertir, não estaremos ensinando nada, agregando nada. Não pode ser assim. E aí a diversão vem depois do êxito de alcançarmos as metas. Depois de tocarmos muito bem, então vamos nos divertir, desfrutar, e assim é a construção de cada semana, de cada projeto, de cada ensaio.  

O universo da música clássica é conhecido por recompensar poucas pessoas, os virtuoses, os músicos que atingem uma qualidade excepcional. Como conciliar isso com o trabalho com grandes grupos, como acontece com o El Sistema e com o Neojiba? Há essa ideia repassada aos meninos e meninas de que todos poderão viver de música?

É um programa de massa. Os que vão ser músicos, as portas do mundo musical estão abertas, evidentemente. Mas a essência primordial não é a de que sejam os maiores músicos. Não. É um programa de massa, com fim social. De excelência artística, sim, mas um programa social. Muitos chegarão a ser grandes intérpretes, seguramente sim, e chegarão muito longe. Tem uma menina que saiu daqui, uma violonista, que foi estudar na Filarmônica de Berlim [Geisa Santos]. E saiu daqui do Neojiba. É uma coisa inacreditável. É um feito sem precedentes na história da música daqui da região. E há outros que saíram do programa e estão na área da educação, e são os melhores professores. E outros que ingressaram em outras profissões, que estão na universidade... Então imagine em 10, 15 anos, os meninos que saíram daqui poderão estudar economia, finanças e, depois, trabalhar em parlamentos, em governos, prefeituras. Eles vão ter uma preocupação social, porque se formaram em um programa que lhes ensinou  isso. Na Venezuela, aconteceu isso. Temos pessoas que saíram do El Sistema, são economistas e hoje trabalham em ministérios, em diferentes prefeituras. E sua formação  no El Sistema permitiu que eles tivessem uma filosofia de vida distinta. Claro que a esperança que cada um carrega de viver de música, se for esse seu sonho, vai existir. E aquele que se esforça para conseguir isso vai conseguir. A ilusão e o sonho são permanentes. Jovens são sonhadores, artistas são sonhadores. Mas nosso propósito é formar bons cidadãos, com sensibilidade, que possam de todo modo apoiar a cultura. Certamente, serão os primeiros a defender uma orquestra, a apoiar todas as iniciativas culturais, para construir uma sociedade melhor.

Quando a gente pensa em países com muitas pessoas pobres, como o Brasil, a Venezuela, o mais comum seria imaginar que um programa deste porte fosse voltado apenas para os mais vulneráveis. E o El Sistema e o Neojiba optaram por reunir crianças e jovens de todas as classes sociais. Que ganhos essa escolha traz ao programa?

Acho que os primeiros que se beneficiam são os meninos e meninas. Porque nossa filosofia, que nos foi ensinada pelo maestro José Antonio Abreu, fundador do El Sistema, é que uma criança materialmente pobre, imediatamente que tenha um instrumento nas suas mãos, e que comece a fazer música, sua alma se enriquece. Passa a ser espiritualmente rico, e já muda tudo. O maior problema da pobreza é a depressão, a tristeza que faz com que a pessoa desista de buscar superar as dificuldades, de buscar melhores condições de vida. Quando você carrega um instrumento, isso já melhora a autoestima, já te alimenta, você já passa a ser rico espiritualmente. Aquele menino passa a enfrentar a vida de uma maneira diferente, com todo o desejo de superação. Todas as crianças e jovens aprendem da mesma forma. Todos têm a mesma possibilidade de aprender. Aqui ninguém menospreza o outro por vir de uma origem diferente da sua. Aqui todos somos músicos. No começo, ninguém nem sabe de onde o outro vem. E todos estão ali tocando juntos. E soa maravilhosamente. E depois que se integra e descobre de onde cada um vem, já não faz diferença. Eu mesmo venho de uma família muito humilde.  Meu pai foi um dos fundadores do El Sistema e vem de uma favela no estado de Carabobo, em Valencia. Quando estudava no colégio, a gente comprava um pão de queijo para comer e um refrigerante, e dividíamos entre todos. E depois tocava violino. Agora estou em uma situação distinta, com uma melhor qualidade de vida. Mas estão abertas as portas para todos os meninos e meninas, de qualquer estrato social. Estamos abertos a fazer música e a que sejamos melhores cidadãos e melhores pessoas dia a dia. 

Como as crises econômica e política da Venezuela estão influenciando a manutenção do El Sistema? 

É uma situação muito difícil a do país neste momento. É um país jovem, que está em contínua renovação, e esperamos todos que logo o país tome um rumo diferente e se respeitem os direitos fundamentais a qualquer ser humano, o direito à saúde, à educação, à alimentação e o direito à vida. Esperamos, com fé em Deus, que logo a Venezuela seja um país diferente. 

Mas há muitas mudanças no programa hoje por causa dessas questões?

Bom, digamos que não há tantos projetos ativos neste momento, porque evidentemente há uma crise econômica, mas o trabalho social é permanente e está em contínuo crescimento, porque o trabalho com os jovens não pode parar.  A educação e a ajuda aos jovens não podem parar nunca, ao contrário. Nesse momento de crise, é quando mais precisamos destas ações, quando mais precisamos seguir adiante. O lema do El Sistema é tocar e lutar. Já tocamos bastante. Agora estamos num momento de luta. 

O senhor está vivendo em Salvador.

Sim, tenho uma relação já de oito anos com o programa Neojiba e fiquei apaixonado desde o primeiro dia por todas as crianças e jovens que fazem parte desse projeto, me inspiro muito no projeto de Ricardo Castro, que está fazendo tudo para incentivar as crianças e jovens da cidade, do estado. E senti que aqui, neste momento, posso dar uma pequena contribuição na construção deste maravilhoso projeto. 

Foi uma decisão por conta da crise?

Já há dois anos estava vindo para cá com mais frequência, participei das comemorações pelos 10 anos, então, tudo já indicava que era o momento de vir um tempo para cá. 

Como o senhor avalia a maneira como o governo brasileiro está lidando com a chegada dos imigrantes venezuelanos ao Brasil?

Penso que está muito bem. O governo brasileiro tem aberto as portas de uma maneira maravilhosa. Pessoalmente, estou muito agradecido com o apoio que recebi e que pessoas conhecidas também têm recebido. Estou mais que agradecido. 

O senhor escuta música brasileira, baiana?

Sim, estou começando a descobrir.  Vou pela praia, por toda a orla, e é incrível toda a quantidade de música que se ouve. E aqui todo mundo anda como se estivesse dançando.  Estou ouvindo um pouco de tudo e é incrível. Ivete Sangalo vive aqui na esquina da praça! É incrível tudo isso, o mundo da música popular brasileira. E agora estou me dando conta de que muitos dos grandes artistas brasileiros são baianos.  Estamos no berço da música. Incrível. 

Quando você começou na música? 

Comecei com 8 anos.  Como te falei, meu pai foi um dos fundadores do El Sistema. Sempre fui rodeado por instrumentos musicais. Aprendi a caminhar no local onde a Orquestra Simon Bolívar ensaiava. Conheci o maestro Abreu quando tinha um mês de nascido. Quer dizer, ele me conheceu, porque eu não poderia lembrar (risos).  Mas só comecei a tocar violino aos 8 anos. Na Venezuela, se joga beisebol como aqui se joga futebol. E eu queria ser um jogador de beisebol. Joguei até os 14 anos. Como sou baixinho, não pude continuar, mas por muitos anos o violino foi algo secundário.  

E se arrependeu da escolha?

Não, não, não. Depois de um tempo comecei a descobrir um mundo na música que foi maravilhoso. Mas fiquei nas duas atividades por alguns anos. Minha vida era beisebol e música. Saía de um para o outro.  Até que comecei a evoluir na música, surgiram oportunidades incríveis, e aí por causa do meu tamanho... Já não estava dando tantos resultados no beisebol. Então, fiquei com a música.