Em Los Angeles, mostra Axé Bahia cede ao fetiche do corpo negro 

Publicado em 13/02/2018 por Folha de S. Paulo Online

"Jexus." Enquanto Salvador treme ao som do Carnaval, essa palavra que junta o filho do Deus católico com o Exu do candomblé estampa em letras vermelhas as paredes brancas do Museu Fowler, em Los Angeles, na maior mostra do que entendem como arte afro-brasileira já realizada nos Estados Unidos.

Dos trabalhos mais simples e poderosos da exposição batizada "Axé Bahia", o estêncil de Àlex Ìgbó é um contraponto a obras ali que falam em separação e preconceito.

Seu híbrido de divindades sugere fundir, em vez de apartar, mas ironiza o mito da democracia racial ainda em vigor num Brasil mestiço usando os mecanismos da arte de rua é ao mesmo tempo afirmação, denúncia e protesto.

Na contramão desse gesto, o abre-alas da mostra é um aquário criado por Ayrson Heráclito, um dos nomes mais relevantes no panorama brasileiro atual, em que uma camada de azeite de dendê num tom laranja radioativo não se mistura com a água salgada no fundo do tanque.

Seria uma alusão a feridas históricas que não se fecham com o tempo e à travessia do Atlântico por navios negreiros que despejaram na costa baiana um povo destinado aos horrores da escravidão.

Num vídeo, que estreou na última Bienal de Veneza e agora está em Los Angeles, Heráclito aparece fazendo um ritual de limpeza num porto do Senegal de onde saíram escravos traficados para o Brasil e também em Salvador, onde eles foram parar.

Seus gestos delicados contrastam com a natureza macabra de um trabalho de Caetano Dias na sala ao lado, onde dezenas de cabeças de açúcar fundido parecem ter rolado por debaixo de uma mesa de lados desiguais metade do móvel poderia estar na casa-grande e a outra metade parece saída da senzala.

VERTIGEM

Um sentimento de culpa e impotência atravessa esses trabalhos e sublinha outra estranha vertigem por mais que ilumine a arte negra da Bahia, a mostra não deixa de transformar em fetiche o corpo negro, a capoeira, as baianas de saias brancas rodadas.

O modernista Rubem Valentim, um dos artistas históricos ali e um dos poucos negros a vencer a barreira racial que fez das vanguardas artísticas no Brasil uma coisa de burgueses brancos, é celebrado pela forma como infiltrou símbolos do candomblé na matriz geométrica moderna.

É como se a potência inquestionável de sua obra se devesse toda a um ato de sabotagem ou tráfico subversivo de uma iconografia marginalizada para dentro do movimento que anunciava em grande medida um futuro maquinal, clean e branco.

Valentim não está mal representado nem deslocado na mostra, mas torna gritante a impermeabilidade do establishment artístico brasileiro a artistas negros como ele.

Outros nomes brancos da arte do país também estão na mostra com visões erotizadas, exuberantes ou até românticas da negritude.

Pierre Verger, Mario Cravo Neto e seu filho Christian Cravo retratam homens negros contra o horizonte fulgurante de Salvador, a pele quase prateada, e mães de santo em transe comandando terreiros.

Magnéticas, as obras sustentam o imaginário de uma Bahia negra e fantástica, capaz de agradar a plateia local e levantar questões sobre relações fraturadas e doídas dos EUA com seus artistas negros.

Num alerta contra a negritude idealizada e ultrajada, Tiago Santana raspou os cabelos formando a palavra Cabula, bairro de Salvador onde 12 jovens negros foram mortos pela polícia há três anos. O vídeo austero do artista contra fundo branco encerra a mostra e desmonta sua queda por delírios e ilusões.