Emissões de bônus no exterior caem 25% no primeiro semestre

Publicado em 12/07/2018 por Valor Online

Emissões de bônus no exterior caem 25% no primeiro semestre

Silvia Costanti/Valor

Leoni, do J.P. Morgan: empresas foram buscar alternativas de captação de recursos nos mercados doméstico e bancário

O volume de emissões de títulos de dívida brasileiros no exterior caiu 25% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado, somando US$ 12 bilhões - menor volume desde 2016. O cenário internacional mais adverso para ativos de mercados emergentes, diante da alta da taxa de juros americana, e a piora da percepção de risco em relação ao Brasil diante das incertezas no campo político explicam essa queda. E a perspectiva é que, até as eleições, será difícil ver uma retomada dessas emissões. "Se tivermos a vitória de um candidato com posicionamento pró-reforma, novembro pode ser um mês atípico de retomada das emissões de bônus", diz Gustavo Siqueira, diretor-executivo do Morgan Stanley no Brasil.

Contudo, os analistas dizem que dificilmente será superado o volume de emissão de bônus registrado no ano passado, que somou US$ 31,575 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

As emissões de mercados emergentes como um todo recuaram no primeiro semestre, tendo somado US$ 386,993 bilhões, queda de 6% em relação ao mesmo período de 2017, segundo dados da Dealogic. O Brasil ficou em sétimo lugar entre esses países em volume de emissão, com a China liderando o ranking.

A preocupação com a política monetária americana e questões geopolíticas, como a guerra comercial entre Estados Unidos e China, levaram a uma alta do dólar e das taxas dos títulos do Tesouro americano (Treasury), que servem de referência para as emissões na moeda americana. A taxa dos Treasuries de dez anos chegou a ultrapassar 3% com os investidores temendo um aumento maior que o esperado da taxa básica de juros americana.

Além disso, questões locais em alguns países emergentes, como a crise econômica na Argentina, a greve dos caminhoneiros no Brasil e as eleições em países da América Latina - caso de México, Colômbia e Brasil - contribuíram para aumentar a cautela dos investidores com a aplicação em ativos desses mercados. Isso levou a uma mudança nos preços dos papéis dos mercados emergentes, com muitos fundos diminuindo a posição nesses ativos.

No pico, as taxas dos bônus brasileiros chegaram a subir, em média, 125 pontos-base em relação ao verificado início do ano, mas já caíram 30 pontos, acompanhando a queda do Credit Default Swap (CDS) - que mede o risco de calote do Brasil -, ainda oscilando em nível elevado. "Houve uma piora, não somente de custo, que ficou mais caro para emitir, como também em relação ao apetite dos investidores para compra desses papéis", diz Siqueira, do Morgan Stanley.

Diante do aumento dos custos, muitas empresas brasileiras acabaram adiando as emissões de dívida no exterior ou buscaram captar recursos no mercado local que, com a queda da Selic para 6,5% ao ano, passou a oferecer condições mais atrativas. "Uma leva de empresas que tinham se preparado para acessar o mercado de bônus pela primeira vez acabou colocando as operações em espera", afirma Siqueira.

Esse foi o caso da usina Coruripe, que pretendia levantar US$ 425 milhões com a colocação de bônus para o prazo de sete anos, mas com o aumento dos custos decidiu adiar a emissão externa. Optou por uma oferta de R$ 255 milhões em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) no mercado local. "As empresas foram buscar alternativas de captação de recursos no mercado de capitais doméstico ou bancário, que ainda está bastante líquido para bons nomes [empresas com bom rating]", afirma Ricardo Leoni, diretor de mercados de capitais de dívida do J.P. Morgan Brasil.

Diferentemente do exterior, o mercado local de dívida tem uma limitação de prazo para as emissões, chegando no máximo a sete anos, e também de volume da oferta. "As empresas estão tentando resolver as necessidades de financiamento de curto prazo no mercado local e vão voltar a pensar em emitir bônus no exterior quando passar essa volatilidade", diz Siqueira, do Morgan Stanley.

A desvalorização dos títulos no mercado secundário, por outro lado, levou empresas que tinham caixa disponível a aproveitar a oportunidade para recomprar parte da dívida emitida no exterior a um preço mais baixo. Vale, Petrobras e Banco do Brasil fizeram operações de recompra de bônus neste ano.

Algumas empresas podem ainda aproveitar a recente melhora do mercado para fazer uma emissão até o início de agosto, antes das férias no hemisfério Norte, quando o mercado perde liquidez, com as operações sendo retomadas somente em setembro. "Esperamos uma estabilização dos preços dos bônus brasileiros em patamares melhores que estão hoje, mas ainda piores que no início do ano. Contudo, dependendo das pesquisas eleitorais, podemos ter uma certa volatilidade no mercado", diz Siqueira, do Morgan Stanley.

A Cemig, por exemplo, iniciou nesta semana conversa com investidores para captar até US$ 500 milhões com a reabertura do bônus com vencimento em 2024. O papel foi emitido com uma taxa de 9,25% e negociava no mercado secundário com valorização do preço, com um "yield" (taxa de retorno) de 8,75%.

Segundo o responsável pela área de renda fixa internacional do Bradesco BBI, Philip Searson, há pelo menos mais uma empresa que está na fila para acessar o mercado internacional de bônus até agosto. "Temos visto uma estabilização dos preços no mercado secundário com um pouco de melhora do humor dos investidores."

Siqueira, do Morgan Stanley, destaca que há entre três e cinco empresas prontas para fazer emissão de bônus neste ano e que podem aproveitar algumas oportunidades do mercado para saírem com essas operações.

O acesso a esse mercado, contudo, ainda está mais restrito a companhias com bons ratings de crédito. "Quem vai voltar primeiro a fazer essas operações são os emissores frequentes do mercado de bônus, principalmente empresas que não devem sofrer muito com a variação do câmbio ou com um crescimento menor do PIB ", diz Sandy Severino, diretor responsável pela área de captações externas do BTG Pactual.

O executivo do BTG afirma que as captações no mercado de bônus de países da América Latina podem voltar em setembro, mas, no caso do Brasil, os investidores estrangeiros devem esperar passar a incerteza do cenário eleitoral. "Os investidores vão esperar até outubro para ter mais clareza de quem vai ganhar a eleição."

Empresas que realizaram aquisições recentemente são candidatas a acessar o mercado de bônus se as condições melhorem. A Suzano Papel e Celulose vai emitir R$ 4,681 bilhões em debêntures como parte do financiamento com o Bradesco, que tem como objetivo alongar o empréstimo-ponte de US$ 6,9 bilhões contratado para financiar a compra da Fibria. A empresa não descarta, contudo, fazer também uma emissão no mercado externo para alongar o prazo dessa dívida.