O endereço do esquecimento

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

O endereço do esquecimento

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Praça em Hogeweyk, vila holandesa que atende idosos com demência e aposta em proporcionar ambiente de vida normal a seus residentes, com lojas, restaurantes e cinema

A 20 km de Amsterdã, 180 pessoas vivem em um vilarejo com supermercados, cinema, bares e restaurante. Seria uma cidade do interior da Holanda como outra qualquer não fosse o fato de que seus habitantes morrerão dentro de dois anos. Com mais de 80 anos, todos têm algum tipo de demência em estágio avançado. Ainda assim, levam uma vida (quase) normal.

A proposta fundadora de Hogeweyk, conhecida como a Vila da Demência, é explorar a metade cheia do copo, ou seja, aquilo que idosos com algum tipo de demência ainda conseguem fazer. "Quando começamos a buscar uma alternativa ao sistema tradicional, pensamos: é estranho, porque as pessoas com demência ainda são seres humanos e conseguem fazer muitas coisas", diz Eloy van Hal, consultor sênior de gerenciamento do Hogeweyk. "Mudamos o olhar médico para o social, para o que essas pessoas ainda podem fazer, colocando ênfase na saúde delas, e não na doença. Elas morrerão, em média, dentro de dois anos, mas se você as tranca em um hospital, aumenta o nível de estresse, e elas são incapazes de fazer o que ainda conseguiriam."

Ao começaram a pensar o que seria um ambiente normal para se viver, a atmosfera de um hospital definitivamente não estava no topo da lista. A conclusão à qual chegaram é que ele teria de ter casas tipicamente holandesas com cozinha, quarto, banheiro e porta da frente, pela qual seus moradores têm acesso à rua onde transitam outros vizinhos. "Fomos transformando as casas de repouso em um bairro com casas e ruas normais, mas pensando no suporte com médicos e enfermeiros que pessoas com demência severa precisam."

Quando começaram, em 2009, o Hogeweyk tinha 23 casas com seis pessoas cada uma. Hoje são 180 residentes e outros 270 funcionários - entre médicos, enfermeiros, cuidadores, garçons e vendedores em lojas e teatros adaptados. A ideia é proporcionar uma rotina na qual moradores possam manter "hobbies, que todos nós temos".

Van Hal se recusa a chamar os moradores de Hogeweyk de pacientes e prefere se referir a eles como residentes. "Se falarmos o tempo todo em pacientes, colocamos foco na doença em vez de na pessoa, e elas vão se sentir doentes. Elas são pacientes no momento em que tomam a medicação, mas no resto do dia são apenas pessoas vivendo com demência", afirma. É justamente por isso, explica, que a indumentária branca de médicos e enfermeiros foi deixada de lado.

Mas um serviço com tantos funcionários é mais caro que o de uma clínica tradicional? Van Hal diz que não. Segundo ele, os custos para manter Hogeweyk são os mesmos que os de uma casa de repouso ou asilo tradicional da Holanda. A diferença é que os gastos são organizados de maneira distinta. No caso de Hogeweyk, o conceito de atenção integral em pequena escala reduz a necessidade de tantos médicos e enfermeiros. Para manter o local, o governo aporta ? 17,8 milhões anuais, enquanto organizações e doadores entram com ? 1,5 milhão. Cada residente custa ? 6,5 mil por mês. As famílias pagam de ? 150 a ? 2,3 mil por mês, de acordo com a renda mensal.

A Holanda é hoje um dos países com expectativa de vida mais alta na região (80 anos), atrás apenas da Suécia (80,6) e Espanha (80,5). A previsão é de que os gastos do Estado com saúde cresçam 2,9% por ano até dobrarem para ? 174 bilhões em 2040. Isso significa que o gasto per capita com saúde saltará de ? 5,1 mil para ? 9,6 mil em 2040.

Até lá a expectativa de vida da Holanda aumentará para 86 anos, e o número de idosos com doenças relacionadas ao envelhecimento deve crescer de forma significativa. Segundo o estudo "Dutch Public Health Foresight", de 2018, a demência será a principal causa de morte no país em 2040. O número de pessoas com algum tipo de demência irá de 14 mil para 40 mil. O mesmo vale para outras doenças, como diabetes. Espera-se que até 2040 o número de pessoas com ao menos um tipo de doença crônica vá de 8,5 milhões para 10 milhões.

Com o envelhecimento da população mundial em curso, a discussão sobre como envelhecer se faz importante não apenas na Holanda. A Organização Mundial de Saúde estima que existam hoje 36 milhões de idosos com demência no mundo. Com 10 milhões de novos casos todos os anos, o número de idosos com demência pode chegar a 152 milhões em 2050. Os custos com a doença, hoje em US$ 818 bilhões anuais, devem seguir esse ritmo.

No Brasil, onde o boom populacional perde fôlego e em 2050 o número de idosos passará dos atuais 10% para 30% da população, o debate em torno dessa economia do cuidado vem crescendo, mas a passos lentos. Ana Amélia Camarano, especialista do Ipea em demografia com ênfase em envelhecimento populacional, lembra que no Brasil a primeira opção para o cuidado de idosos com demência ainda é a família. A outra são os asilos, as chamadas ILPIs - instituições de longa permanência do idoso. São uma modalidade de residência coletiva, mas não unidades de cura como um hospital, afirma Ana Amélia.

Dada a carga pejorativa que a palavra "asilo" tem, em 1985 a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia decidiu mudar o nome para ILPIs. O grau de autonomia dos idosos nessas instituições varia, diz. "Em alguns deles, os idosos entram e saem como se estivessem em um hotel. Não tem a ver necessariamente com a condição financeira, mas com o nível de autonomia", diz Ana Amélia. Ela dá como exemplo o Abrigo Cristo Redentor, na zona norte do Rio, onde os 289 idosos pobres que vivem ali têm cartão magnético e entram e saem na hora que querem. "Há idosos que trabalham fora, que saem para namorar, mas vivem nessa residência coletiva", diz.

O abrigo é uma das duas instituições mantidas pelo governo federal, juntamente com a Casa Gerontológica de Aeronáutica Brigadeiro Eduardo Gomes, restrita a funcionários da Aeronáutica e seus parentes. No Brasil, segundo o Ipea, 65,2% das ILPIs são filantrópicas, 28,2% são privadas e 6,6% são públicas. Os residentes recebem moradia, alimentação e vestuário. Dois terços delas têm visitas médicas regulares. Nas instituições públicas, o gasto médio per capita é de R$ 909,92, enquanto nas privadas e filantrópicas sem fins lucrativos os custos por pessoa são de R$ 738,18 e de R$ 724,52, respectivamente.

Mas Peter Sherlock-Lloyd, da University of East Anglia, em Norwich, Reino Unido, afirma que as ILPIs aqui não estão preparadas para receber idosos com demência em estágio avançado. O especialista em proteção social, saúde e bem-estar dos idosos em países em desenvolvimento vê pouquíssimas opções para essas pessoas. "Parece-me que no Brasil é tudo ou nada. Ou um parente cuidará desse idoso ou a família mandará essa pessoa para uma ILPI, que muitas vezes não tem condições de receber esse idoso com demência avançada", diz Lloyd, que estuda os casos do Brasil, da Argentina, África do Sul e Tailândia. "O mais importante é um espectro de opções entre uma coisa e outra, que incluem apoiar o cuidador e também o idoso."

Para ele, faltam no Brasil tanto políticas públicas quanto conscientização sobre um problema que não é apenas de saúde, mas também social e econômico. "O foco deveria ser reduzir admissões desses idosos aos hospitais que poderiam ser evitadas. Isso reduziria custos de saúde", diz.

Lloyd destaca o equívoco de considerar a família como cuidadora uma opção barata, pois os custos sempre recairão sobre alguém. "Os cuidados sempre têm custos, e é preciso escolher sobre quem recairão. Se será sobre a pessoa com necessidades de cuidados não satisfeitos, que morrerá em breve por isso. Se será sobre a cuidadora que é explorada e não tem o apoio que precisaria. Ou se vai ser um custo para a sociedade, que terá de pagar mais por intervenções e serviços médicos, que poderiam ser evitados", diz. "A sociedade tem de decidir onde quer pôr o peso maior em relação aos gastos."

Desde que surgiu, há quase dez anos e com investimento de ? 19,5 milhões, o Hogeweyk vem inspirando iniciativas semelhantes em outros países. Além de Itália, Canadá e Irlanda, a França também está construindo sua primeira vila da demência. Na chamada Landais Alzheimer, uma equipe de pesquisadores viverá ao lado dos 120 residentes para conduzir um estudo comparativo com os tradicionais asilos. O projeto custará ? 28,8 milhões e deve ser concluído até o fim de 2019. Na Inglaterra, casas vazias atrás do Buckland Hospital, em Dover, serão convertidas na primeira vila da demência do Reino Unido até julho de 2019. O projeto custará ? 3,9 milhões.

O Brasil, afirma Ana Amélia, tem investido muito mais em políticas de envelhecimento ativo, deixando de lado a chamada "velhice dependente". "O olhar para essa velhice frágil deveria ter mais alternativas de cuidado, ou seja, investir em ILPIs de qualidade, treinamento do cuidador ou dar suporte para a família cuidar. A nossa legislação fala que a família é a principal responsável pelo cuidado do idoso, mas o Estado não faz nada para ajudá-la a cuidar", diz.