EUA e Israel deixam Unesco, às vésperas de eleição que pode escolher diretor árabe

Publicado em 13/10/2017 por O Globo

A sede da Unesco em Paris - Philippe Wojazer / REUTERS

WASHINGTON E NOVA YORK - Após anos de tensões com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) pelo que considera uma "tendência anti-Israel", o governo americano anunciou nesta quinta-feira que prevê deixar a agência, atualmente em processo de eleição de um novo diretor-geral. Horas depois, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou que também se preparava para abandonar a organização. A saída, no entanto, não é uma surpresa, em um momento em que Washington vem adotando uma política de retirada de tratados, como o Acordo do Clima de Paris, e de organizações internacionais, como o Nafta. Além disso, a possibilidade de o próximo diretor ser um árabe poderia ter sido a gota d'água para os dois aliados. Desde que suspenderam sua contribuição financeira à agência, em 2011, após a admissão da Palestina como Estado-membro, os EUA acumularam dívidas de cerca de US$ 600 milhões. Em nota, a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, lamentou profundamente o anúncio.

Segundo funcionários, o governo estava se preparando para uma possível retirada há meses, e esperava uma decisão antes do fim do ano. Vários representantes diplomáticos que seriam enviados à missão na agência este ano foram informados que seus postos estavam suspensos e aconselhados a buscar outras vagas. A saída será efetivada em 31 de dezembro de 2018, quando os EUA passarão a Estado observador.

- A decisão não foi tomada rapidamente e reflete a preocupação dos EUA com os crescentes atrasos nos pagamentos à Unesco, a necessidade de uma reforma fundamental na organização e o contínuo preconceito contra Israel - disse a porta-voz do Departamento de Estado, Heather Nauert.

A saída acontece em um período delicado para a agência, que vota para escolher um novo diretor esta semana, em uma eleição marcada por problemas de financiamento e que evidencia as divisões sobre a associação palestina. A liderança do candidato qatari, Adulaziz al-Kawari, que disputa o cargo com a francesa Audrey Azoulay, mas seguidos de perto pelo egípcio Moushira Khattab, é vista pelos dois países como um fracasso nos esforços para eleger alguém que consideram mais amigável. Esta semana, o embaixador israelense na Unesco descreveu a votação como uma "má notícia para a organização e, infelizmente, também para Israel".

Para analistas, a retirada é uma escalada significativa das tensões com a ONU. Em outro movimento similar, Trump deve anunciar hoje sua decisão sobre o acordo nuclear iraniano - tudo indica que o presidente se negará a certificá-lo.

- Este é mais um exemplo da profunda ambivalência do governo Trump e mostra sua determinação de se diferenciar de seus antecessores - afirmou ao "Washington Post" Aaron David Miller, ex-negociador e conselheiro sobre Oriente Médio em governos anteriores.

PAÍS ESTEVE FORA DA AGÊNCIA POR 18 ANOS

Presidente dos EUA, Donald Trump, e premier israelense, Benjamin Netanyahu, se cumprimentam durante entrevista coletiva em Nova York - Evan Vucci / AP

Em julho, a Unesco qualificou à Cidade Velha de Hebron, localizada nos territórios palestinos, como "de valor universal excepcional" e o colocou na lista de patrimônios em perigo. Poucos meses antes, a Unesco havia identificado Israel como uma força de ocupação em Jerusalém. A medida fez com que os EUA afirmassem que analisavam seus vínculos por sua "afronta à História". Na quinta-feira, pouco depois de Washington, Israel qualificou a Unesco de "teatro do absurdo, onde se deforma a História".

- Entramos em uma nova era das Nações Unidas: a que, quando discriminar Israel, terá que assumir as consequências - afirmou o embaixador israelense na ONU, Danny Danon.

Desde 2011, os atrasos de pagamento dos EUA acumularam cerca de US$ 600 milhões, segundo a diretora-geral Irina Bokova. À época, o orçamento americano anual equivalia a 22% do total da organização, algo em torno de US$ 70 milhões. Bokova, no entanto, disse ter reiterado várias vezes que o pagamento imediato não era um problema, mas pedia o reengajamento político dos EUA na organização.

- A universalidade é fundamental para a missão da agência de fortalecer a paz e a segurança internacionais diante do ódio e da violência - afirmou. - É uma perda para a família das Nações Unidas. É uma perda para o multilateralismo.

Assim como Bokova, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lamentou a decisão, mas afirmou que continuará trabalhando com o governo Trump "apesar das diferenças". "Interagimos com os EUA de forma muito produtiva em uma série de questões e continuaremos fazendo isso", disse o porta-voz da ONU, Farhan Haq, minimizando a saída.

Apesar de terem ajudado a criar a Unesco, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA sempre criticaram sua suposta tendência em favorecer os países do Leste Europeu e decisões anti-Israel. Em 1984, o então presidente Ronald Reagan decidiu retirar o país da agência, alegando suspeitas de corrupção e favorecimento de países do bloco soviético. O retorno só aconteceria em 2002.