Fala de Bolsonaro sobre Eletrobras leva a queda das ações

Publicado em 11/10/2018 por Valor Online

Fala de Bolsonaro sobre Eletrobras leva a queda das ações

A declaração feita, na terça-feira à noite, pelo candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, de que não pretende privatizar o "miolo" da Eletrobras praticamente põe uma pá de cal na possibilidade de venda do controle da estatal elétrica brasileira em 2019. O outro candidato ao Planalto, Fernando Haddad (PT) é declaradamente contrário à privatização da companhia.

O projeto de lei que prevê a desestatização da Eletrobras está em trâmite no Congresso. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), porém, já afirmou que o texto será votado apenas em 2019.

Em entrevista à TV Bandeirantes, Bolsonaro disse ser contra a privatização do "miolo" da Eletrobras e da Petrobras. "Para mim, energia elétrica a gente não vai mexer. Até converso com o Paulo Guedes [economista da campanha]. O que dá errado lá é indicação política. Nós vamos indicar as pessoas para compor isso [o comando da estatal de energia]. Você não pode privatizar para qualquer capital do mundo. A China está comprando o Brasil. Você vai deixar nossa energia na mão do chinês?", disse, comparando o setor elétrico com um galinheiro de que a pessoa tira seu sustento da venda de ovos e galinhas, mas, privatizando, não sobram ovos para ela comer. "Você não vai ter a garantia no final de semana de comer um ovo cozido. Vamos deixar a energia na mão de terceiros?"

A fala do presidenciável provocou uma queda acentuada as ações da Eletrobras na bolsa. Ontem, às 13h30, as ações ordinárias da companhia registravam queda de 11,62%, negociadas a R$ 20,15. E os papéis preferenciais recuavam 13,51% a R$ 23,17.

A posição de Bolsonaro contrariou levantamentos feitos por entidades ligadas ao setor elétrico, que haviam identificado uma simpatia de Bolsonaro à privatização da Eletrobras. Elas também indicavam que o candidato é favorável à venda das distribuidoras, o que ele confirmou na entrevista. "Você pode conversar sobre distribuição. Geração não, de jeito nenhum."

Mais radical com relação ao assunto, Haddad defende, em seu programa de governo, a "retomada do controle público, interrompendo as privatizações". Ele acrescenta que a "Eletrobras retomará seu papel estratégico, no sistema energético brasileiro, contribuindo para a expansão da geração e transmissão de energia no país".

Apesar de os levantamentos das entidades do setor elétrico terem identificado que Haddad é contrário à privatização das distribuidoras da Eletrobras, vale lembrar que a decisão de colocar essas subsidiárias à venda foi tomada ainda durante o governo de Dilma Rousseff.

Restam apenas duas distribuidoras a serem privatizadas. A primeira é a Amazonas Energia, cujo leilão está previsto para 25 de outubro. A outra é a Ceal, do Alagoas, cuja privatização está suspensa por uma liminar concedida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski.

A declaração de Bolsonaro indiretamente também colocou na berlinda as estatais chinesas que investem no país. Alvo de críticas do candidato, as companhias chinesas possuem quase 10% da capacidade instalada do parque gerador brasileiro. Juntas, a CTG Brasil, a CPFL Energia (controlada pela State Grid Corporation of China) e a State Power Investment Corporation (SPIC) possuem 15,36 mil megawatts (MW) instalados, principalmente de usinas hidrelétricas e eólicas. O montante corresponde a 9,6% da capacidade do sistema brasileiro, de 160 mil MW.

Em transmissão, a principal empresa chinesa no país é a State Grid Brazil Holding (SGBH), também controlada pela State Grid Corporation of China (SGCC). Primeira chinesa a aportar no Brasil, a companhia possui 6,04 mil km de linhas de transmissão em operação no país, com destaque para os dois linhões que fazem o escoamento da energia da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA), para o Sudeste, com mais de 2 mil km cada. Um dos linhões ainda está em construção.

Proporcionalmente, considerando os ativos em construção, a SGBH tem pouco mais de 5% de todo o sistema de transmissão em alta tensão do país.

Em distribuição, a participação das chinesas, por meio da CPFL Energia e da EDP Energias do Brasil (da qual a CTG tem participação na holding portuguesa), é ainda maior. Considerando o universo de clientes da CPFL e EDP, de 15,3 milhões unidades, a participação chinesa direta ou indireta no segmento é de 18,6% do total de 82,4 milhões de consumidores do país.

Ontem, o presidente do PSL, Gustavo Bebianno, afirmou que o eventual governo de Bolsonaro não descarta privatizar a Petrobras no médio ou longo prazo. Em entrevista à Reuters, Bebianno disse, porém, que antes de privatizar seria necessário fazer um processo de saneamento geral da estatal. No curto prazo a venda é descartada.

Na entrevista, o dirigente disse que o processo de saneamento da Petrobras no curto prazo passa obrigatoriamente por tirar integrantes do PT, MDB e de outros grupos políticos. "A empresa precisa ser revitalizada, tem que tirar a petralhada toda de lá, tirar o pessoal do MDB de lá e aí pode ser que um dia a gente pense em privatização, mais para frente." Ao ser questionado se após esse processo de saneamento estaria aberto o caminho para uma privatização no médio prazo, Bebianno disse que sim, "mas muito mais para frente". (Colaborou Carolina Freitas, de São Paulo)